terça-feira, 17 de abril de 2018

Um jogo de cartas marcadas


"Aqueles que porventura estejam bravos com os discursos caricatos, tanto da direita quanto da esquerda, precisam aprender o básico: ambas as orientações são maçônicas e foram adotadas durante a Revolução Francesa. Por falar em Revolução Francesa, o que vocês hoje conhecem por comunismo não foi arquitetado por Marx, e sim por Engels a mando da Franco-Maçonaria Templária. Surpresos? Pois não deveriam estar.
Agora imaginem um esquerdista, cujas sinapses cerebrais foram demolidas por técnicas de controle mental (leiam Maquiavel Pedagogo) que suplantam a doutrinação ideológica em muitos níveis, descendo até o limbo ocultista e metafísico para só então desconstruir-se e entender que ele é mais um operário do império da mentira. Difícil, não? Porém o mesmo também ocorre com a direita amestrada, seja ela conservadora tosca ou liberal economicista.
Enquanto os insatisfeitos não pescarem os cacoetes "ideológicos" que pendem para um jogo de cartas marcadas, ficarão eternamente insatisfeitos com os rumos da direita e da esquerda, reclamando que a primeira virou a segunda e que a segunda virou a primeira.
É preciso sair das águas permitidas e desbravar o além-mar.”
(David Amato, Feministas, Guerra Cultural, Família e Discursos: Notas)

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sábado, 14 de abril de 2018

"O Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo"

“Há quem pense que de modo algum participa nos dons do Espírito Santo. Devido à sua negligência em levar à prática os mandamentos, essas pessoas não sabem que quem mantém inalterada a fé em Cristo reúne em si mesmo todos os dons divinos. É natural que quando, por inércia, nos encontramos longe do amor ativo que devíamos ter por Ele – esse amor que nos mostra os tesouros de Deus escondidos em nós –, pensemos que não estamos a participar nos dons divinos.
Se “Cristo habita pela fé nos nossos corações”, segundo o apóstolo Paulo (Ef 3, 17), e se nele “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Col 2, 3), todos esses tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos nos nossos corações. Mas revelam-se ao coração na medida da purificação de cada um, dessa purificação que os mandamentos suscitam. Tal é o tesouro escondido no campo do teu coração, que ainda não encontraste, devido à tua preguiça. Porque, se o tivesses encontrado, terias vendido tudo, para adquirir esse campo. Mas agora abandonaste o campo e procuras em seu redor, onde apenas existem espinhos e silvas. É por isso que o Salvador afirma: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Vê-Lo-ão e verão os tesouros que estão nele, quando se tiverem purificado, pelo amor e pela temperança. E vê-Lo-ão tanto mais, quanto mais se tiverem purificado.”
(São Máximo, o Confessor, Quarta Centúria sobre a Caridade)

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terça-feira, 10 de abril de 2018

Santo Tomás de Aquino e a saudade


“A interação palavra-vida torna-se ainda mais decisiva quando se trata de atingir sentimentos mais sutis e complexos do coração humano: neste caso, cada povo costuma gerar a palavra que se apropria do sentimento que lhe é mais conatural e, reciprocamente: o sentimento se torna como que conatural porque a palavra se apodera do falante desde a infância.
Como tão bem apontou Fernando Pessoa, numa das "Quadras ao gosto popular", para o caso da saudade:
Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Saudade é aquele complexo agridoce - dor gostosa; dor que não é pura dor, mas prazer; prazer que dói -, assim descrito na genial quadrinha popular:
Saudade, ainda que doa
Tu és nesta vida fugaz
A única coisa boa
De todas as coisas más

Como, por exemplo, traduzir para outra língua o verso da canção de Isolda:
"Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter...?"
Tomás, no século XIII (quando mal havia português e não estava formada a palavra “saudade”), fez um agudo diagnóstico - em que inclui até a explicação causal - da saudade: a dor - diz ele - é por si contrária ao prazer, "mas pode acontecer que um efeito per accidens da dor seja deleitável, como quando produz a recordação daquilo (pessoa, terra, etc.) que se ama e faz perceber o amor daquilo por cuja ausência nos doemos. E assim, sendo o amor algo deleitável, a dor e tudo quanto provém desse amor também o serão" (I-II, 35, 3 ad 2).
Se a caracterização em si já é perfeita, ela se mostra mais genial ainda quando nos lembramos que Tomás não era português nem brasileiro...”
(Jean Lauand, Tomás de Aquino e o Neutro)

sábado, 7 de abril de 2018

O início da vida humana


“A defesa da vida, cujos maiores inimigos atuais são os favoráveis ao aborto, passa pela compreensão de quando inicia a vida humana. A resposta a esta pergunta é dada pela própria ciência biológica, através da Embriologia Humana, e não é necessário que se recorra a argumentos teológicos para lidar com a questão. O objeto da Teologia, que também é uma ciência, é outro, apenas isto. O mesmo acontecendo com a Filosofia, o Direito, etc.. - são ciências, com seus objetos próprios, mas que não têm a contribuir para a questão do conhecimento de quando inicia a vida humana.
A questão do aborto está diretamente ligada a esta compreensão do início da vida humana. É exatamente neste ponto, no início de uma nova vida, que a retórica abortista mais se sente à vontade para dar vazão ao seu discurso de termos pejorativos ao nascituro: “amontoado de células”, “simples tecido”, “parasita”, etc. Esta fase da vida humana é a mais fácil de ser utilizada por estes grupos para seus rotulamentos. Tais termos são usados com um único objetivo: desumanizar o nascituro, negando-lhe aquilo que já está presente desde sua concepção e que lhe é mais importante, sua humanidade.
Porém, dizer que o fruto da concepção não é uma vida humana, como inúmeros abortistas dizem, não encontra qualquer respaldo científico. O afirmado pela Embriologia Humana é exatamente o contrário, que a vida humana tem seu início na concepção. As citações abaixo, em tradução livre, são retiradas de livros que são referência na área de Embriologia Humana.
Keith Moore and T. V. N. Persaud, The Developing Human: Clinically Oriented Embryology (6th ed. only) (Philadelphia: W. B. Saunders Company, 1998):
"O desenvolvimento humano é um processo contínuo que inicia quando um oócito (óvulo) de uma fêmea é fertilizado pelo esperma (ou espermatozóide) de um macho"
"... mas o embrião começa a se desenvolver logo que o oócito é fertilizado" (p. 2)
"Zigoto: esta célula resulta da união de um oócito e um esperma. Um zigoto é o início de um novo ser humano (ou seja, um embrião)." (p. 2)
"O desenvolvimento humano inicia na fertilização, processo durante o qual o gameta masculino ou esperma (...) une-se com um gameta feminino ou oócito (...) para formar uma célula única, chamada zigoto. Esta célula altamente especializada e totipotente marca o início de cada um de nós como um ser individual" (p. 18)
William Larsen, Human Embryology (New York: Churchill Livingstone, 1997):
"Neste texto iniciamos nossa descrição do desenvolvimento humano com a formação e diferenciação das células femininas e masculinas ou gametas, que unir-se-ão na fertilização para iniciar o desenvolvimento embrionário de um novo indivíduo. (...) A fertilização ocorre nas Trompas de Falópio (...) resultando na formação de um zigoto contendo um único núcleo diplóide. Considera-se que o desenvolvimento embrionário inicia-se neste ponto" (p. 1)
"Este momento da formação do zigoto pode ser considerado como o início ou momento zero do desenvolvimento embrionário" (p. 17)
Ronan O'Rahilly and Fabiola Muller, Human Embryology & Teratology (New York: Wiley-Liss, 1994):
"A fertilização é uma etapa importante, pois, sob condições normais, um novo e distinto organismo humano é assim formado" (p. 5)
"A fertilização é o processo de eventos que inicia quando um espermatozóide faz contato com um oócito (...)" (p. 19)
"O zigoto (...) é um embrião unicelular" (p. 19)

Ou seja, a ciência, representada aqui pela Embriologia Humana, já sabe muito bem quando uma nova vida é iniciada: na concepção, na fertilização, que nada mais é que o encontro entre os gametas masculino e feminino. É neste exato ponto que a ciência pode dizer que há a formação de um novo ser humano.
Não existe dúvida quanto a isto, mas o que há atualmente é uma tentativa de politização da questão, criando-se figuras estranhas ao processo, tal como um estágio de “pré-embrião”, para que o aborto torne-se aceitável, mesmo nas primeiras etapas da gravidez.
Então, quando um abortista vier com um discurso de que não se sabe quando a vida começa como forma de preparar o terreno para sua defesa do aborto, é só dizer-lhe que a ciência já deu esta resposta há tempos e que ele deveria se atualizar. Se ele o fizer e não mudar de opinião, pode-se bem ver o quanto ele se importa com a vida humana. Mas se ele nem mesmo procurar se inteirar sobre o assunto, é para se perguntar quem afinal são os obscurantistas?”

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

A história da Igreja será necessariamente uma imitação da história de Cristo


“Acabo de ler um artigo de meu bom amigo Gladstone Chaves de Melo, que andou a correr terras de Europa em missão diplomática e agora se acha em Lisboa como adido cultural. O autor do artigo intitulado “Depois de procelosa tempestade” conta o que viu e ouviu nas missas e nos meios católicos que visitou, e concluiu com palavras de Camões que
Depois de procelosa tempestade,
Noturna sombra e sibiliante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de porto e salvamento;
Aparta o sol a negra escuridade
Removendo o temor ao pensamento.
Gladstone Chaves de Melo conclui que as tolices já se desgastaram e que já se vê por toda a parte o que Guerra Junqueiro chamaria “um rosicler d’aurora”. Ora, a mim me parece, tranqüila e objetivamente, que nosso colaborador se engana, talvez pelo fato de ter corrido muitos lugares e por dar excessivo valor ao que viu por onde passou, como viajante, como estranho, para não dizer como turista. Nós outros que ficamos imóveis pudemos apreciar melhor o agigantado volume de estupidez que invade a América Latina vindo de Roma e de toda a cristandade, e a mim me parece que, para tais ponderações, vale mais a leitura repousada do que as locomoções.
Há certa semelhança entre o que diz Gladstone e o que diz Maritain em Le Paysan de la Garonne (p. 79), onde afirma que este erro de hoje é menos perigoso que o primeiro (o maniqueísmo larvado (?)) e que “terá duração menos longa… porque, quando a tolice se excede no meio cristão, é preciso que ela se dissolva depressa, ou que se destaque decididamente da Igreja”.
Parece-me mais sensato pensar que quanto maior for a onda de sottise maior será a devastação, e mais difícil será a recuperação. Descambando na ladeira dos reformismos acelerados, os eclesiásticos se entregam à lei da matéria, e à famosa lei da entropia crescente a que tantas vezes já aludi e que se exprime pela improbabilidade extrema de passar a matéria do estado menos diferenciado para o mais diferenciado e organizado.
É claro que se desgastam com certa rapidez os erros e as fantasias feitos com o sangue de nosso Salvador; mas é claríssimo que logo terá substituta a asneira encalhada por falta de freguesia; porque a calamidade básica permanece. E qual é essa calamidade básica? Salta aos olhos que é a ausência de autoridade, e até a complacência que em seus diversos escalões a hierarquia manifesta pelos heréticos, pelos atrevidos, pelos propagandistas de uma nova religião. Aqui no Brasil um Boff é festejado por bispos e cardeais. Na América Latina ensinam-se descaradamente o marxismo e o socialismo, e são bispos e arcebispos que promovem tal revolução. Em Saragoza, os padres que tiveram a ingênua idéia de se unirem para um integral apoio à tradição e ao Papa não receberam do Papa o menor sinal de agrado, e só encontraram nas amaldiçoadas conferências episcopais a mais agressiva oposição. Na Igreja e na Civilização alastram-se os erros mais funestos. As casas religiosas se desagregam, as vocações desaparecem, e nos seminários ainda existentes o que se ensina já não é o cristianismo, é outra religião que usa o nome de Jesus Cristo que ainda tem mercado. Onde estão os sinais de “serena claridade”, onde a brisa amena, onde o “rosicler d’aurora”?
Além disso ponderemos uma coisa que escapou aos dois otimistas, Gladstone e Maritain, esperançosos ambos na passagem rápida da tempestade de asneiras e na volta à normalidade. Ponderemos a irreversibilidade das demolições, das degradações, dos desmoronamentos individuais e coletivos. Como se processará, por exemplo, a recuperação do Colégio Sacré Coeur destruído e vendido? Como se recuperarão as religiosas que rolaram até a prostituição? E como se deterão os efeitos dos erros entregues à lei da matéria e da inércia?
Por mim, e diante de Deus o digo com a maior convicção, não me parece acertada nem generosa essa pregação em que o pregador tão evidentemente se engana a si mesmo para depois poder enganar os outros. Não creio que nossa santa religião se nutra da mentira vital de Ibsen, ou da filosofia da autotapeação.
A verdade incontornável é a do processo de alargamento da conspiração mundial contra a Igreja de Cristo, promovida com o apoio de seus levitas que não abandonam oportunidade tão propícia para os profissionais do sensacionalismo e do escândalo.
Que figuras quereriam os otimistas que a Igreja imitasse? Que itinerário esperariam que ela copiasse? O dos negociantes prósperos? O dos generais vitoriosos?
A história da Igreja será necessariamente uma imitação da história de Cristo. Teve sua infância obscura, teve o massacre dos inocentes, teve um período de construção e consolidação da doutrina da Salvação. Teve durante mil anos o domingo de Ramos. Entrou depois em quatro séculos de Gethsemani. E agora terá não sei quantos milênios de flagelação.
Estamos no começo do segundo mistério doloroso. O Corpo Místico de Cristo é insultado, chicoteado, cuspido. E a mais bela das casas expõe aos viandantes um deplorável aspecto de desolação e ruína. Virão depois os milênios da coroa de espinhos, os milênios do caminho da cruz e os milênios da crucificação. O que não é admissível – mas foi longamente admitido por equívoco – é a confortável e rotineira instalação da Igreja no Mundo. E o que também não é admissível é que a promessa de que não prevalecerão as portas do Inferno se aplique aos Suíços do Vaticano, aos paramentos e à cor das meias dos prelados. Entre as notas essenciais da Igreja sabemos que sua santa visibilidade foi desde o início concebida por Deus, mas também sabemos que a Igreja não é visível em todas as suas partes, nem é sempre visível em todos os momentos naquelas partes em que se concentra o fulgor de sua visibilidade.
Preparemo-nos, sem ilusões, sem apegos, e sem medo, ao dia do grande eclipse. Não nos enganemos, não nos iludamos, não nos esquivemos: a idéia de uma restauração a breve prazo nos compele à fantasmagoria grotesca que certamente Gladstone e Maritain não subscreveriam. Eu vejo uma procissão de arrependidos, de frades descasados, de filhos de padres involuídos ao útero e ao nada, vejo milhões de lúmens se restaurarem, e vejo, num paroxismo de esperanças drogadas, uma abadessa a criticar severamente os ensaios da “grande reverence” que as noviças deveriam fazer no claustro cada vez que cruzassem com a abadessa. Não estou com nenhuma vontade de rir. Por vários motivos tudo hoje me inclina mais depressa à lágrima, mas não posso deixar de achar engraçado esse otimismo que tanto subestima a energia nuclear da burrice humana hoje aplicada com zelo às coisas santas.
Amigos, unamo-nos, agarremo-nos à cruz de Nosso Senhor, à Igreja essencial, ao cerne, ao Corpo Místico, e às cinco chagas de Cristo. Com toda a força de nossa Esperança repilamos as esperanças enganosas e esperemos no cerne da Igreja, in medio Ecclesiae, o verdadeiro despontar da aurora de um Novo Mundo.
E resistamos fortes na fé, como tantas vezes nos disse o mesmo amigo distante Gladstone Chaves de Melo.”
(Gustavo Corção, Um Otimismo Descabido)

domingo, 1 de abril de 2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

Paul Celan: Fuga da Morte


Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos de noite nós o bebemos bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
escreve e se planta diante da casa e as estrelas faíscam ele assobia para os seus Mastins
assobia para os seus judeus manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos agora toquem para dançar

Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
Um homem mora na casa e bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
Teu cabelo de cinzas Sulamita cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado

Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar

Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita ele bole com cobras
Ele brada toquem a morte mais doce a morte é um dos mestres da Alemanha
ele brada toquem mais fundo os violinos vocês aí sobem como fumaça no ar
aí vocês têm um túmulo nas nuvens lá não se jaz apertado

Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um dos mestres da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é um dos mestres da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é um dos mestres da Alemanha

teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita


Tradução Modesto Carone

segunda-feira, 26 de março de 2018

A mudança do Estado


“Hoje o Estado dirige a economia e se passa por empresário; supervisiona a educação e administra o ensino em todos os níveis; intervém na vida da família e inclusive promove planos de controle de natalidade. Em plena monarquia absoluta – cujo apogeu na França coincidiu com o reinado de Luis XIV – o Estado não fazia nada disso, embora desse os primeiros passos na política de uma economia dirigida, pálida imagem da que atualmente temos ante nossos olhos. As autoridades sociais daquela época, embora já sem o poder e o prestígio que haviam gozado em séculos anteriores, desempenhavam, em sua esfera de ação, um papel de grande importância, o que implicava numa ampla descentralização na sociedade política. Se nos remontássemos a épocas mais distantes, veríamos o vigor com que essas autoridades sociais, nas monarquias cristãs da Idade Média, limitadas e representativas, cumpriam tarefas que ninguém imaginava que pudessem ser exercidas pelo soberano, ao qual correspondia salvaguardar o interesse de toda coletividade, manter a paz e fazer cumprir a justiça, sem imiscuir-se nem na organização do trabalho que incumbia às corporações de ofício, nem no ensino, nem na assistência social proporcionadas pela Igreja, nem nas Universidades que desfrutavam da autonomia que foi perdida com a intromissão estatal. Mas não era apenas isso. Até mesmo o poder de polícia, a faculdade de tributação e a força armada escapavam das mãos do monarca, pois os senhores feudais mantinham a ordem pública em seus domínios, cobravam impostos e mobilizavam tropas quando ainda não havia exércitos permanentes. Então, o que fazia o rei? Muito pouco. E onde estava o Estado: na verdade, eclipsou-se na sociedade feudal. A Idade Média, como já foi dito, foi a idade de ouro das comunidades, ao irradiar-se as funções do Estado no conjunto orgânico das sociedades. A fragmentação da soberania e a descentralização são as duas marcas características apontadas pelos juristas e historiadores ao caracterizar o feudalismo”.
(José Pedro Galvão de Sousa, El Cambio del Estado)

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quinta-feira, 22 de março de 2018

Como será o Anticristo?

“Como será o Anticristo? Sabemos que, em Paulo, nas cartas de João e no Apocalipse, existem espalhados por toda parte vários avisos prévios de uma realidade na tradição cristã identificada como (e eu vou citar um livro de Teologia) “o príncipe do mal que virá e reinará sobre o mundo no fim dos tempos, antes do retorno definitivo do Filho do homem estabelecer os novos céus e nova terra”.
Em muitas eras, os crentes pensaram identificar com aquela misteriosa figura algum personagem histórico sanguinário: Nero, Átila, Napoleão, Lenin, Stalin e Hitler.
No entanto, há também uma tradição cristã, mesmo se minoritária, que coloca o perigo do Anticristo (“homem do pecado” e “filho da perdição” de São Paulo) não em violência e sangue, mas no mimetismo dissimulado de uma persuasiva e convidativa realidade. O livro de Robert H. Benson, de 1907, O Senhor do Mundo, só recentemente foi traduzido para o italiano e nele o grande adversário de Jesus se apresenta sob o disfarce de “humanista”, um mestre da tolerância, pluralismo, irenismo e ecumenismo; [Ele é] um corruptor sorridente, mais do que um antagonista estridente do Evangelho; um anulador de dentro mais do que um assaltante do exterior.
Talvez, até agora, poucos souberam que alguns anos mais tarde, em 1916, a mesma tese foi reproposta por Carl Schmitt. Schmitt morreu em 1985 com quase 100 anos de idade, e está entre os que mais vamos ouvir a respeito nos próximos anos: já há uma indicação exata disto (aumentando a cada dia) na esmagadora bibliografia de sua obra, que foi por décadas reprimida e exorcizada, uma vez que ele era, de fato, suspeito de nacional-socialismo. Na realidade, este brilhante jurista alemão e especialista em política foi rapidamente descartado pelo Terceiro Reich (no qual, inicialmente, ele viu tão bem o cumprimento de alguns pontos de sua teoria política) na medida em que ele foi acusado de “insuficiente e superficial anti-semitismo ” e acima de tudo por causa de suas “corrupções católicas”.
Na realidade – como estudos recentes têm confirmado – o catolicismo de Schmitt não era simplesmente cultural e determinado por seus estudos de juventude em escolas religiosas, mas foi uma fé professada e vivida até o fim. O que torna este pensador tão inquietantemente fascinante (redescoberto agora ainda por ex-esquerdistas, em sua busca confusa por “mestres”, após o colapso de todos os seus pontos de referência) é que ele inseriu [no seu trabalho], com o realismo maquiavélico e hobbesiano, temas religiosos como culpa, redenção, salvação, Cristo e o Anticristo. Foi dito que fazia uma espécie de “teologia política”, embora para aqueles que o leiam atentamente, o seu trabalho seja, talvez, “política teológica”: uma discussão sobre a ordem humana das coisas, 1) por ter também em conta o transcendente e 2) por um confronto com a história, com a consciência de que não é o quadro geral, mas está destinada a fluir para um mistério que vai muito além dela.
A partir de 1916, como militar no exército bávaro, o Carl Schmitt de 28 anos de idade começou suas reflexões sobre o Anticristo, com um livro dedicado ao Nord-licht (“Luzes do Norte” ou seja, “a aurora”) por Theodor Däubler. O jovem Schmitt, nestas páginas, cita um texto que ele encontrou em “Latin Sermo de fine mundi” de Santo Efrém. Vale a pena citar o original daquela passagem realmente singular, segundo a qual, o grande enganador irá provocar a apostasia de muitos antes da definitiva vitória de Cristo: «erit omnibus subdole placidus, munera non suscipiens, personam non praeponens, amabilis omnibus, quietus universis, xenia non appetens, affabilis apparens in proximos, ita ut beatificent eum omnes homines dicentes: Justus homo hic est!». O que significa dizer: “dissimuladamente, ele vai agradar a todos, ele não vai aceitar cargos ou funções, ele não vai mostrar favoritismo para com as pessoas, vai ser amável para com todos, calmo em todas as coisas, irá recusar presentes, parecerá afável com o próximo, e assim, todos irão elogiá-lo exclamando: ‘Eis um homem justo!'”. Este trecho, do latim de São Efrém, tem uma perspectiva inquietante: o anticristo sob o disfarce enganoso de “um homem de diálogo”; um pacífico, contido, honesto “humanista”? É precisamente a essa identidade do adversário que Schmitt parece favorável: para ele, o Anticristo surgirá a partir de uma sociedade semelhante ao Ocidente moderno, em que: “os homens são pobres diabos que sabem de tudo e não acreditam em nada”; uma sociedade onde “os mais novos e as coisas mais importantes são secularizadas: a beleza tornou-se o bom gosto, a Igreja é uma organização pacifista e no lugar da distinção entre o bem e o mal, o que é útil e prejudicial.”
Em tal cultura, o dissimulado, “dialogador” Anticristo fará crer que a salvação depende de certezas sociais e de desenvolvimento. Acima de tudo, (e esta é uma das intuições mais inquietantes do ainda jovem Schmitt), o Anticristo não será um materialista, nem um inimigo da religião: antes,”ele irá prover todas as necessidades, incluindo aquelas de ordem espiritual”.
Ele irá satisfazer o desejo do homem para a transcendência, falando sobre espiritualidade, propondo uma “religião da humanidade”, onde todos estão de acordo com tudo e onde qualquer divergência é banida, e, acima de tudo, qualquer dogma é visto como um mal radical.
No momento da sua escrita, logo no início do século 20, a prospectiva de Schmitt passou praticamente despercebida, parecendo decididamente improvável. No entanto, não é talvez o caso de refletir sobre isso hoje, quando o que está nos ameaçando, na esfera religiosa, certamente não é mais a intolerância, mas se alguma coisa, o seu oposto: a “tolerância” que se transforma em indiferença, recusando-se a considerar as várias religiões como algo mais do que uma forma única (diferenciadas apenas por fatores históricos e geográficos) de venerar o mesmo, idêntico Deus? Onde o “inimigo” não é mais o velho, honesto materialismo, mas talvez um insidioso “humanitário” espiritualismo?”
(Vittorio Messori, Pensare la Storia)

Tradução de Frates in Unum

segunda-feira, 19 de março de 2018

A natureza do marxismo


“Investigando durante décadas a natureza do marxismo, acabei concluindo que ele não é só uma teoria, uma “ideologia” ou um movimento político. É uma “cultura”, no sentido antropológico, um universo inteiro de crenças, símbolos, valores, instituições, poderes formais e informais, regras de conduta, padrões de discurso, hábitos conscientes e inconscientes, etc. Por isso é autofundante e auto-referente, nada podendo compreender exceto nos seus próprios termos, não admitindo uma realidade para além do seu próprio horizonte nem um critério de veracidade acima dos seus próprios fins autoproclamados. Como toda cultura, ele tem na sua própria subsistência um valor que deve ser defendido a todo preço, muito acima das exigências da verdade ou da moralidade, pois ele constitui a totalidade da qual verdade e moralidade são elementos parciais, motivo pelo qual a pretensão de fazer-lhe cobranças em nome delas soa aos seus ouvidos como uma intolerável e absurda revolta das partes contra o todo, uma violação insensata da hierarquia ontológica.
A constituição da sua identidade inclui dispositivos de autodefesa que impõem severos limites à crítica racional, apelando, quando ameaçada real ou imaginariamente, a desculpas mitológicas, ao auto-engano coletivo, à mentira pura e simples, a mecanismos de exclusão e liquidação dos inconvenientes e ao rito sacrificial do bode expiatório.
Iludem-se os que acham possível “contestar” o marxismo por um ataque bem fundamentado aos seus “princípios”. A unidade e a preservação da sua cultura estão para o marxista acima de todas as considerações de ordem intelectual e cognitiva, e por isso os “princípios” expressos da teoria não são propriamente “o” fundamento da cultura marxista: são apenas a tradução verbal, imperfeita e provisória, de um fundamento muito mais profundo que não é de ordem cognitiva e sim existencial, e que se identifica com a própria sacralidade da cultura que deve permanecer intocável. Esse fundamento pode ser “sentido” e “vivenciado” pelos membros da cultura por meio da participação na atmosfera coletiva, nos empreendimentos comuns, na memória das glórias passadas e na esperança da vitória futura, mas não pode ser reduzido a nenhuma formulação verbal em particular, por mais elaborada e prestigiosa que seja. Por isso é possível ser marxista sem aceitar nenhuma das formulações anteriores do marxismo, incluindo a do próprio Marx. Por isso é possível participar do movimento marxista sem nada conhecer da sua teoria, assim como é possível rejeitar criticamente a teoria sem cessar de colaborar com o movimento na prática. A investida crítica contra as formulações teóricas deixa intacto o fundamento existencial, que atacado reflui para o abrigo inexpugnável das certezas mudas ou simplesmente produz novas formulações substitutivas que, se forem incoerentes com as primeiras, não provarão, para o marxista, senão a infinita riqueza do fundamento indizível, capaz de conservar sua identidade e sua força sob uma variedade de formulações contraditórias que ele transcende infinitamente. O marxismo não tem “princípios”, apenas impressões indizíveis em constante metamorfose. Como a realidade da vida humana não pode ser vivenciada senão como um nó de tensões que se modificam no tempo sem jamais poder ser resolvidas, as contradições entre as várias formulações do marxismo farão dele uma perfeita imitação microcósmica da existência real, dentro da qual o marxista pode passar uma vida inteira imune às tensões de fora do sistema, com a vantagem adicional de que as de dentro estão de algum modo “sob controle”, atenuadas pela solidariedade interna do movimento e pelas esperanças compartilhadas. Se o marxismo é uma “Segunda Realidade”, na acepção de Robert Musil e Eric Voegelin, ele o é não somente no sentido cognitivo das representações ideais postiças, mas no sentido existencial da falsificação ativa, prática, da experiência da vida. Por isso qualquer povo submetido à influência dominante do marxismo passa a viver num espaço mental fechado, alheio à realidade do mundo externo.”

http://www.olavodecarvalho.org