terça-feira, 21 de março de 2017

Bom senso sobre a vacância da Sé

I
“Os sacerdotes Dominicanos de Avrileé, França, fizeram a todos nós um grande favor ao republicar as considerações sobre a Sé vacante de Roma escritas há uns quatrocentos anos por um famoso teólogo tomista da Espanha, João de Santo Tomás (1589-1644). Por ser um fiel sucessor de Santo Tomás de Aquino, ele se beneficia daquela sabedoria superior da Idade Média, época em que os teólogos podiam medir os homens por Deus ao invés de medir Deus pelos homens, uma tendência que começou como uma necessidade (se as almas não podiam mais tomar a penicilina medieval, teriam de tomar um remédio menos eficaz), mas que culminou no Vaticano II. Eis aqui, de forma bem resumida, as principais ideias de João de Santo Tomás sobre a deposição de um Papa:
I - Pode um Papa ser deposto?
Reposta: sim, pois os católicos são obrigados a se separar dos hereges depois destes terem sido advertidos (Tt 3, 10). Além disso, um Papa herético põe toda a Igreja em um estado de legítima defesa. Mas o Papa deve ser primeiro advertido tão oficialmente quanto seja possível, para que possa se retratar. Também sua heresia deve ser pública, e declarada tão oficialmente quanto seja possível, para evitar confusão generalizada entre os católicos, vinculados entre si pela obediência.
II - Por quem ele deve ser oficialmente declarado herege?
Resposta: não pelos Cardeais, porque embora eles possam eleger um Papa, não podem depor nenhum, porque é a Igreja Universal que é ameaçada por um Papa herético, e então a maior autoridade universal possível da Igreja é a única que pode depô-lo, a saber, um Concílio da Igreja composto de um quorum de todos os Cardeais e Bispos da Igreja. Estes poderiam ser convocados não autorizadamente (o que só o Papa pode fazer), mas entre eles.
III - Por qual autoridade poderia um Concílio da Igreja depor o Papa?
(Aqui está a principal dificuldade, porque Cristo dá ao Papa poder supremo sobre toda a Igreja, sem exceção, tal como o Vaticano I definiu em 1870. Já João de Santo Tomás deu argumentos de autoridade, razão e Direito Canônico para provar esse supremo poder do Papa. Então, como pode um Concílio, sendo inferior ao Papa, ainda assim depô-lo? João de Santo Tomás adota a solução fornecida por outro famoso teólogo dominicano, Tomás Caetano (1469-1534). A deposição do Papa por parte da Igreja cairia não sobre o Papa enquanto Papa, mas sobre a ligação entre o homem e seu Papado. Isso pode parecer um tanto sutil, mas é lógico.)
Por um lado, nem mesmo o Concílio da Igreja tem autoridade sobre o Papa; mas por outro lado, a Igreja é obrigada a evitar os hereges e a proteger o rebanho. Portanto, como em um Conclave os Cardeais são os ministros de Cristo para vincular esse homem ao Papado, mas somente Cristo dá a ele sua autoridade papal, assim o Concílio da Igreja seria por sua declaração solene os ministros de Cristo para desvincular esse herege do Papado, mas somente Cristo, por sua autoridade divina acima do Papa, poderia autorizadamente depô-lo. Em outras palavras, o Concílio da Igreja deporia o Papa não autorizadamente, mas apenas ministerialmente. João de Santo Tomás confirma esta conclusão com base no Direito Canônico da Igreja, que afirma em muitos lugares que somente Deus pode depor o Papa, mas que a Igreja pode julgar sua heresia.
Infelizmente, como assinalam os Dominicanos de Avrilée, quase todos os Cardeais e Bispos da Igreja hoje estão tão infectados pelo modernismo que não há esperança humana de um Concílio da Igreja que veja de modo claro o bastante para condenar o modernismo dos Papas conciliares. Nós podemos apenas orar e esperar pela solução divina, que virá na boa hora de Deus. A seguir: não estaria um Papa automaticamente deposto por uma simples heresia sua?”
II
“Com respeito à deposição de um Papa herege, os Dominicanos Tradicionais de Avrillé, na França, nos prestaram um grande favor ao publicar não apenas as considerações clássicas de João de Santo Tomás (cf. CE 405), mas também as de outros teólogos proeminentes. Em resumo, as melhores mentes da Igreja ensinam que um argumento simples e hoje em dia popular, a saber, o de que um Papa herege não pode ser membro da Igreja e, portanto, muito menos seu chefe, é exageradamente simples. Ainda resumindo, há mais no Papa do que apenas o indivíduo católico, quem, ao cair em heresia, perde a fé e com ela sua condição de membro da Igreja. Para a Igreja, o Papa é muito mais do que um indivíduo católico. Para clarear, apresentaremos os argumentos destes teólogos na forma de perguntas e respostas:
Antes de tudo, é possível que um Papa caia em heresia?
Se ele emprega todas as quatro condições de seu Magistério Extraordinário, não pode ensinar heresia; mas que ele pode pessoalmente cair em heresia, é a opinião mais provável, ao menos de teólogos antigos.
Então, se ele cai em heresia, isto não o impede de continuar a ser membro da Igreja?
Como uma pessoa católica individual, sim; mas como Papa, não necessariamente, porque o Papa é muito mais do que apenas um indivíduo católico. Como disse Santo Agostinho, o sacerdote é católico para ele mesmo, mas é sacerdote para os outros. O Papa é Papa para toda a Igreja.
Mas suponha que a grande maioria dos católicos possa ver que ele é um herege, por estar óbvio. Sua heresia, nesse caso, não o impossibilitaria de continuar a ser Papa?
Não, porque ainda que sua heresia seja óbvia, muitos católicos ainda podem negá-la – por exemplo, por “piedade” para com o Papa –, e assim, para evitar que surja confusão em toda a Igreja, uma declaração oficial da heresia do Papa seria necessária para manter os católicos unidos. Tal declaração teria de vir de um Concílio da Igreja, convocado para este propósito.
Mas se a heresia fosse pública e óbvia, não é certo que seria suficiente para depô-lo?
Não, porque, em primeiro lugar, todo herege deve ser oficialmente advertido antes de ser deposto, para que possa se retratar de sua heresia. E em segundo lugar, seja na Igreja ou no Estado, todo oficial superior está servindo ao bem comum, e para o bem comum ele deve permanecer no ofício até que seja oficialmente deposto. Então, tal como um bispo permanece no ofício até que seja deposto pelo Papa, assim o Papa permanece no ofício até que a declaração oficial de sua heresia por um Concílio da Igreja faça com que Cristo o deponha (CE 405).
Mas, se um herege não é um membro da Igreja, como pode ele ser seu chefe, o membro mais importante?
Porque sua condição particular de membro é uma coisa diferente de sua chefatura oficial. Por sua condição particular de membro ele recebe santificação da Igreja. Por sua chefatura oficial, ele dá governo oficial à Igreja. Ao cair em heresia, ele deixa de ser um membro vivo da Igreja, é verdade, mas nem por isso ele deixa de ser capaz, mesmo como um membro morto, de governar a Igreja. Sua condição de membro da Igreja pela fé e caridade é incompatível com a heresia, mas seu governo da Igreja por sua jurisdição oficial, que não exige fé nem caridade, é compatível com heresia.
Mas, por sua heresia, um antigo Papa jogou fora seu Papado!
Pessoalmente e em privado, isso é verdade, mas não é certo oficialmente e em público, até que um Concílio da Igreja tenha tornado a sua heresia não apenas pública, mas também oficial. Até então o Papa deve ser tratado como Papa, porque para a tranqüilidade e o bem comum da Igreja, Cristo mantém Sua jurisdição.”
(Mons. Richard Williamson, F.S.S.P.X, Vacancy Sense)

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sábado, 18 de março de 2017

São Cirilo de Alexandria: Louvor Mariano

“Nós Vos saudamos, ó Maria, Mãe de Deus,
venerável tesouro de toda a terra,
lâmpada inextinguível, coroa da virgindade,
cetro da verdadeira doutrina, templo indestrutível,
morada d’Aquele que nenhum lugar pode conter,
Mãe e Virgem, por meio da qual nos santos Evangelhos
é chamado bendito O que vem em nome do Senhor.

Nós vos saudamos, ó Maria, que trouxestes
no Vosso seio virginal Aquele que é imenso e infinito.
Por Vós, a Santa Trindade é glorificada e adorada.
Por Vós, a Cruz preciosa é adorada no mundo inteiro.
Por Vós, o Céu exulta.
Por Vós, se alegram os anjos e os Arcanjos.
Por Vós, o diabo tentador foi precipitado no inferno.
Por Vós, a criatura do gênero humano, sujeito à insensatez da idolatria,
chega ao conhecimento da verdade.
Por Vós, o santo batismo purifica os que crêem.
Por Vós, nos vem o óleo da alegria.
Por Vós, os povos são conduzidos à penitência."

quarta-feira, 15 de março de 2017

A conversão do Papa


"Nenhum dos autógrafos inéditos que se encontram na coleção Everett, agora propriedade minha, me convida mais freqüentemente a uma nova leitura que o poemeto de Roberto Browning. Foi Browning menos célebre que Cervantes e que Goethe, também destes tenho manuscritos em minha caixa forte portátil, mas me dou conta de que estou mais próximo dele que dos outros. Trata-se de um dos imaginários solilóquios que figuram entre os mais felizes inventos do poeta, e me assombra que jamais o tenha publicado. Seu título é estranho: A Conversão do Papa. Creio que é uma idéia genial. No poema fala o filho único de um ignoto herege boêmio da Idade Média, herege a quem Browning chama Jan Krepuzio; por haver professado publicamente algumas teorias blasfemas sobre os motivos da Redenção, a Inquisição o fez prender, torturar e finalmente foi queimado vivo em uma praça de Praga. Seu filho, o menino Aureliano, foi escondido na Alemanha por alguns parentes distantes, mas jamais pôde esquecer o fogo que havia consumido seu pai. Uma vez adulto e livre decidiu vingar-se da Igreja de Roma, empregando um novo sistema de vingança jamais ideado por outro. Com nome falso foi a um convento de Milão, e solicitou ser recebido como irmão leigo. Sua obediência e bondade lhe valeram o prêmio desejado e foi recebido entre os noviços. Seu zelo pela vida monástica e pela Sagrada Teologia pareceu ser tão ardoroso e sincero, que ao cabo de somente três anos foi ordenado sacerdote. Obteve então ser enviado a pregar a verdade católica a países de infiéis e cismáticos, e com sua palavra e exemplo conseguiu converter cidades inteiras. Foi encarcerado pelos inimigos da verdadeira fé, mas pôde fugir de suas mãos, e até se disse que o conseguiu com a ajuda de um anjo. Seu nome chegou aos ouvidos do Pontífice reinante, que o chamou e lhe conferiu um bispado. Também como bispo e em breve tempo, chegou a ser famoso entre os povos. A austeridade de seus costumes em meio a um clero corrompido, a vitoriosa eloqüência de sua palavra, a perfeita ortodoxia de seus ensinamentos teológicos, tudo fez dele um dos prelados mais exemplares e ilustres de seu século. Mas isso não lhe bastava, precisava obter outras honras e dignidades para consumar a vingança premeditada. Em suas vigílias jamais esquecia a fogueira na qual haviam feito arder seu pai, segundo ele injustamente. Devia vingá-lo, em forma diabólica e clamorosa, precisamente na capital da Cristandade, em Roma, em São Pedro. A palidez de seu rosto abatido era atribuída ao ascetismo de sua vida, mas na verdade não era mais que o reflexo de seu prolongado rancor, era o efeito de uma fadigosa e perpétua simulação. Morreu o ancião Papa e foi eleito outro que havia conhecido e admirado Aureliano, e no primeiro consistório o criou cardeal. Aureliano já se via próximo à meta, e seu ardor apostólico em prol da Igreja aumentou mais e mais. Foi Legado Pontifício, Doutor em um Concílio e Cardeal de Cúria; em tudo isso demonstrou ser um infatigável defensor dos dogmas e dos direitos da Igreja Romana. Já era quase ancião, mas o alucinante pensamento da vingança não o deixava nem de dia nem de noite. Também foi alcançado pela morte o Papa seu protetor, e no conclave seguinte Aureliano foi eleito Vigário de Cristo, obtendo a unanimidade dos sufrágios. Ainda então soube ocultar seu imenso prazer sob a máscara de uma tranqüila humildade. Já estava próximo o grande dia por ele esperado e desejado secretamente durante dolorosos anos de forçada comédia. Havia sido eleito no começo de dezembro; então anunciou ao Sacro Colégio e à Corte do Vaticano que a cerimônia de sua coroação se realizaria na mesma noite de Natal. Desde muitíssimo tempo antes havia planejado e sonhado a inaudita cena: depois do Pontifical, depois de realizados todos os ritos da coroação, dono já dos privilégios e das prerrogativas do Supremo Magistério como cabeça infalível da Igreja Docente, então se poria de pé para falar ao clero e ao povo, e no silêncio solene da máxima basílica pronunciaria finalmente as tremendas palavras que vingariam para sempre o pai inocente. Diria que Cristo não era Deus, que havia sido um pobre bastardo, um pobre poeta iludido vítima de sua ingenuidade, e finalmente, aqui faria ressoar sua voz como um desafio satânico, finalmente, com o selo de sua autoridade proclamaria que Deus jamais havia morrido porque jamais havia existido. Qual teria sido o efeito causado por tão espantosas blasfêmias, brotadas dos lábios de um Pontífice Romano? Talvez, depois do primeiro momento de estupor tê-lo-iam interrompido, gritando que era um louco? Fá-lo-iam em pedaços sobre o túmulo de São Pedro? Não se preocupava muito com isso; a voluptuosidade brindada por tão estupenda vingança jamais teria um preço demasiadamente elevado. Chegou a vigília de Natal e anoiteceu. Todos os sinos de Roma repicavam em festa, rios humanos de nobres e plebeus iam à Praça de São Pedro, enchiam o grande templo que parecia ser uma imensa cavidade luminosa, para poderem assistir à faustosa cerimônia que celebrava simultaneamente o Nascimento de Deus e a coroação de seu Vigário na terra. De uma sala de seu palácio Aureliano olhava e escutava. Via aquelas multidões de fiéis felizes e confiantes, ouvia seus cânticos de Natal, seus louvores, seus hinos, e em todos eles transparecia uma simples mas infinita esperança no Divino Infante, no Salvador do mundo, no Consolo dos pobres, dos perseguidos e aflitos. E naquele instante, naquela sala onde o novo Papa se havia fechado, sozinho, para concentrar seus pensamentos e suas forças, aconteceu algo que jamais foi conhecido por outros, realizou-se o inesperado e providencial milagre: o pensamento de toda aquela pobre gente que corria até ele, que cria nele porque havia crido em suas palavras, esse pensamento o confundiu, o comoveu, o sacudiu e arrastou consigo. Experimentou um calafrio, sentiu-se agitado por um tremor, pareceu-lhe que uma luz jamais vista invadia a gruta escura de sua alma. Repentinamente se sentiu inundado e vencido por uma doçura aniquiladora jamais experimentada em sua longa vida, por uma ternura infinita a todas aquelas almas simples, infelizes e no entanto felizes, que criam em Cristo e em seu Vigário, e subitamente, o nó negro e gravoso da anelada vingança se desfez, se cortou, se dissolveu em um pranto contínuo, desesperado, que lhe queimava os olhos e o coração, que consumia seu interior mais que uma chama viva. O novo Papa se prostrou sobre o mármore do pavimento, e orou de joelhos, orou pela primeira vez com abandono total da alma, com toda a sinceridade da paixão, como nunca havia orado em toda sua vida. O vento impetuoso da Graça o havia derrubado e vencido no último instante. Até a própria dor do ressentimento por seu infame passado de fingimento, de engano e duplicidade, lhe parecia um consolo imerecido, um consolo divino. Aquela dor queimante o poderia acompanhar até a morte, mas purificando-o, salvando-o da segunda morte. Quando os ajudantes e acólitos entraram na sala precedidos pelo Cardeal Decano, encontraram o novo Papa ajoelhado, feito um mar de lágrimas, e se sentiram grandemente edificados. Concluído o solene rito da coroação, o Pontífice quis falar ao povo. Falou de Cristo e de seu nascimento em Belém, falou da Mãe Virgem, dos anjos e dos pastores, e o fez com tal calor de afeto que todos os ouvintes, até os velhos cardeais apergaminhados em sua púrpura, choraram como filhos que finalmente encontram o pai que criam perdido. E muitas mulheres, ao saírem da Basílica iluminada para a escuridão da cidade, afirmaram que ao cabo de séculos um verdadeiro santo havia ascendido à Cátedra de São Pedro."
(Giovanni Papini, Il Libro Nero)

domingo, 12 de março de 2017

O ódio ao latim


“O ódio à língua latina é inato ao coração de todos os inimigos de Roma. Nela eles vêem o elo entre os católicos de todo o universo, o arsenal da ortodoxia contra todas as sutilezas do espírito das seitas, a arma mais poderosa do Papado. O espírito da revolta que os leva a confiar a oração universal ao idioma de cada povo, de cada província, de cada século, já deu seus frutos, e os reformados estão diariamente a perceber que os povos católicos, não obstante suas orações latinas, têm mais gosto e cumprem com mais zelo os deveres do culto que os povos protestantes.”
(Dom Prosper Guéranger, O.S.B, Institutions Liturgiques)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Sidney Silveira sobre a ortodoxia do Pe. Antônio Vieira

“Perguntam-me alguns amigos católicos acerca da ortodoxia do Pe. Antônio Vieira, genial orador sacro, imperador da língua portuguesa, autor das páginas mais belas jamais escritas entre nós. A resposta implica dificuldades, pois dá-la exige separar o inigualável sermonista do homem que, a certa altura de sua trajetória intelectual, deu crédito às "profecias" dum sapateiro português da Beira, trovador afamado na vila chamada Trancoso. Seu nome? Gonçalo Annes, o Bandarra.
Tratava-se de textos escritos mais de um século antes de Vieira debruçar-se sobre eles. Em síntese, eram obras cujo teor messiânico, exaltado pela interpretação retórica do notável jesuíta luso-brasileiro, prognosticava o estabelecimento do Quinto Império (o de Portugal, evidentemente), antes da vinda do Anticristo. Eis o resumo da ópera: o rei D. João IV ressuscitaria para levar a cabo esse Império, o qual duraria mil anos, até o Dia do Juízo.
As trovas de Bandarra tinham claro sabor de milenarismo judaizante, e isto não podia passar ao largo da verruma doutrinária do Santo Ofício. Vieira precisou então se submeter a um duro processo, no momento em que tinha a saúde combalida pelas hemoptises de tísico e pelas febres decorrentes da malária contraída nas missões do Amazonas. Abstraiamos, contudo, estes detalhes para afirmar que quem conhece a doutrina do Magistério da Igreja não pode deixar de dar razão aos inquisidores; chega a ser inconcebível um homem da estatura de Vieira ter descambado numa credulidade tão despropositada.
A Inquisição compeliu inicialmente Vieira a falar do Quinto Império de maneira metafórica, por prudência; ele porém insistiu na interpretação literal: o Império se ergueria na terra, com certeza. Somente quando o Papa condenou as suas proposições, Vieira retratou-se. Mas muito a contragosto, vale destacar, como prova o fato de que, após receber um salvo-conduto de Clemente X, durante o seu exílio em Roma, veio para a Bahia e, mostrando grande pertinácia, continuou a escrever a "Clavis Prophetarum". Na ocasião, o Pe. Antônio já tinha mais de oitenta anos.
Discordo absolutamente de críticos literários como Alfredo Bosi — cujo conhecimento teológico é zero —, para quem o processo movido pela Inquisição tinha razões políticas, insufladas pelas discrepâncias entre dominicanos e jesuítas. Basta compulsar o estupendo arrazoado do Santo Ofício, cuja sentença foi lida para Vieira no dia 23 de dezembro de 1667, para constatar que estavam em jogo questões relativas à fé.
Como se vê, dar uma resposta categórica à indagação mencionada no começo deste breve texto é algo temerário. Meu conselho é filtrarmos a pitoresca espécie de sebastianismo de Vieira e ficarmos com o que, em sua obra, não derroga a fé.”

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segunda-feira, 6 de março de 2017

Gustavo Corção: Antigamente calavam-se...


“Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: "Meu caro C. me diga uma coisa: a Igreja antigamente era ou não era uma coisa muito inteligente?"
Ia responder-lhe com ênfase: "Era!" Mas enquanto vacilei alguns segundos meu amigo desenvolveu a idéia: "Olhe aqui. Eu bem sei que antigamente existiam padres simplórios, freiras tapadíssimas, leigos ainda mais simplórios e tapados. A burrice não é novidade, é antiqüíssima. Garanto-lhe que ao lado do artista genial que pintava touros nas cavernas de Espanha, anunciando há quarenta mil anos a brava raça de toureiros, havia dois ou três idiotas a acharem mal feita a pintura.
— Mas, calavam-se, disse eu.
E logo o meu amigo uivou uma exclamação que trazia na composição harmônica de suas vibrações todas as explosões da alma: a alegria, a angústia, a aflição de convencer, a tristeza de um bem perdido e até a cólera...
— Pois é! CALAAAVAM-SE!!!
Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezenove anos, e meu heróis dezessete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu "explicador" de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor.
Recomeçava eu a explicar certo problema quando ele, numa decisão brusca, me deteve e suplicou:
— Explica devagar, devagarzinho, porque eu sou burro.
Na outra ponta do fio meu amigo de hoje explodiu:
— Que gênio! QUE GÊNIO!!
Era efetivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui sua trajetória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e portanto intelectual. O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum fator ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes. Já ouvi e li muitas vezes o termo "mutação" surrupiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo "um mundo em mutação".
Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles. Será genético o fenômeno e por conseguinte transmissível?
— "Receio muito", gemeu a voz de meu amigo, "você não leu os jornais da semana passada?"
— O quê? — perguntei com a aflição já engatilhada.
— A descoberta do capim!
Não tinha lido tão importante notícia, e o meu amigo explicou-me: um sábio, creio que dinamarquês, chegou à conclusão de que o capim é um dos melhores alimentos do homem. Meu amigo não me explicou que se tratava do Homo Sapiens, do Everlasting Man, de Chesterton, ou do Homo postconciliarius. Seja como for, dentro de quatro ou cinco anos teremos a humanidade de quatro e espalhada nos pastos.
* * *
Estas reflexões amaríssimas, como diria o "agregado" de Machado de Assis, vieram-me hoje ao espírito depois da leitura de La Documentation Catholique, e principalmente depois da casual leitura de um volume encontrado entre outros livros de vinte anos atrás: O personalismo, de Emmanuel Mounier.
Nunca lera nada desse personagem que fundou a revista Esprit e que fez escola. Abri a página 42 da tradução editada pela Livraria Duas Cidades e li: "O homem é um ser natural". Detenho-me nesta proposição seguida desta outra: "Será somente um ser natural?" E depois: "Será, inteiramente, um joguete da natureza?" Ora, é fácil de ver que nenhuma dessas proposições têm sentido, e nenhuma conexão se percebe entre elas. Ou então, se o leitor quiser ser mais exato, diremos que todo aquele fraseado joga com a polivalência te termos equívocos pretendendo com essa confusão transmitir ao desavisado adepto do "personalismo" um sentimento de profundidade ou de rara acuidade. O que quer dizer "um ser natural"? Dotado de natureza própria todos os seres o são, desde o átomo de hidrogênio até Deus. Tenho diante dos olhos o dorso de um livro de Garrigou-Lagrange: Dieu, son existance et sa nature. Logo, Deus é um ser natural. Se por natural se entende tudo o que pertence ao Universo criado, todos os seres, exceto o Incriado, serão seres naturais: a água, um gato, São Miguel Arcanjo. Se o termo natural se contrapõe a artificial, todos nós sabemos que um homem não é montado como um rádio de pilha, ou como uma máquina de costura. Logo, é um ser natural. Mas não se entende por que razão foi preciso fundar Esprit, lançar o progressismo, atirar-se nos braços do comunismo, comprometer Jacques Maritain, excitar tanta gente em torno de tão óbvia proposição.
Emmanuel Mounier já morreu coberto de glória há mais de dez anos. Podemos tranqüilamente dizer que era burro, apesar de tudo o que foi escrito em francês a seu respeito, como já podemos dizer tranqüilamente que Teilhard de Chardin era meio tantã. Dentro de cinqüenta anos ninguém mais saberá em que consistiu o "personalismo" de Mounier, ou o "phenomène humain" de Teilhard de Chardin. Essas obras foram o consolo e a volúpia de muitos leitores que, não entendendo nada do que liam, ao menos se aliviavam com este pensamento balsâmico: todos os livros são escritos para ninguém entender. E assim os idiotas do mundo tiveram um decênio ou dois de júbilo.
Passarão esses autores, mas se é verdadeira a descoberta das propriedades do capim, muitos novos autores surgirão a perguntar "se o homem é um ser natural". Já se ouve o tropel... Mas — quem sabe — talvez o próprio capim, entre suas virtudes estudadas em Estocolmo ou Copenhague, entre duas Pornôs, traga uma espécie de calmante que nos devolva o genial tipo clássico do burro que se conhecia e que não fundava revistas católicas nem rasgava novos horizontes para a Igreja.”

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sexta-feira, 3 de março de 2017

O juízo temerário (II)

[III]
“Em meu último artigo, mostrei que não pode haver confusão mais grosseira do que a de certas pessoas que identificam os conceitos de “juízo temerário” e suspeita. Evidentemente, uma suspeita, pelo próprio fato de não ser uma certeza, envolve uma forte possibilidade de erro. Nem por isto, qualquer suspeita fundada em indícios seguros deve ser considerada temerária. Desde que não tenha havido desproporção entre os indícios e a suspeita, nenhuma temeridade terá existido.
Formular uma suspeita razoável será, assim, um mal? Não. Pelo contrário, pode implicar em grave violação dos mais elementares deveres o não formulá-la.
Demonstrado isto em meu último artigo, passarei agora, dentro do mesmo assunto, a outra ordem de considerações.
* * *
Analisemos a palavra “temerário”. Que significa ela? Imprudente, inconsiderado.
Assim, qualquer juízo só será temerário se inconsideradamente formado, isto é, se formado sem aquela madura análise que deve preceder todos os nossos julgamentos.
Entretanto, de nenhum modo se deve daí inferir que, quando erramos em nosso juízo sobre alguém, agimos sempre temerariamente. O homem é falível, e as circunstâncias muitas vezes o enganam. Por isto, sempre que se tiver agido com cautela, pode a consciência ficar plenamente tranqüila.
* * *
É curioso notar que nem todo juízo temerário é necessariamente desfavorável. Se é temerário todo juízo imprudente, é óbvio que, quando as conclusões desse juízo forem favoráveis, nem por isto terão deixado de ser temerárias.
Não é necessário dizer que, enquanto o juízo temerário desfavorável pode lesar gravemente os direitos da pessoa por ele alvejada, o juízo temerário favorável é, deste ponto de vista, inócuo. Entretanto, um juízo temerário favorável, não ferindo os direitos da pessoa a quem se refere, pode ferir gravemente os direitos de terceiros. E, neste caso, o pecado daí decorrente será tanto mais grave quanto mais respeitáveis forem os direitos assim desrespeitados, bem como quanto mais numerosas forem as pessoas prejudicadas.
Exemplifico. Um pai tem deveres sagrados para com seus filhos. Se ele, entretanto, levado por uma exagerada complacência, ou por um culposo descuido, forma de seus filhos, temerariamente, um juízo muito melhor do que merecem, viola gravemente seus deveres, pois que se coloca na impossibilidade de corrigir seus filhos. Esse mesmo pai, entretanto, teria talvez escrúpulo em formar uma suspeita legítima quanto a algum empregado, sócio, cliente, etc. Não há nisto um evidente desequilíbrio? Outro exemplo: em geral, os professores conservam sobre seus antigos alunos alguma autoridade moral; entretanto é tão grande a cegueira de muitos deles para com esses produtos de seus esforços educacionais que só vêem neles qualidades e não defeitos; e, em última análise, a influência moral dos antigos professores, em grande número de casos, se torna inteiramente inútil para os alunos. Outro exemplo ainda: os presidentes de setores de Ação Católica ou de associações religiosas têm obrigação estrita de discernir, nos associados, os defeitos que os tornem perigosos aos demais, a fim de que, se inúteis às advertências amistosas, os elementos nocivos sejam eliminados. Conheço, entretanto, um caso concreto de certa associação que tendo relutado durante anos inteiros em expulsar alguns membros, acabou por ficar reduzida a uma inanição absoluta, pela corrupção dos elementos bons que tinha conseguido laboriosamente formar. Não houve, no juízo temerariamente bom das autoridades dessa associação, uma grave falta no cumprimento dos encargos?
Tudo isto posto, é certo que não são só os juízos temerários desfavoráveis que podem acarretar pecados.
* * *
Penso que chocarei muitos leitores se a isto eu acrescentar que minha experiência me tem mostrado que a Igreja e a sociedade têm padecido muito mais dos juízos temerários favoráveis do que dos desfavoráveis que hoje em dia se formam. Entretanto, esta é uma importante verdade. Se o mal tem tantas vezes uma imensa liberdade de ação, se ele conquista círculos de influência cada vez mais largos, se ele estende seu domínio sobre o mundo de modo cada vez mais insolente, enquanto a influência dos elementos bons se retrai, ferida muitas vezes de uma oprobriosa impotência, de uma infecundidade evidente, a que se deve isto senão à confiança por vezes infantil e ridícula com que os bons abrem seus ambientes aos maus?
Ora os pecados contra os interesses da Igreja são, de sua natureza, maiores e mais graves do que os que se cometem contra interesses humanos. Por outro lado, os pecados contra a sociedade são maiores, de sua natureza, do que os que se cometem contra os indivíduos. Tudo isto posto, quem por juízo temerariamente bom prejudica a Igreja e a sociedade, peca mais gravemente do que quem por juízo temerariamente mau prejudica um indivíduo.
* * *
Tudo quanto dissemos sobre os juízos temerários se aplica, ponto por ponto, às suspeitas temerárias. Também há suspeitas temerariamente boas. Quando concebemos uma infundada e temerária esperança de que alguém é bom; quando supomos temerariamente que podemos dar a A, B, ou C as maiores provas de confiança com o intuito de os comover e assim arrastá-los para a Igreja; quando deixamos de exigir deste ou daquele indivíduo as garantias necessárias em matéria de interesses espirituais ou temporais, por julgarmos muito auspiciosa sua fisionomia franca e leal, em todos estes casos cometemos suspeitas temerariamente boas, porque nos teremos deixado empolgar por esperanças infundadas, por aparências enganosas, por ilusões contra as quais um homem sério deve estar premunido internamente. E, assim, prejudicamos seriamente os nossos interesses, os de nossas famílias, de nossa Pátria e, o que é pior do que tudo, os da Santa Igreja. Livre-nos Deus, pois, das suspeitas temerariamente severas. Mas livre-nos também das suspeitas temerariamente indulgentes.
A este respeito, não julgamos dever desmascarar o erro infantil dos que supõem que todo juízo severo, pelo próprio fato de ser severo, é temerário. Achar que um assassino é um assassino, um adúltero é um adúltero, ou um ladrão é um ladrão, constitui para muita gente juízo temerário. Poderá haver opinião mais ridícula? Assim, quando Nosso Senhor chamava os fariseus raças de víboras e sepulcros caiados, cometia juízo temerário? Quando os apóstolos, os Papas, os Padres e Doutores da Igreja estigmatizavam em palavras candentes os erros dos potentados de seu tempo, cometiam juízo temerário? E a caridade, segundo essa estranha moral, consistira em achar pertinazmente, e contra toda a evidência dos fatos, que um assassino é um cordeiro, um adúltero um lírio, e um ladrão uma pomba. Isto não é virtude, mas imbecilidade. Diz-se de Santa Teresa que ela afirmou que a humildade consistia na verdade. É também certo que a caridade não consiste nem no erro nem na mentira.
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Tudo isto está certo, dirá muita gente. Mas deixemos aos que detêm qualquer autoridade, seja na família, seja na sociedade, seja no Estado ou na Igreja, o encargo de formar essas dolorosas certezas e essas tristes suspeitas. Conformemo-nos com nossa condição de súditos, e aproveitemos nela ao menos a satisfação de viver sem preocupações.
Todo o mundo reconhece que para as altas funções - e quantas funções há que, sendo humildes, são altíssimas - é necessária uma preparação remota. Se todos aqueles que exercem no movimento católico, na sociedade ou na família, funções que os obrigam absolutamente a suspeitar do próximo (dentro da medida do justo e do razoável, repetimo-lo), se se preparam para isto só depois de terem recebido nos ombros o peso da autoridade, que espécie de chefes teremos? Não haveria uma analogia entre eles e um general que só começasse a aprender estratégia depois de promovido a essa alta dignidade?
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Tenho a certeza de que a leitura destas reflexões terá causado a muitos leitores, que sofrem de uma caridade neurastênica, de uma violenta e iracunda misericórdia, uma irritação sem nome. Estas linhas lhes terão causado, no fundo da consciência, estranhos e agudos remordimentos. Estavam em tal paz, e de repente o cenário se muda diante de seus olhos. Qual o jornalista impertinente que assim perturba seu sossego?
O mundo está atravessando uma tremenda hora de crise. A “caridade” com que muita gente, fechando os olhos ao perigo, dorme o sono da paz, muito mais se parece com o torpor dos Apóstolos no Horto das Oliveiras do que com uma verdadeira virtude sobrenatural. Se esses membros sonolentos da Igreja militante não querem ouvir nossa voz, meditem ao menos nas palavras de Nosso Senhor:
Una hora non potuistis vigilare mecum?””

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O juízo temerário (I)


“Em artigos anteriores temos mostrado a ação nociva do liberalismo religioso, que timbra em deformar nos católicos as virtudes mais adequadas à luta e ao combate, criando assim o tipo ridículo do “carola” inofensivo e inepto, que o próprio liberalismo é o primeiro a estigmatizar afirmando que a Igreja não é capaz de produzir figuras diversas desta.
Se o liberalismo se empenhou particularmente em iludir as massas católicas a respeito da virtude da fortaleza, é certo que outra virtude, a da perspicácia, também tem sido muito combatida pela propaganda liberal. Muitos católicos se terão por certo espantado quando afirmamos que o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma inigualável escola de energia e heroísmo no sentido mais belicoso da palavra. Sua surpresa não será menor se lhes dissermos hoje que o Evangelho é uma inigualável escola de perspicácia, e que Nosso Senhor Jesus Cristo inculcou reiteradamente esta virtude.
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O que vem a ser perspicácia? É a virtude pela qual nosso olhar, transpondo as aparências enganosas apresentadas pelas pessoas com quem lidamos, penetra até à realidade mais recôndita de sua mentalidade. Assim, diz-se de uma autoridade eclesiástica ou civil que é perspicaz se, através da prolixidade dos conselhos e informações que recebe, sabe discernir a verdade do erro, adotando em conseqüência uma linha de conduta conforme os interesses que tem em mãos. Dentro da mesma ordem de idéias, pode-se dizer que é perspicaz um médico que sabe discernir a existência de uma moléstia através dos mais ligeiros indícios. E no mesmo sentido ainda se chamaria perspicaz o detetive que sabe interpretar as circunstâncias aparentemente mais insignificantes, delas deduzindo com segurança qual foi o autor de um crime. Difícil seria imaginar uma profissão ou condição social em que a perspicácia não fornecesse ao homem os mais inestimáveis recursos para o cumprimento de seus deveres. O pai de família, o professor, o diretor de consciências precisa discernir em seus alunos, dirigidos ou filhos, os mais ligeiros sintomas das crises que se esboçam, a fim de prevenir o que de futuro seria talvez impossível remediar. O homem de Estado não pode deixar de distinguir, por entre as múltiplas manifestações de amizade que seu alto cargo suscita, os amigos sinceros dos insinceros: todo o êxito de sua carreira política está condicionado a esta aptidão. Os advogados, militares, industriais, comerciantes, banqueiros, jornalistas, etc., etc., não podem exercer convenientemente suas funções, nem poupar aos interesses que têm em mãos os mais graves sacrifícios, se não forem munidos de uma perspicácia hoje mais necessária do que nunca.
A este respeito queremos insistir muito especialmente: todo mundo tem, em certas circunstâncias, o direito de arcar com prejuízos que afetem seus interesses individuais. Ninguém, entretanto, tem o direito de expor os interesses de terceiros. Haverá situação mais ridícula do que a de alguém que declare romanticamente haver comprometido os interesses de terceiros que lhes estavam confiados, porque “foi bom demais e confiou excessivamente na bondade alheia”? “Bom demais”? É realmente ser “bom demais” sacrificar ao amor próprio de uma meia dúzia de aventureiros os interesses sagrados confiados à pessoa que assim procura se inocentar? Quem não percebe que essa “bondade” fora de propósito redundou em uma injustiça cruel para com os terceiros prejudicados no caso?
Apliquemos na ordem concreta dos fatos estes conceitos. Um apóstolo leigo que, por “excessiva bondade”, tolera em alguma associação membros gangrenados nos quais confia infundadamente, e que ocasionam a perda de todos os outros, não é um traidor que sacrifica cruelmente os elementos sãos e inocentes aos elementos culpados?
“Se teu pé de escandaliza, corta-o. Se teu olho te escandaliza, arranca-o”. É esta a máxima do Evangelho. Mas quanta perspicácia é necessária para perceber a premência de certas amputações! E, no entanto, o apóstolo leigo que não sabe discernir a oportunidade destes cortes dolorosos, ou não sabe apreciar a utilidade de tais amputações, não é menos inepto nem menos perigoso para o laicato católico do que o médico que desprezasse sistematicamente o emprego dos processos cirúrgicos.
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Não foi outra a razão pela qual Nosso Senhor, além de recomendar a amputação dos membros gangrenados de qualquer sociedade humana, falou de modo todo particular contra os falsos profetas e os lobos disfarçados em ovelhas. Qual a virtude que nos faz evitar os aventureiros arvorados em profetas senão a perspicácia? Qual virtude que nos leva a repelir o lobo metido na pele da ovelha senão a perspicácia? E o que de mais triste do que, por falta de perspicácia, seguir falsos profetas ou abrir o aprisco às falsas ovelhas?
Por isto mesmo Nosso Senhor não se limitou a pregar a perspicácia, mas deu dela exemplos insignes e memoráveis. Assim, quando o Divino Mestre denunciava os fariseus, o que fazia senão estimular a perspicácia de seus ouvintes, desmascarando aqueles sepulcros caiados, brancos por fora e por dentro cheios de podridão? E, entretanto, se o “Legionário” dissesse de alguém - de um violador de tratados e concordatas por exemplo - que é um sepulcro caiado, quem não afirmaria que além de faltarmos com a caridade estaríamos cometendo um juízo temerário?
Em torno deste capítulo dos juízos temerários, quanta teologia de água doce não se tem feito?
É precisamente para desfazer um pouco do ridículo romantismo edulcorado e pietista, que em torno da questão do juízo temerário se tem formado, que escreveremos nosso próximo artigo.
[II]
Grande número de incompreensões a respeito do assunto provém de uma análise superficial da palavra “juízo”. Muitas são as pessoas que receiam fazer uma suspeita desfavorável a terceiros, porque, caso a suspeita não seja comprovada ulteriormente, terão cometido um juízo temerário. Mas uma suspeita poderá ser considerada juízo?
Para decidir a questão, basta recorrermos às noções correntes. O juízo, ou sentença, implica em uma afirmação. Só fazemos um juízo acerca de alguém quando chegamos a uma certeza a respeito desse “alguém”. Uma suspeita não constitui um juízo, e, assim, quem suspeita de outrem não pode, propriamente, formar um juízo temerário, e isto pela simplicíssima razão de que não chegou a estabelecer juízo algum. Com efeito, a suspeita é uma hipótese que formulamos a respeito de uma pessoa. E a hipótese evidentemente não é uma certeza.
Assim, ainda que tenhamos feito sobre uma pessoa uma suspeita infundada, não teremos com isto cometido um juízo temerário.
* * *
Quer isto dizer que podemos arbitrariamente suspeitar do próximo? Evidentemente não. O que se requer neste assunto é simplesmente um uso correto das leis da lógica. Com efeito, há pessoas que tomam às vezes atitudes que, em sã lógica, suscitam uma legítima suspeita. E, neste caso, suspeitar não pode constituir um pecado. Com efeito, se pelo emprego correto das luzes naturais que Deus nos deu chegamos a formular uma hipótese plausível, poderá haver pecado em que demos acolhida a essa hipótese? Evidentemente não.
Em que caso, então, uma suspeita pode ser pecaminosa? Quando se basear em elementos logicamente insuficientes para tal. Ou, em outros termos, quando com elementos insuficientes para formular uma suspeita, nós entretanto a formulamos, quer por leviandade, quer por má vontade, quer por qualquer outro defeito. Trata-se aí, evidentemente, de um mau emprego das regras da lógica e implicitamente de uma injustiça censurável.
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Quer isto dizer que devemos evitar qualquer suspeita, de medo de errar?
Também não. Seria tão estulto quanto se deixássemos de andar, de medo de escorregar e quebrar a espinha; deixar de respirar, de medo de ingerir micróbios; deixar de comer, de medo de assimilar alimentos nocivos à saúde.
Todos nós sabemos que o homem é falível, e que portanto pode, ainda que contra a sua vontade, fazer uma suspeita ou um juízo infundado. Mas se daí se devesse deduzir que jamais devemos formular contra o próximo um juízo ou uma suspeita, erraríamos, como erraríamos se quiséssemos promover a abolição de todos os tribunais e todas as penas, porque os tribunais se podem enganar e as penas podem eventualmente ser injustas.
Ao formar a respeito do próximo nossas impressões, nossas suspeitas e nossas certezas, usemos sempre de cautela, a que normalmente somos obrigados em questões importantes. Isto posto, estejamos com a consciência tranqüila: não estaremos pecando.
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Por que motivo o receio de julgamentos errados não pode servir de fundamento para que se pleiteie a abolição dos tribunais? A razão é evidente. A supressão dos tribunais daria lugar a injustiças e crimes mil vezes mais numerosos e mais lamentáveis do que uma ou outra injustiça inevitável no funcionamento de qualquer tribunal humano. Isto posto, é no interesse da própria justiça que se deve o homem conformar com um regime judiciário que, falível como tudo que é humano, de quando em vez sacrifica involuntariamente algum inocente.
Este princípio pode ser perfeitamente aplicado ao assunto de que tratamos neste artigo. Qualquer indivíduo que, de medo de formar suspeitas infundadas a respeito dos outros, mantivesse seu juízo perpetuamente em suspenso, causaria males certamente maiores do que os que decorreriam de um uso criterioso de suas luzes naturais. Demonstramo-lo no último artigo. O pai que tivesse receio de formar juízo temerário acerca de seus filhos, procurando observá-los e discernir neles os primeiros sintomas de alguma crise moral, prejudicaria muito e muito mais seus filhos com isto, do que se, involuntariamente, fizesse algum dia uma suspeita infundada, que a falibilidade humana sempre pode deixar passar. Um chefe de empresa econômica, que deixasse de dar a devida atenção a perigosos indícios de desonestidade de seus sócios ou empregados, por medo de fazer uma suspeita temerária, estaria agindo de modo sumamente incorreto. Um político, um diplomata, um professor, um advogado, um diretor de consciências, um apóstolo leigo, que deixassem de dar o devido valor aos indícios desfavoráveis que pudessem notar nas pessoas com quem tratam, seriam certamente muito mais perigosos em determinadas circunstâncias do que inimigos declarados da Religião, da família, dos interesses dos clientes, dos alunos, etc., etc.
A esse respeito, não me posso furtar de narrar uma interessante reflexão do saudoso e grande Dom Duarte. Disse-me certa vez aquele santo e imortal Prelado que “preferia lidar com um canalha do que com um burro” - conservo textualmente a expressão. E acrescentava: “Um canalha inteligente, se jogarmos com ele com inteligência, poderá por nós ser reduzido à inocuidade; mas um burro que dá coices a torto e a direito, o que não se poderá recear dele?” Quem não vê o pleno cabimento desta reflexão do grande e santo Bispo?
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Chegamos ao âmago de nosso assunto. Andam erradamente, e muito erradamente, os que dizem que não querem formar juízos ou suspeitas sobre os outros, porque a tal não têm direito. Distingo. É inconveniente que andemos a fiscalizar as pessoas cuja conduta não se encontra sob o raio de nossa autoridade. Mas que sejamos obrigados a não formar impressões sobre aquilo que naturalmente nos salta aos olhos, na vida de todo o dia, quem ousará sustentá-lo? Quem não percebe que se trata aí de um processo de imbecilização que acaba por ferir os próprios princípios de Fé e de moral? Com efeito, um homem de caráter firme e varonil sente uma dissonância interior cada vez que nota que, em torno de si, as coisas se passam de modo contrário à glória de Deus, à exaltação da Santa Igreja, e da doutrina católica. Deixar de formar juízo sobre o que é evidente, deixar de ouvir o clamor dos indícios veementes, ou é imbecilidade ou fraqueza de princípios. Não há por onde escapar.
Assim, formar juízo e formar suspeitas, quando isto é dirigido pelas virtudes cardeais, e não se orienta pela ação de qualquer inclinação viciosa, é virtude e alta virtude. E deixar de formar juízo ou suspeita quando o caso se apresenta, pode ser defeito, e grave defeito.
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Liricamente, muita gente costuma sustentar que “isto compete à autoridade, e como não tenho autoridade, posso dispensar-me dessa tarefa ingrata”. E muito tolo comentará de si para si “que coração generoso é esse, como lhe dói ver a maldade do próximo”. Certamente, há muita generosidade em doer-se alguém da perfídia do próximo. Mas haverá generosidade em fechar os olhos à evidência, para não sentir essa dor? Ah, como os Santos abriram e até escancararam os olhos a essas dolorosas evidências! Como lhes cortava o coração ver a malícia, a ingratidão, a perfídia, a lascívia dos homens! Quantos juízos encontramos, nas obras dos Santos, juízos severíssimos e tremendos, não só a respeito de um ou outro indivíduo nominalmente considerado, mas ainda a respeito de cidades, povos e países inteiros! Os Santos se doíam, mais do que ninguém, dessa realidade. Mas em vez de lhe fechar estupidamente os olhos, abriam pelo contrário os olhos para as misérias da terra e o coração para o Céu, em magníficos atos de reparação e desagravo a Deus. Como está longe da conduta dos Santos certo romantismo piegas com que tantas vezes nos defrontamos na vida! E como dói ver que essa estupidez romântica vem pregada em nome do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando Nosso Senhor Jesus Cristo chamou os fariseus sepulcros caiados, o que fez senão juízo? E quando aconselhou que tomássemos cuidado com os falsos profetas e os lobos metidos em pele de ovelha, o que fez senão impor-nos à suspeita como importantíssimo meio para a nossa salvação?
Uma vítima da revolução francesa, passando por sob a estátua da liberdade, teve a exclamação famosa: “Ó liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome”. Com quanto direito poderíamos dizer por nossa vez: “Ó caridade, quanta sandice e quanto crime em teu nome se tem praticado”.
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Mas, sobretudo, o que importa notar é que um observador sagaz não se improvisa. Que espécie de autoridade será quem esteve de tapa-olhos, ininterruptamente, durante todo o tempo em que foi súdito? Não é porventura quando se é súdito que se deve adquirir as qualidades de um chefe? A tal ponto é isto verdade, que todos os exércitos e todas as engrenagens das empresas comerciais, etc., têm sua linha fixa de promoções. Não valerá isto para nós? Ingênuos como crianças de berço até o dia em que não cai sobre os ombros uma função de responsabilidade, o que faremos quando depender de nós a defesa dos mais importantes interesses espirituais ou temporais, contra os lobos disfarçados na pele da ovelha?
Decididamente, renunciemos a toda esta pieguice. Ela só serve para prejudicar a Igreja, dando a entender que a descrição que seus adversários fazem do “carola”, tipo imbecil de um sentimentalismo romântico e estúpido, é produto genuíno de seu espírito. Sursum corda. Corações ao alto. Pieguismo não é bondade. Estupidez não é generosidade. Inocentes como as pombas, nem por isto deixemos de ser astutos com as serpentes. É Nosso Senhor que, em termos expressos, no-lo impõe. Queremos porventura ser melhores do que Ele?”

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Estudos realizados em gêmeos idênticos provam que o homossexualismo não é genético

“Oito grandes estudos realizados em gêmeos idênticos na Áustria, nos Estados Unidos e na Escandinávia durante as últimas duas décadas chegam todos a uma mesma conclusão: os gays não nascem assim.
“Na melhor das hipóteses, a genética é um fator menor”, diz o Dr. Neil Whitehead, PhD. Whitehead trabalhou para o governo da Nova Zelândia como um pesquisador científico durante 24 anos, e então passou quatro anos trabalhando para as Nações Unidas e para a Agência Internacional de Energia Atômica. Atualmente ele trabalha em universidades japonesas como um consultor sobre os efeitos da exposição à radiação. Ele possui PhD em bioquímica e estatística.
Gêmeos idênticos possuem os mesmos genes ou o mesmo DNA. Desenvolvem-se no ventre materno em condições pré-natais iguais. Se a homossexualidade é causada por condições genéticas ou pré-natais e um dos gêmeos é gay, então o seu irmão também deveria ser gay.
“Como eles possuem o DNA idêntico, [a taxa de casos em que ambos os gêmeos são gays] deveria ser de 100%”, observa o Dr. Whitehead. Mas os estudos revelam algo diferente. “Se um gêmeo idêntico apresenta atração por pessoas de mesmo sexo, as chances de que seu irmão também apresente são de aproximadamente 11% para homens e 14% para mulheres.”
Como os gêmeos idênticos são sempre geneticamente idênticos, a homossexualidade não pode ser geneticamente ditada. “Ninguém nasce gay”, ele observa. “Os fatores predominantes que criam a homossexualidade em um gêmeo idêntico mas não criam no outro têm que ser causados após o nascimento.”
O Dr. Whitehead acredita que a atração pelo mesmo sexo é causada por “fatores não compartilhados”, coisas que acontecem com um dos gêmeos mas que não acontecem com o outro, ou alguma resposta pessoal a um evento dada por um dos gêmeos mas não dada pelo outro.
Por exemplo, um dos gêmeos pode ter sido exposto a pornografia ou abuso sexual, mas o outro não. Um gêmeo pode se comportar ou responder de uma maneira diferente aos ambientes familiares e escolares do que o outro. “Essas respostas individuais e idiossincráticas a eventos aleatórios e a fatores ambientais comuns predominam”, ele diz.
O primeiro estudo grande e confiável com gêmeos idênticos foi conduzido em 1991 na Austrália, seguido por um grande estudo nos Estados Unidos em 1997. Depois a Austrália e os Estados Unidos conduziram mais estudos com gêmeos nos anos 2000, seguidos por vários estudos na Escandinávia, de acordo com o Dr. Whitehead.
“Os registros de gêmeos são a base para os estudos mais recentes. Atualmente estes registros são grandes e eles existem em muitos países. Está sendo organizado um registro europeu gigante, com uma projeção de 600.000 membros, mas um dos maiores registros em uso atualmente se encontra na Austrália, com mais de 25.000 gêmeos em sua base de dados.”
Um estudo significativo com gêmeos adolescentes, mostra uma correlação genética ainda mais fraca. Em 2002, Bearman e Brueckman estudaram dezenas de milhares de estudantes adolescentes nos Estados Unidos. A concordância na atração pelo mesmo sexo entre os gêmeos idênticos era de apenas 7,7% para os garotos e de 5,3% para as garotas – abaixo dos 11% e dos 14% apresentados no estudo australiano de Bailey et al conduzido em 2000.
O Dr. Whitehead têm ficado impressionado por quão fluida e mutável a orientação sexual tem se mostrado nos estudos com gêmeos idênticos.
“Pesquisas acadêmicas neutras mostram uma mudança substancial. Aproximadamente metade da população homossexual/bissexual (em um ambiente não-terapêutico) passa a se tornar heterossexual em algum período de sua vida. Cerca de 3% da população heterossexual atual alguma vez na vida já acreditou firmemente ser homossexual ou bissexual.”
“A orientação sexual não é firmemente estabelecida”, ele observa.
O que é ainda mais impressionante é que a maior parte das mudanças ocorre sem qualquer aconselhamento ou terapia. “Estas mudanças não são induzidas por terapia alguma, mas acontecem ‘naturalmente’ durante a vida, algumas delas muito rapidamente”, nota o Dr. Whitehead. “Muitas mudanças na orientação sexual são para a heterossexualidade exclusiva.”
O número de pessoas que mudaram para uma heterossexualidade exclusiva é maior do que o atual número combinado de bissexuais e homossexuais. Em outras palavras, existem mais ex-gays do que gays.
A fluidez é ainda mais pronunciada entre os adolescentes, como demonstrou o estudo de Bearman e Brueckner. “Eles descobriram que, dentre as pessoas que tiveram uma atração romântica por outra do mesmo sexo dos 16 aos 17 anos de idade, quase todas mudaram de atração um ano depois.”
“Os autores eram pró-gay e eles comentaram que os únicos estáveis eram os heterossexuais, que permaneciam com a mesma orientação sexual ano após ano. Os adolescentes são um caso especial – geralmente mudando sua atração sexual de ano em ano.”
Ainda assim, muitos equívocos persistem na cultura popular. Ou seja, o equívoco de que a homossexualidade é genética – tão estabelecida na identidade de alguém que não pode ser mudada. “Os acadêmicos que trabalham no ramo não estão felizes com a maneira pela qual os meios de comunicação abordam o assunto”, observa o Dr. Whitehead. “Mas eles preferem se manter em sua pesquisa acadêmica e não se envolver no lado ativista.”
(Mark Ellis, Identical Twin Studies Prove Homosexuality is Not Genetic)

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