quinta-feira, 18 de agosto de 2016

É a cultura que influencia o comportamento sexual e não o nível de renda

“No post sobre o texto "Me deixem ser pai da minha filha" (http://on.fb.me/1BplI2n), mostrei os problemas diretamente relacionados à ausência paterna na criação de filhos e, das poucas objeções nos comentários, destaco duas: exemplos de mães que criaram bem seus filhos sem pai e a idéia de que os números apresentados são resultado da pobreza e não da ausência paterna. Vamos esclarecer as duas.
Em primeiro lugar, um erro comum nesse tipo de discussão é achar que ciências sociais são exatas. Quando se diz que um fator contribui para um determinado resultado não quer dizer que toda vez acontecerá dessa forma, apenas que há uma tendência e é essa tendência que está sendo medida.
Sempre haverá um "ah, eu conheço o fulano que foi diferente", o que não invalida em nada as conclusões gerais ou os números apresentados. Uma pesquisa que mostre que crianças que usam drogas têm problemas escolares, por exemplo, não é invalidada porque alguém diz "ah, mas eu conheço um menino que cheirou cocaína e passou de ano". O importante em sociologia e nesse tipo de levantamento é entender a tendência geral do comportamento em uma determinada situação e não a busca de regras gerais que sejam aplicáveis a 100% dos casos.
Sobre os números e a pobreza, há uma mistura de ignorância e preconceito em relação aos pobres, como se pobreza e sexo livre fossem sinônimos. No gráfico do post você vai ver que em 1963, um ano antes de Lyndon Johnson lançar seu pacote de medidas assistencialistas batizado de "Great Society", 93% das crianças americanas nasciam em lares de pais casados contra apenas 40% hoje. Houve uma radical mudança cultural no país e não econômica. Repare também que na década de 30, período da Grande Depressão, praticamente não houve alteração do índice.
A queda vertiginosa do número de crianças nascidas em lares de pais casados em 50 anos nos EUA não tem nada a ver com a variação dos níveis de pobreza mas com as idéias disseminadas pela elite cultural ocidental a partir dos anos 60, que foram particularmente impactantes nas faixas de renda mais baixas da população. O aumento do índice de crianças geradas por mães solteiras não foi causado pela pobreza, pelo contrário, foi a pobreza, a falta de informação e uma tendência a mimetizar o comportamento das celebridades e elites que se mostraram um terreno fértil para a assimilação dessas idéias. É como o nome de crianças de celebridades e de pais ricos que, em cinco a dez anos, viram moda para o resto da população, como mostrado por Levitt e Dubner em "Freakonomics".
Existe uma relação entre casamento e padrão de vida, claro, o que já foi medido em diversas pesquisas. Crianças nascidas de mães solteiras nos EUA são pobres em 36,5% dos casos, enquanto apenas 6,4% das crianças criadas por pais casados são pobres, e é por isso que muitos defendem que o casamento é a maior arma contra a pobreza no país.
A educação é outro fator importante nessa tendência. Das mães que não completaram o ensino médio, 67,4% tiveram filhos sem estar casadas, enquanto apenas 8,1% das mães com curso superior completo tiveram o filho solteiras.
Outro dado que deve ser mencionado é que 71,2% das famílias pobres com crianças nos EUA são comandados por solteiros, um número que despenca para 26% entre os lares fora da linha da pobreza.
Quando se juntam os dados de educação e estado civil, os números ficam ainda mais gritantes. Lares com crianças em que o responsável pela casa é casado e tem curso superior estão na pobreza em apenas 1,5% dos casos, ou seja, se você tem curso superior completo e é casado com filhos nos EUA, sua chance de ser pobre é próxima de zero. Já se o responsável pelo lar é solteiro, não completou o ensino médio e tem filhos, sua chance de ser pobre é de 47%.
É claro que números como esses levam a uma leitura apressada de alguns que saem gritando "tá vendo? é a pobreza!" por não se darem ao trabalho de olhar as séries históricas e também checar dados de outros países do mundo não tão influenciados pelas idéias e valores da geração porralouca dos anos 60, que foi a Woodstock fazer filhos se drogando na lama e que hoje está no poder nos EUA.
Há também a questão racial. Enquanto a média nacional de crianças nascidas de pais não casados hoje é de 40% nos EUA, o número de crianças brancas nascidas assim é de 28,6% contra 52,5% dos hispânicos e 72,3% dos negros do país. Mas nem sempre foi assim.
Voltando à época de Lyndon Johnson, em 1964 o número de crianças negras nascidas de pais solteiros era de apenas 24,5%, pulando para 50,3% em 1976, chegando a 70,7% em 1994. Em apenas 30 anos, de 1 em cada 4 crianças negras que nasciam em lares com pais não-casados o número dispara para quase 3 em cada 4. Não há qualquer relação entre esses números e o nível sócio-econômico da população, mas tudo a ver com a mudança cultural do país com reflexos diretos nessa população.
Negros conservadores americanos, como Thomas Sowell, Larry Elder, Jason Riley, entre outros, estão cada vez mais batendo na tecla da cultura pop consumida pelos negros do país que, segundo eles, incentiva e aplaude todo tipo de comportamento socialmente repreensível com consequências sociais desastrosas, como o gangsta rap. Thomas Sowell culpa a “destruição da família negra americana” à criação do que chama de uma “subcultura” com todo tipo de comportamento sexualmente irresponsável sendo glorificado, inclusive pelas elites culturais do país, além da queda do padrão educacional. Veja Sowell comentando esse tema aqui: http://youtu.be/hs5qvovJkwI.
Outro argumento em favor da idéia de que é a cultura que influencia o comportamento sexual e não o nível de renda é olhar estes números em outros países do mundo. No Japão, apenas 2% das crianças que nascem são filhas de mães solteiras. Dados dos anos 90 falam em 3% para Israel e 5% para China. Na América Latina, diretamente influenciada pela cultura americana, os números são ainda maiores do que nos EUA: México 55%, Argentina 58%, Brasil 66%, Paraguai 70% e Colômbia 74%. A média na Europa é de 39%, variando de apenas 7,6% na Grécia, 15,4% na Croácia e 28% na Itália até 47,6% na Grã-Bretanha e Portugal, 54,5% na Suécia, 57,1% na França e 66% na Islândia.
A grande variedade desses números mostra que é a cultura específica de cada país que mais influencia o índice de crianças nascidas e criadas em lares de pais solteiros e não a pobreza como alguns ainda acham. Se a pobreza levasse a mais nascimentos de crianças sem pais casados, por que a Grécia (renda per capita de US$ 21 mil) tem menos de 8% da crianças nessa situação enquanto a Islândia (US$ 45 mil de renda per capita) tem 66%? Por que a Croácia (US$ 13,5 mil de renda per capita) tem 15,4% de crianças nascidas de mães solteiras contra os 57,1% da França (US$ 46 mil de renda per capita)? O Japão tem a terceira maior economia do mundo e quase todas as crianças nascem em lares de pais casados. O Brasil tem a sétima economia do planeta e 2 em cada 3 crianças nascem de mães solteiras.
O assunto é explosivo, politicamente incorreto e envolto em muito preconceito. Mesmo que muita gente não goste, é perfeitamente possível mostrar que o estado civil dos pais e a presença do pai na educação dos filhos tem uma influência no futuro da criança tão ou mais importante do que apenas seu nível de renda.”
(Alexandre Borges, em postagem no Facebook de 25.01.2015)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

De traições recentes e assuntos correlatos


Fico pensando na suprema ironia de Deus no caso do padre francês degolado na própria igreja por terrorista de Mafoma. Ele era militante do ecumenismo, este travestimento da fraternité maçônica para consumo cristão, e fazia de tudo para 'dialogar' com o Islamismo indialogável, chegando ao extremo de doar terreno de sua própria paróquia, destinado ao culto do único Deus verdadeiro, do Deus vivo, católico (por mais que não queira aceitá-lo como tal Seu irresponsável vigário na terra), para que os seguidores da “religião da paz” pudessem adorar seu falso deus lunar.
Também penso se, ouvindo a feroz diatribe final de seu executor pouco antes de morrer, esse padre finalmente não terá percebido o erro de suas ações inutilmente apaziguadoras, se não terá então entendido, ainda que tardiamente, que seu caminho ajudou a fomentar a violência futura contra suas ovelhas, desguarnecidas e prontas para o abate diante das legiões de “refugiados” com sede de sangue cristão, pelo qual Nosso Senhor deu o Seu na cruz. Se arrependeu-se e pediu o perdão de Deus nesses momentosos minutos finais, terá porventura salvado sua alma, mas não a vida dos confiados a seu cuidado por Cristo, que deverão pagar caro pela veleidade de seus atos ecumênicos.
O Cristianismo não pode continuar sendo entendido por seus descatequizados sacerdotes como uma capitulação contínua diante do mal em nome de uma tolerância que não é sequer uma virtude. Não se tolera o intolerável, o que veio para destruir o homem e toda sua esperança de salvação, tanto seu corpo como sua alma. E não é martírio, como bem expôs o Prof. Carlos Nougué, "entregar sua religião, suas igrejas, seu país, sua família, seus filhos a falsas religiões e à morte que estas promovam. E, com efeito, é longuíssima a distância entre martírio e recusa a lutar pela VERDADEIRA fé. Negar isto é negar a cristandade, é negar as cruzadas, é negar Lepanto – é cuspir na santa história de nossa Igreja."
Há uma ingenuidade suicida e nefasta mas infelizmente muito difundida que acredita que ações de desprendimento material serão entendidas como evidência da superioridade do Cristianismo por aqueles que não comungam de nossos valores e que os levariam à conversão ou no mínimo ao apaziguamento, mas, para os muçulmanos a quem são dirigidas, tais ações são entendidas como capitulações e demonstrações de fraqueza moral. Isso porque não há entendimento possível se o outro não acredita na regra de ouro ("cada um deve tratar os outros como gostaria que fosse ele próprio tratado"). Para o Islã, o próximo é muçulmano, jamais um infiel.
O Ocidente encontra-se idiotizado e infantilizado. Suas crianças recebem com flores e presentes seus próprios verdugos futuros. A mensagem que bombardeiam sobre as populações robotizadas e dessensibilizadas diuturnamente é que a civilização e sua defesa não têm valor; só tem valor parecer diante dos outros uma pessoa acolhedora e livre de preconceitos, que não ama sua pátria mas a humanidade inteira, que pouco ou nada faz por seus colegas e parentes mas ama o homem racionalizado, abstrato e pelagiano da Revolução. Os assassinos contudo não estão preocupados com tal imagem; ela é puramente para consumo interno e usada estrategicamente para silenciar e manietar os nativos, para minar-lhes qualquer reação organizada, rotulando-a com os adjetivos mais infames, para que se envergonhem de qualquer tentativa de sobrevivência.
É preciso, portanto, se o europeu ainda deseja sobreviver e manter seu estilo de vida e segurança em seus próprios países, que não mais caia nesse jogo de humilhar-se pelos epítetos com que o chamam seus inimigos; que aja conforme a lei natural e sua consciência cristã, o que dela ainda resta em seu espírito; que organize-se para defender sua pátria, seus valores e o Ocidente sem temor de estar agindo errado ou de parecer radical ou fanático, pois contra a legítima defesa não há sofismas que a desacreditem.
No entanto, se não deseja mais sobreviver o europeu e entregou-se moralmente, pois não tem mais por que viver, já que não tem nada por que morrer, então basta fingir que tudo continua como antes e que seu país não foi invadido com intenção de conquista, que apesar de algum contratempo pela perda do direito de ir e vir ainda pode tocar o restante de vida que lhe cabe viver com uma certa normalidade pendente basicamente de pura sorte; basta esquecer seu passado e seus valores e esperar que o matem por último, quando ao invés de sinos estiverem ecoando pelos céus os chamados dos imãs à oração nas mesquitas construídas com seu próprio dinheiro.
Talvez enfim os islâmicos estejam certos em sua percepção e os ocidentais desejem realmente capitular e fazer com que sua civilização desapareça. O desejo pode não ser consciente e vir com mil e uma justificativas forjadas com distorções de virtudes cristãs e malabarismos verbais; mas continua lá, fundo na alma, inquieto e impulsionando sempre à subjugação, girando vigorosamente ao redor de um complexo de culpa indevido, odiando tudo que se refere a seu modo de vida, nada vendo de positivo em suas instituições, em suas artes e ciências.
A pior perversão, o fundo do poço do desastre civilizacional é a distorção e contaminação da liturgia de sua religião fundadora, pois a partir dela irradia-se todo o câncer cultural. Penso no que ocorreu recentemente em Trastevere, na Itália. Quando você coloca versos do Alcorão na missa, isso significa que você já perdeu de vez a fé e as relações com outras religiões são mais importantes para você do que a verdade e a beleza da liturgia. A traição é mais ignóbil ainda, quando se sabe que a religião favorecida é responsável pelo assassinato de inocentes de nossa própria fé ao redor do mundo, em razão do odio fidei. Isso apenas confirma ser preciso extirpar o ecumenismo de nossa religião corrompida pelo liberalismo, mas arrancá-lo com força e junto com todos os outros principais erros, como a liberdade religiosa e a colegialidade; não deve ser deixada pedra sobre pedra, nem ramo na árvore de onde brotem outros erros futuros. Infelizmente, para isso acontecer não é mais possível confiar somente na ação humana; seria impossível sanar a religião corrompida usando-se apenas de meios naturais; nem mesmo a guerra mundial traria de volta o Ocidente a suas raízes metafísicas, mas muito provavelmente aceleraria o aparecimento do Anticristo.
O suicídio civilizacional que talvez deseje o europeu pode contudo não estar nos planos de Deus. Pode ser que surja nos próximos anos o defensor da Cristandade que restaure todas as coisas em Cristo e sob cuja influência povos inteiros se convertam e tenhamos um último e maior triunfo da Santa Igreja, como profetizado por inúmeros santos ao longo dos séculos. Mas pode também ser que a destruição da Europa seja a condição para o aparecimento do Anticristo, e Nosso Senhor não mais se importe, depois de ser tão traído e esquecido, em entregar a civilização que escolheu para a mais próxima possível realização de Seu Reino na terra a seus piores inimigos. Tudo, como sempre, depende daquilo que Cristo escolheu para a salvação do maior número possível. Isso no entanto não nos impede de pedir pela Europa, por toda sua tradição cristã que tanta maravilha deu e continuaria a dar ao mundo em todas as esferas de atividade humana. Eu de minha parte estarei rezando para que a Europa não se perca de vez e que retome seu caminho cristão, que volte para seu Criador, como filha pródiga, após tanta desgraça criada pela tentação e farra do non serviam tornada projeto de anticivilização.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A monomania terrorista


“A avaliar pelo número de autores de atentados terroristas que são rapidamente apresentados como casos de psiquiatria temos de admitir que vindas não se sabe donde legiões de doentes mentais, enquanto gritam “Allah Akbar” (Alá é grande), desataram a degolar, mutilar, alvejar ou atropelar aqueles que têm o azar de se cruzar com eles.
No passado os loucos queriam lavar-nos os vidros do carro na avenida do Brasil, subir ao zimbório da Estrela porque achavam que eram ágeis como os macacos ou mais prosaicamente tinham aquilo que o povo designava com ataques.
Depois a farmacopeia e a medicina fizeram esquecer os internamentos psiquiátricos de caracter perpétuo e os coletes-de-forças. Gente que se acha intelectualmente superior aproveitou o embalo para declarar que não podemos falar de normalidade ou de loucura porque a normalidade, dizem, é um preconceito… E estávamos neste dogma reconfortante até que o doente psiquiátrico que quer ser terrorista se tornou uma figura recorrente dos nossos noticiários.
Desconheço os procedimentos para classificar e identificar as doenças. À excepção, claro, daquelas, como acontece com a presente epidemia que afecta homens que pretendem assassinar os seus semelhantes, epidemia essa estudada não nas faculdades de Medicina mas sim nos estúdios de televisão, redacções e corredores do poder. Estas doenças, nadas e criadas entre políticos em desespero, jornalistas e activistas, não precisam de testes, exames ou descrição. Existem porque eles dizem que existem. A última destas doenças inscrita no compêndio político-jornalístico é o o terrorismo como uma manifestação da doença mental.
Quem seguir as notícias sobre atentados e tentativas de atentados na Europa descobre rapidamente que não há semana em que um homem, logo classificado como pessoa com problemas psiquiátricos, não tente degolar, atropelar ou mutilar alguém com quem se cruza na rua. Algumas testemunhas referem que a dita pessoa justificava o seu acto invocando a sua fé no Islão ou tinha em seu poder propaganda fundamentalista mas rapidamente esses detalhes são enquadrados do ponto de vista clínico. Aliás quer essa fixação em quererem separar-nos a cabeça do corpo, quer o reivindicar-se muçulmano ou, mais espantosamente ainda, declarar a sua fidelidade ao Daesh/Estado Islâmico são vistas como manifestações dessa mania do terrorismo, por assim dizer.
Em resumo os terroristas que não são verdadeiros terroristas porque são doentes psiquiátricos também não são verdadeiramente muçulmanos. Quanto à fidelidade ao Daesh também é só mais uma fantasia porque nunca existem provas que essa fidelidade seja real ou sequer reconhecida pelo Daesh. Presumo que se espera que o Daesh passe a emitir cartões de sócio e a distribuir cupões para, qual hipermercado, premiar os sues fiéis. Até lá nada feito.
Perante a sucessão de atentados temos necessariamente de admitir não só que o número de doidos furiosos está aumentar vertiginosamente como também que o terrorismo que durante décadas foi apresentado como o resultado da pobreza ou dos pecados originais (ou sem originalidade alguma) do mundo ocidental deixou de ser um capítulo dos estudos sócio-económicos para integrar o universo da psiquiatria. Chegámos aqui não porque se tenha tornado óbvio que o terrorismo nunca teve nada a ver com pobreza mas sim porque a aparente cegueira dos actuais terroristas na escolha dos seus alvos torna difícil o exercício habitual nestas coisas de transferir a culpa para as vítimas.
Convém não esquecer que a Europa dos grupos terroristas nascidos tantas vezes nos meios universitários e com enormes cumplicidades nos meios da cultura e do jornalismo, essa Europa habituou-se a justificar os atentados ora porque a vítima era polícia ou militar – logo defendia o sistema! – ou porque era patrão – nesse caso representava o próprio sistema – ou ainda porque o baleado tinha escrito ou dito algo que chocava a sensibilidade dos terroristas (um terrorista é um ser muito sensível não ao sangue mas sim às críticas.) Pois essa Europa bem pensante quando o alvo dos terroristas passou dos “do sistema” para “o todos e qualquer um” trasladou o terrorismo da Economia para a Psiquiatria. E assim não há dia, em que perante mais um atentado, não sejamos logo informados que o autor dos esfaqueamentos era um doente psiquiátrico ou, pasme-se, que tinha ido a consultas de Psiquiatria. Por este critério os potenciais terroristas são neste momento de milhões. Mas isso não parece causar perplexidade aos descobridores desta espécie de monomania terrorista.
A par dos doentes psiquiátricos temos também os lobos solitários. Estes caem mais no campo da Psicologia. Afinal os lobos solitários resolvem um belo dia levar a cabo um atentado. Porquê? Porque são solitários, porque ninguém os compreende, porque são um mistério, porque alguém lhes deu uma má resposta… Nunca se percebe ao certo o que pretendia o lobo solitário mas, pelo menos a avaliar pelo caso francês, o anúncio de que o autor do último atentado era um lobo solitário parece deixar todos mais tranquilos.
E assim entre doentes psiquiátricos, lobos solitários e outras figuras de encantar acabámos todos num manicómio.”
(Helena Matos, A Monomania Terrorista)

http://observador.pt

terça-feira, 9 de agosto de 2016

A França salva do comunismo por Nossa Senhora

“Em L’Île-Bouchard, um pequeno subúrbio de Touraine, não longe de Chinon, desde a manhã de 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, até domingo, 14 de dezembro, quatro garotinhas disseram ter visto a Santa Virgem, que lhes apareceu na igreja paroquial. Não é nosso escopo descrever esses maravilhosos eventos, cuja autenticidade parece bastante provável, embora ainda não tenham sido sujeitos ao julgamento definitivo da Igreja.
Eis pelo menos a essência da mensagem, repetida várias vezes por Nossa Senhora:
“Peçam às criancinhas que orem pela França, ela precisa de muitas orações.”
“Orem pela França, que nestes dias está em grande perigo.”
“Não vim aqui para fazer milagres, mas para pedir-lhes que orem pela França.”
A perfeita coincidência dessas palavras com os graves eventos que as crianças certamente ignoravam é impressionante.
EM DIREÇÃO A UM GOLPE DE ESTADO SOVIÉTICO-COMUNISTA? “Todos falam do ‘golpe de Praga’ sem saber que outro golpe tinha sido planejado na França antes dele, ou em todo caso simultaneamente, e nas mesmas condições... Na primavera de 1947, tudo estava preparado.” Naquele momento os soviéticos tinham de 1.500 a 2.000 agentes pagos, sem falar das tropas do Partido Comunista Francês e da CGT. “Somente alguns poucos iniciados do antigo quadro nacional da FTPF sabiam desses eventos, assim como dois ou três membros do Politburo do Partido Comunista Francês. Ao todo, não chegavam a mais que dez ou doze personalidades comunistas. Entre eles e o aparato estrangeiro na França não havia dificuldade de relacionamento...”
Após a exoneração dos ministros comunistas em maio, continuaram as preparações para um golpe bolchevique usando a força, durante o verão e o outono. Logo chegaram as notícias de que na Polônia, em 22-23 de setembro, o Cominform, ou “Escritório de Informação Comunista”, havia sido criado. Duclos e Fajon haviam na ocasião representado o Partido Comunista Francês.
“Então começaram as greves. De Marselha, Grenoble, Saint-Etienne e Lyons elas gradualmente se estenderam a Toulouse, Saint Nazaire, Paris e então à bacia mineira do norte, e Pas-de-Calais... O país foi logo paralizado. Não havia mais transportes. Houve sabotagem também. Então grupos armados apareceram... A hora da “finalização” estava se aproximando, quando as armas realizariam a tomada do poder. Verdadeiros Partidos Comunistas insurgentes foram instalados, alguns em seus sindicatos, outros nas municipalidades adquiridas pelos comunistas, alguns em segredo... Um relatório enviado ao ministro do interior exprimiu preocupação sobre a efervescência dos círculos espanhóis “republicanos” na região de Toulouse-Pirineus, e até Aude. Ao todo, três milhões de grevistas subitamente paralizaram o país.”
Ao final de novembro, o embaixador americano em Paris obteve esta divulgação privada de sua fonte comunista:
“Moscou quer derrubar o gabinete Schuman. Em seu lugar, antes do fim do ano, quer instalar um governo completamente subserviente a si. Stalin deu uma ordem precisa a Maurice Thorez e Georges Dimitrov, os quais chamou a Sotchi, na Criméia: ‘Façam o Plano Marshall fracassar!’ A greve geral na França é organizada por um agente especial da NKVD! Os comunistas estão dando tudo de si.”
Nerin Gun continua,
“A informação alarmante está vindo de todos os lugares. Considere este despacho (D.S.850-20-102347) que cita as declarações feitas ao diplomata americano pelo General Revers, chefe do alto comando do exército francês: “O alto comando pensa que a URSS vai lançar o conflito no futuro muito próximo. As táticas do Partido Comunista Francês e do Cominform reforçam nossos receios...”
“Jules Moch, Ministro do Interior, um socialista conhecido por sua firmeza na repressão de greves e demonstrações subversivas, está mantendo o embaixador informado do que está sabendo através de suas próprias fontes de informação. Ele confirma que Thorez voltou de Moscou com uma ordem formal: ‘Faça tudo que puder para sabotar o Plano Marshall. A ajuda americana à França e à Itália deve ser neutralizada. O Partido deve mudar suas táticas e não se contentar em agir dentro da lei. Ele deve partir para a ação revolucionária. Stalin está convencido de que os Estados Unidos não intervirão militarmente.’”
UMA PROTEÇÃO MILAGROSA? Por que, finalmente, esse golpe de estado tão meticulosamente planejado não se materializou? Tanto quanto sabemos, foi por razões impossíveis de acessar. Terá sido pela previdência e firmeza – completamente inesperadas de sua parte – de socialistas como Jules Moch, que em 28 de março de 1948 anunciou haver descoberto uma conspiração comunista? Possivelmente. De acordo com Nerin Gun, as “antenas” soviéticas nos Estados Unidos aparentemente informaram o Kremlin que o Presidente Truman tinha decidido intervir. Mas teria ele realmente intervindo? Nada é menos certo. Em todo caso, Stalin certamente temeu essa eventualidade e desistiu, e o golpe de estado comunista não aconteceu. Isso foi precisamente em dezembro de 1947.
Podemos também acreditar que Deus permitiu-Se comover pelas orações que as criancinhas tinham-Lhe enviado no pedido urgente de Sua Mãe, que tinha vindo uma vez mais a Sua terra da França. Sem dúvida também Ele foi tocado pelas orações e louvor das multidões durante o Grande Retorno. Talvez tenha sido também tocado, por fim, pela saudação humilde mas fervente concedida alguns meses antes a Nossa Senhora de Fátima em Hendaye, Lourdes e até em Paris em frente à Notre Dame por muitos milhares de crentes, e alguns representantes do clero francês – apesar das proibições da República e das diretrizes da máfia progressista. Misericordiosamente, uma nova trégua fora concedida a esta terra, um novo espaço de tempo fora-lhe dado para sua conversão.”
(Ir. Michel de La Sainte Trinité, The Whole Truth About Fatima)

sábado, 6 de agosto de 2016

O verdadeiro e o belo se identificam


“Na realidade, o verdadeiro e o belo se identificam, distinguindo-se apenas por uma distinção de razão. O verdadeiro resulta da adequação da inteligência com a coisa, enquanto o belo resulta do deleite proporcionado por essa adequação. Com outras palavras, à noção de verdadeiro corresponde a conformidade do intelecto com a coisa, e à noção de belo corresponde o repouso agradável decorrente do conhecimento da coisa. Vê-se, portanto, que o conhecimento é condição indispensável do deleite que é constitutivo do belo. A agradabilidade, deleitação ou alegria, constitutivos do belo, podem ser descritas como um certo prazer experienciado pelo contemplante, como índice de felicidade ou repouso satisfatório; no caso do homem, em virtude de sua unidade substancial de matéria e espírito, este gozo nunca é puramente intelectual, ainda que a beleza contemplada seja supra-sensível, mas é um prazer que, referente em última instância ao intelecto, envolve o homem todo em suas dimensões corporal, psicológica e espiritual. Há como que um transbordamento do deleite, atingindo o homem em todas as suas dimensões.”
(Pe. Elílio de Faria Matos Júnior, Teoria Tomista da Beleza)

http://www.montfort.org.br

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Nuvens


“Deus disse: "Faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele umas das outras".
Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento daquelas que estavam por cima.
E assim se fez. Deus chamou ao firmamento CÉUS. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o segundo dia.”
(Gênesis 1, 6-8)

domingo, 31 de julho de 2016

Francisco, os refugiados e a guerra de religião


"O papa Francisco disse mais uma vez que o mundo está em guerra. Mas disse também que não é uma guerra de religião, porque 'todas as religiões querem a paz', mas que a causa da guerra é a luta pelo poder e pelo controle dos recursos econômicos. No mesmo discurso, disse também que se deve acolher os refugiados que fogem da fome e da guerra.
Os católicos, como se sabe, consideramos que o papa é infalível quando define doutrinas de fé e moral no contexto concreto de uma 'solene declaração pontifícia' (o célebre 'ex cathedra'). Fora disso, e em matéria de julgamento, o papa é um homem como os outros, e portanto suas opiniões, embora fundadas na autoridade pessoal, são discutíveis. Não só são discutíveis, como é bom discuti-las em um ânimo de busca desinteressada da verdade.
Jorge Mario Bergoglio é um sacerdote argentino de quase 80 anos que passou quase toda sua vida em seu país natal. É um homem que – como todos – pertence inteiramente a sua circunstância, ou seja, a seu tempo e a seu espaço. Sua experiência pessoal sobre a imigração muçulmana é tipicamente hispano-americana, muito semelhante à que tínhamos os europeus há quarenta anos: os imigrantes vinham à Europa para ganhar a vida desempenhando os trabalhos que os autóctones desprezavam e procurando integrar-se na sociedade que os acolhia. Ainda hoje é assim em boa parte da América, onde os muçulmanos imigrados (apenas três milhões em uma população total de quase mil milhões) não constituem comunidades alheias à sociedade que os acolhe. No caso concreto da Argentina, que é um dos países com maior presença islâmica, falamos de umas 600.000 pessoas em uma população total de quase 42 milhões, ou seja, de 1,4 por cento: uma percentagem demograficamente irrelevante e socialmente ocasional. Com esta experiência vital, é fácil entender que não se perceba problema algum na imigração muçulmana. Também era assim na Europa há quarenta anos.
Hoje, no entanto, as coisas mudaram dramaticamente na Europa. Primeiro: a percentagem de população muçulmana cresceu exponencialmente. Segundo: essa população, em boa parte, criou suas próprias comunidades quebrando os velhos modelos de integração. Terceiro: em seu seio se expandiu uma radicalização identitária que desembocou na simpatia pelo jihadismo. Quarto: no ano passado, ademais, nos deparamos com uma afluência maciça de imigrantes falazmente importada sob a etiqueta de 'refugiados'. Quinto: a onda de violência que estamos vivendo neste último período define por si só a entidade do problema. Seguramente é difícil aceitá-lo com a mentalidade de quarenta anos atrás. Mas, hoje, é isso o que temos.
A mesma reflexão vale para essa outra hipótese de Francisco sobre as guerras e sua origem. A maior parte das escolas de pensamento do século XIX interpretaram sempre os conflitos sob o ângulo materialista da luta pelos recursos. Não era uma interpretação incorreta, mas era incompleta. As idéias, os princípios e as crenças (e também as religiões) têm sua importância. Sobretudo quando uma religião (ou uma determinada corrente dela) prega abertamente a guerra como via legítima para impor sua fé sobre as outras. Esse é exatamente o caso do Islã, e nisto o papa Bento XVI acertou plenamente em seu histórico discurso de Ratisbona. O Islã não é uma religião 'como as outras': é uma teologia política que leva implícita a busca e conquista do poder, como oportunamente acaba de recordar o cardeal Burke. Quer se queira, quer não, também isso, hoje, é o que temos. Menos mal que, nestas coisas, os católicos não estejamos obrigados a seguir o papa. Sabedoria da Igreja."

http://www.catolicidad.com

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Uma Europa chamada Roma


“Horas antes do golpe na Turquia tivera lugar em França mais um atentado e mais uma vez o Presidente francês dissera que a França era forte. E os jornais escreviam que “um caminhão matou”, como se o caminhão se tivesse posto em marcha sozinho.
Face ao atentado de Nice repetia-se que havia que compreender os motivos do homem que praticara tal acto sendo que neste contexto o verbo compreender não é sinônimo de adquirir conhecimento para melhor agir sobre o agressor mas sim para aceitar com maior resignação o papel de vítima.
Como sempre o facebook encheu-se de vídeos virais em que os likes fazem as vezes das convicções e o máximo da decisão passa por pintar a Torre Eiffel com as cores da bandeira francesa. Desta vez já nem houve muitas velas nas ruas, talvez para não atrapalhar as corridas atrás dos Pokémons.
De repente, o drama desta Europa, uma Europa que foi capaz de garantir ao maior número de cidadãos um conjunto mais alargado de direitos mas que se condenou a si mesma à decadência, parece-me decalcado desse outro drama vivido por outra civilização extraordinária – o império romano. Um drama que simbolicamente terminou numa noite de Agosto de 410 dC, em Ravena. Nessa noite um mensageiro (há sempre uma mensagem e um mensageiro, o tempo apenas muda a natureza do mensageiro) entrou a correr no palácio de Ravena onde o imperador Honório estava retirado para escapar ao cerco que o rei visigodo Alarico montara em torno de Roma. A notícia é tão grave que os presentes resolvem acordar Honório: Roma caíra às mãos do invasor.
Perante a notícia, o imperador Honório declara consternado “Ainda há pouco comeu da minha mão”. O desalento desconcertante da resposta do imperador leva um dos presentes a esclarecer Honório: Roma, a sua galinha preferida, estava bem. Fora sim a capital do seu império e não a sua preferida que caíra perante o invasor. Honório terá suspirado de alívio pois por momentos pensara que fosse a sua galinha e não a cidade a soçobrar.
Há oito séculos que Roma era inviolável. Mas nesse Agosto de 410 dC, o rei visigodo Alarico atravessara a Porta Salaria e entrara em Roma à frente dos seus homens. O saque começou. A própria irmã do imperador, Gala Placidia, estava cativa de Alarico, um chefe militar que soube tirar partido das fraquezas do outrora grande império.
Valha a verdade que o saque de Alarico foi apenas o primeiro – e nem sequer o pior – dos vários que reduzirão a orgulhosa Roma a um símbolo da decadência. A dado momento os romanos antecipar-se-ão até aos invasores e antes que estes montem mais um cerco abrem-lhes as portas da cidade para que no momento do inevitável saque se mostrassem mais misericordiosos (não mostraram).
A história da reacção de Honório ao saber do saque de Roma foi muito provavelmente romanceada mas tem servido para ilustrar o que bondosamente designamos como decadência do império romano. Perante essa fabulosa civilização que se condenou a si mesma à derrota poucas coisas ilustrarão melhor o comportamento das elites romanas do que esse imperador a chorar a sua galinha e não a sua cidade.
Neste século XXI, Honório, a sua cidade e a sua galinha andam por aí. Simplesmente Roma agora chama-se Europa. E os europeus, tal como o imperador Honório, desdenham dos aliados, não resolvem o essencial, assistem abúlicos aos ataques de que são alvo e perante a catástrofe fazem de conta que não a vêem. Ou apenas vêem a morte da sua galinha – com quantas causas fúteis se entretêm semanalmente os parlamentos da Europa? – e não a queda da sua cidade.
Enquanto escrevo os presos na Turquia contam-se aos milhares e a purga na justiça e entre os militares é profunda. Nas televisões europeias confunde-se apoio e bandeirinhas nas redes sociais com legitimidade. Erdogan entretanto avisa que quem estiver com os rebeldes, está “em guerra com a Turquia”, sendo que o conceito de “estar com os rebeldes” é muito lato. Por exemplo, não entregar à Turquia os oito militares turcos que pediram asilo político à Grécia é sinónimo de estar com os rebeldes? E como vai daqui em diante a Turquia usar os seus controlos fronteiriços para pressionar a Europa a deixar de “estar com os rebeldes”, queira isso dizer o que queira? E o que fazem os líderes europeus caso Erdogan, com menos folclore, mais racionalidade e umas forças armadas purgadas mas bem treinadas, entre na espiral de confronto-amizade-chantagem como durante anos fez Kadafi? Telefonam para Washington e esperam que o presidente norte-americano, seja ele qual for, mobilize os nascidos no Ohio ou no Kansas para reforçarem a presença militar nas bases norte-americanas na Europa, precisamente aquelas contra as quais não houve estudante europeu que não achasse de bom tom manifestar-se?
Na escola aprendíamos como os romanos fizeram o seu império. Na verdade devíamos ter estudado mais como o desfizeram. Porque Honório e a sua galinha não aconteceram por acaso. Eles são o resultado de uma sociedade que se derrotou a si mesma antes de ser derrotada pelos outros. De um império que acabou a ter de pagar para não ser atacado por aqueles a quem antes pagara para que o defendessem.
Da próxima vez que o estrépito de um atentado nos distrair dos Pokémons, em vez de desabafarmos no facebook será bem mais útil ir estudar os romanos. Honório e a sua galinha fazem parte do nosso passado e nós já estivemos mais longe de nos refugiarmos em Ravena”.
(Helena Matos, Uma Europa Chamada Roma)

http://observador.pt

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Jean Ousset sobre o Reinado Social de Jesus Cristo

“O homem depende metafisicamente de Deus em seu ser e em seu operar. Donde a relação essencial, metafísica, irrenunciável do homem para com Deus. Mas, do mesmo modo, a sociedade humana, em qualquer de suas formas e em qualquer contexto, tem para com Deus a mesma relação e a mesma dependência que o indivíduo (Leão XIII, “Immortale Dei”). Por isso não pode ser atéia, nem agnóstica e nem laica. A sociedade humana em seu fim temporal é regida pela política. O objeto formal da política é o bem comum temporal: o bem da Cidade temporal. Este bem se fundamenta na ordem moral. A ordem moral depende essencialmente de Deus. Política sem Deus é antipolítica, posto ser o ordenamento ao “mal comum”, à autodestruição da sociedade.
O bem comum não é algo adicionado à sociedade, nem menos ainda algo tirado do indivíduo. O bem comum é o justo ordenamento de toda a vida social em vista à mútua perfeição: da pessoa singular pela comunidade e da comunidade pela pessoa singular. “A sociedade é meio” (Pio XII) para o aperfeiçoamento integral da pessoa humana. Daí que o primeiro BEM no bem comum é Deus; Quem, por outro lado, é o mais comum dos bens.
Também para a Política em seu ordenamento da vida social o primeiro e indispensável pressuposto é Deus. De outro modo, o bem comum temporal é impossível.
Mas manifesta-se Jesus Cristo. A presença de Cristo sobre o mundo não incide apenas no destino do homem, nem apenas nas estruturas espirituais simplesmente. Todo o cosmos é invadido por sua graça, ainda que diversamente.
Por Cristo, a ordem da graça, apoiada na ordem da natureza, tem uma relevância absoluta na ordem temporal. E de duas maneiras: a ordem temporal não pode obstaculizar a ordem da graça; e ademais, a ordem temporal deve ser informada pela graça. “Há que reconhecer que o Evangelho tem a função de informar integramente o pensamento do homem e toda sua atitude teórica e prática. Não se vê outro meio de salvação para a humanidade senão na reconstrução do mundo no espírito de Jesus Cristo. Convençam-se os homens responsáveis desta necessidade absoluta” (Pio XII, 28/10/1954).
Enunciados teológicos como estes: Cristo, recapitulação do universo, Princípio e Fim, Vida do cosmos, Caminho, Verdade e Vida, não estão limitados à esfera estritamente espiritual, pneumática. Excedem com sua dynamis e suas exigências sobre a ordem temporal, e criam uma ordem temporal, e criam uma ordem social cristã, uma sociedade cristã.
Dá-se em Cristo e por Cristo uma reintegração cósmica, cujo primeiro integrante e melhor favorecido logicamente é o homem, o qual se diviniza em Cristo. Mas o que ocorre entre o homem e Cristo por meio de Cristo deve ocorrer entre a sociedade e Cristo por meio do homem. O sentido de Cristo deve penetrar, impregnar, vivificar a sociedade humana para glória do Pai.
Esta última realidade é enunciada, sobretudo a partir de Pio XI, como REINADO SOCIAL DE JESUS CRISTO. Reinado social de Jesus Cristo não quer dizer teocracia, nem o domínio temporal da Igreja. Mas tampouco é um Reinado escatológico, para o fim do mundo, mas desde agora. E não apenas de iure: deve sê-lo de fato. Reinado social de Jesus Cristo significa que o homem e a sociedade humana vivem em Cristo sua metafísica dependência de Deus em uma ordem verdadeira; a ordem essencial da Verdade, da Justiça e do Amor. E significa, portanto, que todas as estruturas da ordem temporal se libertem da escravidão dolorosa da desordem e vivam também elas a liberdade da redenção.
A ordem temporal não profana, se por profana se entende o que não é santificável. O profano é simplesmente o distinto do que é sagrado pela via sacramental.
A ordem natural, da qual emana primariamente a ordem temporal, tem cunho divino: é o resplendor da ordem eterna em que vive Deus. A ordem temporal, santificável e santificante, deve ser sacralizada, santificada, consagrada e precisamente pelos fiéis (Pio XII). E sacraliza-se a ordem temporal quando se ajusta ao querer divino, e se a entrega como manifestação da vontade de Deus.
De fato, nos encontramos dentro de uma ordem social sem Deus. Ou o que é o mesmo ou pior: dentro da ordem da desordem. Dentro da contradição, da desintegração, da anarquia, inclusive frente à verdade.
Em um grito, no qual não há exagero algum, Pio XII, traça a trajetória deste processo – 12/10/1952: “Não pergunteis quem é o inimigo, nem que vestidos leva. Este se encontra em todas as partes e no meio de todos. Sabe ser violento e astuto. Nos últimos séculos tentou levar a cabo a desagregação intelectual, moral, social, da unidade do organismo misterioso de Cristo. Pretendeu a natureza sem a graça; a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes, a autoridade sem a liberdade. É um inimigo que cada vez se tem feito mais concreto, com uma despreocupação que nos deixa, no entanto, atônitos: Cristo, sim; Igreja, não. Depois: Deus, sim; Cristo, não. Finalmente, o grito ímpio: Deus está morto; mais ainda, Deus jamais existiu. E eis aqui a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre fundamentos que Nós não duvidamos em apontar como principais responsáveis da ameaça que gravita sobre a Humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus. O inimigo se preparou e se prepara para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, na inteligência entre os povos, ali onde se determina a paz ou a guerra. Este inimigo está corrompendo o mundo com uma imprensa e com espetáculos que matam o pudor nos jovens e nas donzelas, e destrói o amor entre os esposos”.
Convém destacar no pensamento papal as duas presenças: a de Deus e a de Jesus Cristo nas estruturas tipicamente temporais, nas quais nem Deus e nem Cristo podem ser estranhos.”
(Jean Ousset, Introducción a la Política)

http://muralhasdacidade.blogspot.com.br