segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Significado da Sinagoga de Satanás na história


“Com o problema do diabo e do Anticristo está ligado o problema da malícia dos judeus fariseus e de seu significado na história. É claro que o mal não é patrimônio de algum homem, e menos ainda de algum povo. Todos os homens são pecadores e são capazes das piores aberrações. Assim como a graça de Deus tampouco tem relação especial com algum homem nem com um povo determinado. Sem embargo, Deus pode escolher um caminho determinado para nos dispensar sua graça e para permitir expressar-se a malícia humana. De fato, Deus escolheu esse caminho. O povo judeu, como é sabido, foi escolhido diretamente por Deus para nos trazer em seu sangue o Messias Jesus Cristo, que havia de ser a Saúde do mundo. Parte principal desse povo, contrariando toda a tradição autêntica dos Patriarcas e Profetas, carnalizou a esperança do Messias e se sujeitou a uma falsa tradição humana de dominação de outros povos. Parte do povo judeu, sob a influência e o governo desse grupo de fariseus, se constituiu de modo especial desde a vinda de Jesus Cristo no que São João, em seu Apocalipse (2,9), chama a “Sinagoga de Satanás”. Desde então parte do povo judeu dominada por essa minoria cheia de malícia se dedica à tarefa de perversão e de dominação de outros povos. A essa minoria se aplica com toda verdade as palavras que Jesus dirigia aos judeus fariseus: “Vós tendes por pai ao diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.”
São Paulo estampou em letras inalteráveis que ficam como lei da história a conduta dessa minoria de judeus entre as nações. Disse o Apóstolo (1 Tes. 2, 14 ss.):
“Irmãos, vós vos tornastes imitadores das igrejas de Deus em Cristo Jesus da Judéia, pois tivestes que sofrer da parte dos vossos compatriotas o mesmo que eles sofreram dos judeus, aqueles judeus que mataram o Senhor Jesus e aos profetas, que nos perseguem e que não são do agrado de Deus, que são inimigos de todos os homens, visto que nos proíbem pregar aos gentios para que se salvem”.
De acordo com esta lei que enuncia aqui o Apóstolo Paulo, uma minoria farisaica de judeus desempenha na história um papel de inimigos primeiros dos povos cristãos, empenhados em perdê-los, impedindo sua cristianização. Para isso buscam o domínio total da vida dos povos apoderando-se das molas propulsoras do poder: do poder econômico primeiro e em seguida do próprio poder político. Seria longo historiar o processo histórico que cumpre essa minoria farisaica.
Mas uma vez derrubada a sólida estrutura da cristandade medieval, fundada na fé e na caridade, os judeus conseguiram penetrar dentro dos povos cristãos e dali corrompê-los com o liberalismo e escravizá-los com o comunismo. A Revolução moderna – liberalismo, socialismo, comunismo – é o grande instrumento de dominação de que se valem. Com ela conseguiram suprimir a civilização cristã e substituí-la por uma civilização laicista e atéia.
Os cristãos, por sua vez, não têm outra defesa eficaz contra a judaização que uma adesão efetiva à vida cristã, o que implica no cumprimento privado e público da lei natural e sobrenatural. Quando os cristãos se debilitam neste cumprimento, vão caindo de modo insensível, mas seguro, no domínio judaico.”
(Pe. Julio Meinvielle, El Comunismo en la Revolución Anticristiana)

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Oração a Nossa Senhora de África pela conversão dos muçulmanos, composta pelo Bispo de Argel em 1858

"Ó Coração Santo e Imaculado de Maria, pleno de misericórdia, tão atingido pela cegueira e profunda miséria dos muçulmanos. Vós, a Mãe de Deus feito homem, dai-lhes o conhecimento da nossa Santa Religião, a graça de a abraçar e praticar fielmente, a fim de que, pela vossa poderosa intercessão, estejamos todos reunidos na mesma fé, na mesma esperança e no mesmo amor do vosso divino Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi crucificado e morreu para salvação de todos os homens, e que ressuscitou cheio de glória, e reina na unidade do Pai e do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós.
Nossa Senhora de África, rogai por nós, pelos muçulmanos, pelos judeus e todos os outros infiéis.
Consoladora dos aflitos, rogai por nós."

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

A aula de história que Obama pulou


“A última de Barack Obama foi dizer que os muçulmanos ajudaram a construir os EUA, que a história do país está entrelaçada com a história dos muçulmanos que estavam lá desde o começo.
Pelo jeito, Obama andou pulando algumas aulas de história. Vamos lá:
- Quando os EUA nasceram, no final do séc. XVIII, havia uma crise com os muçulmanos do norte da África. Eram povos oficialmente muçulmanos, que viviam sob as leis do Corão.
- Estes muçulmanos atacavam navios que passavam pelo Mediterrâneo, incluindo americanos, sequestrando, escravizando e matando ocupantes, além de saquear a carga. Os navios americanos eram normalmente protegidos pela marinha inglesa antes da independência, mas depois de 1776 era cada um por si.
- Os piratas muçulmanos cobravam fortunas como resgate dos reféns e os preços sempre subiam a cada sequestro bem sucedido. Jefferson se opôs veementemente aos pagamentos mas foi voto vencido, os EUA e as outras nações com navios sequestrados estavam aceitando pagar os resgates e subornar os piratas. O presidente americano era George Washington.
- Por volta de 1783, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e John Adams vão para a Europa como embaixadores para negociar tratados de paz e cooperação. Os EUA nasceram em 1776 e estavam mergulhados até então na Guerra de Independência. Assim que a situação acalmou no país, essas três figuras icônicas saem em missão diplomática para representar o país.
- Em 1786, depois de dois anos de conversas diplomáticas com os muçulmanos, Thomas Jefferson e John Adams encontraram com o embaixador dos povos que ficavam na região de Trípoli, na atual Líbia, chamado Sidi Haji Abdul Rahman Adja. Jefferson estava incomodado por conta dos ataques que não acabavam mesmo com todos os esforços de paz e quis saber com que direito os muçulmanos sequestravam e matavam americanos daquele jeito.
- A resposta que ouviu marcou Jefferson para sempre: "o islã foi fundado nas Leis do Profeta, que estão escritas no Corão, e diz que todas as nações que não aceitarem a sua autoridade são pecadoras e que é direito e dever declarar guerra contra seus cidadãos onde puderem ser encontrados e fazer deles escravos e que todo muçulmano que for morto na batalha irá com certeza para o Paraíso." Jefferson ficou chocado, ele não queria acreditar que uma religião literalmente mandava matar todos os infiéis e que quem morresse na batalha iria para o céu.
- Durante 15 anos o governo americano pagou os subornos para poder passar com seus navios na região. Foram milhões de dólares, uma quantia que representava 16% de todo orçamento do governo federal. O primeiro governo do país, de George Washington, não queria ter forças armadas permanentes por não ver riscos de ataques ao país, mas os muçulmanos mudaram esta idéia. Os subornos serviriam para evitar a necessidade de ter forças militares, mas não estavam funcionando porque os ataques continuavam. Entra John Adams, o segundo presidente, e as despesas sobem para 20% do orçamento federal.
- Em 1801, Jefferson se torna o terceiro presidente americano e, mal tinha esquentado a cadeira, recebe uma carta dos piratas aumentando o butim. Ele fica louco e, agora como presidente, diz que não vai pagar nada.
- Com a recusa de Jefferson, os muçulmanos de Trípoli tomaram conta da embaixada americana e declararam guerra aos EUA. Foi a primeira guerra dos EUA após a independência, a marinha americana foi criada para essa guerra. O que é hoje a Tunísia, Marrocos e Argélia se juntou aos líbios na guerra, praticamente todo norte da África com exceção do Egito.
- Jefferson não estava para brincadeira. Mandou seus navios para a região e a guerra durou até 1805, com vitória americana, e ele ainda colocou tropas ocupando o norte da África para manter a situação sob controle.
Thomas Jefferson ficou realmente impressionado com o que aconteceu. Ele era contra guerras e escreveu pessoalmente as leis de liberdade e tolerância religiosa que estão na origem da Constituição americana, mas ele entendeu que o Islã é totalmente diferente, era uma religião imperialista, expansionista, que tinha propósitos totalmente diferentes.
Jefferson mandou traduzir o Corão em 1806, lançando a primeira edição americana. Ele queria que o povo conhecesse o Corão e entendesse aquele pessoal do norte da África que roubava, saqueava e matava, cobrava resgates e que declarou guerra quando os pagamentos cessaram.
Durante 15 anos, Jefferson chegou a dizer, os americanos eram atacados porque não atacavam de volta e eram vistos como fracos. A fraqueza americana foi um convite para os muçulmanos daquela época como é para o ISIS hoje. Só houve paz na região quando Jefferson atacou e venceu a guerra, depois ocupando o território. Não tem mágica, é assim que se faz.
Barack Obama quer saber como os muçulmanos estão na história americana? Eles estão como os motivadores da primeira guerra, eles forçaram a criação das forças armadas que nem existiam e fazem parte até do hino dos marines que começa com ‘From the Halls of Montezuma/To the shores of Tripoli’.”
(Alexandre Borges, em postagem no Facebook de 21.02.2015)

sábado, 17 de setembro de 2016

O socialismo só aparece quando a história humana atinge um determinado grau de degradação

“O socialismo, monstro do terror racionalizado, não pode surgir em qualquer momento da história humana, senão quando esta tenha alcançado um determinado grau de degradação. Quando tenha perdido o sentido de Deus, o sentido da majestade da autoridade pública, o sentido da santidade da família, o sentido da dignidade pessoal do homem. O comunismo é o termo e o resultado de um processo secular de degradação em que a sociedade desligada dos valores sobrenaturais, encarnados no sacerdócio, dos valores da dignidade política, encarnados na nobreza, dos valores da eficácia econômica, encarnados na burguesia, explora os baixos instintos do ressentimento das classes mais desvalidas pretendendo edificar sobre o ódio destas todo o edifício social. (...) O absurdo perverso e nefasto do socialismo estriba precisamente em que quer nivelar por baixo todos os valores e classes sociais. Todos os homens igualmente ateus, todos igualmente livres de vínculos políticos, todos sem propriedade econômica; vale dizer, todos proletarizados, isto é, desintegrados. E como os átomos desintegrados não podem coexistir sozinhos, um poder férreo, duro, implacável, os obriga a agrupar-se em um grande Todo, homogêneo e coletivo, fundado e sustentado no terror permanente.”
(Pe. Julio Meinvielle, El Comunismo en la Revolución Anticristiana)

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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Georg Trakl: Cântico da Noite (IV)


Tu és o vinho que embriaga o mundo,
E eu esvaio-me em sangue em danças de amor,
Coroando de flores a minha dor!
É a tua vontade, oh noite sem fundo!

Eu sou a harpa em ti a tanger,
E as últimas dores no meu coração
Cedem à tua negra canção,
Que me faz eterno e me apaga o ser.


Tradução de João Barrento

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

É impossível o diálogo com o Islã


Um filósofo estudioso de Santo Tomás de Aquino analisa o Alcorão. Doutorado na prestigiosíssima Universidade de Lovaina, Martínez Barrera explica seu pensamento. O diálogo Cristianismo-Islamismo não é possível.
O filósofo Jorge Martínez Barrera esteve há um certo tempo na Universidade Católica para dar uma conferência sobre Santo Tomás de Aquino e o Islã, abordando uma complexa questão: “Seria possível, segundo Santo Tomás, pensar na possibilidade de uma conciliação entre a religião maometana e o Cristianismo?”.
Com este doutor em Filosofia e Master of Arts em Filosofia pela Université Catholique de Louvain (Bélgica), que é membro do Conselho Acadêmico do doutorado em Filosofia da Universidade Católica de Santa Fé e primeira medalha Cardeal Mercier instituída pelo Institut Supérieur de Philosophie da Université Catholique de Louvain, conversou El Litoral e em uma entrevista deixou plasmado seu pensamento: não é possível uma posição de diálogo com o Islã.

- Qual é a posição de Santo Tomás a respeito do Islã?
- Santo Tomás herda sua posição a respeito do Islã fundamentalmente de São João Damasceno (século VIII) e de um autor árabe cristão, Al Quindi (século IX). Dou quase por certo que Santo Tomás não leu de forma direta o Alcorão porque no século XI estava proibido fazer traduções deste. Não obstante, havia uma feita no século XI, em grego, que um filósofo bizantino, Nicetas, realizou para refutá-lo, a Reputacio Coranis, na qual examina de maneira detalhada e cuidadosa cada um dos versículos e os refuta. Mas a única língua conhecida por Santo Tomás era o latim, por isso me chama a atenção a precisão das críticas que ele faz à religião muçulmana.
- Quais são as críticas centrais?
- Os que estudam o Alcorão identificam três grandes temas em torno da crítica ao Islã: a figura de Maomé, a guerra santa e a noção do Paraíso.
Os detratores do Alcorão consideram que Maomé era um fabulador, um adúltero, uma pessoa de pouco valor. Este é o único aspecto que Santo Tomás não toma demasiado em conta. Ele não se mete com a figura de Maomé.
- Esses detratores seriam São João Damasceno e Al Quindi?
- Sim e são árabes e vivem no mundo islâmico, por isso podem ter um conhecimento mais de primeira mão de quem foi realmente Maomé.
- Poderiam ter julgado com maior lucidez por ter a mesma raiz cultural?
- Exatamente. E apesar disso Santo Tomás é muito respeitoso, cauteloso e não se quer meter em uma crítica à pessoa de Maomé porque não tem conhecimento de primeira mão, não lhe constam as coisas que se dizem dele.
- Uma posição muito científica.
- Sim, Santo Tomás era uma mente científica de primeiríssima ordem, como discípulo de Santo Alberto Magno, o iniciador da ciência medieval.
Quanto à segunda grande crítica que se faz ao Islã, sua concepção da guerra santa, ele está cheio de instigações ao combate. E mais, o Paraíso não será acessível àqueles que não tenham combatido de alguma forma ao infiel. O Alcorão é muito explícito nesse sentido: “Destruí-los-ás ainda que se ocultem em elevadas torres”, diz o versículo. E não se pode ser amigo de cristãos nem de judeus.
- Ou seja, não é uma religião de paz, como se costuma argumentar...
- Não, não. A paz é o objetivo final, mas quando todo o mundo se tenha convertido. Esse é o ponto. Nisso Santo Tomás tem uma crítica. Diz que o Islã incita ao combate e o dever dos cristãos é defender-se. Mas um cristão não pode obrigar um muçulmano a converter-se ao Cristianismo, não pode obrigá-lo a crer, porque crer é algo que depende da vontade, que é livre e intangível.
Por sua vez o Islã obriga sim a crer. E isso gerou uma série de situações, porque os djimmi, como chamam eles aos cristãos, eram os únicos obrigados a pagar impostos, com o que conseguiam que se convertessem para os não pagar, embora privadamente continuassem praticando sua religião cristã. Isso produzia uma série de descalabros econômicos nos califados que é importante destacar.
O terceiro grande conjunto de críticas se refere à noção do Paraíso que expressa o Alcorão. Trata-se de um Paraíso absolutamente carnal, tal como pode ser imaginado por um beduíno em uma longa travessia pelo deserto. O primeiro de tudo são as mulheres – descritas carnalmente – que vão ser encontradas no Paraíso, o que leva a supor serem excluídas do acesso e estarem ali só para satisfação dos guerreiros. São descritos também os prazeres gastronômicos que haverá, certo e determinado tipo de comidas, de vinho; há descrições das vestimentas, com cetins e brocados; as almofadas onde irão se sentar os bem-aventurados para manter conversas elevadas enquanto as taças de vinho são enchidas por ‘doces efebos que só de vê-los já dá água na boca’...
- Não poderiam ser representações emblemáticas?
- É uma boa pergunta, mas é difícil considerar que sejam figuras alegóricas, porque as descrições são muito detalhadas e minuciosas e se supõe que quando as figuras simbolizam outra coisa sempre se apresentam com alguns claros-escuros que dão lugar à interpretação. Mas estas são descrições mais explícitas, nas quais a interpretação não é possível. E ademais, na religião islâmica estão proibidas as interpretações, porque o Alcorão é a palavra de Deus, que não pode ser interpretada, aplica-se literalmente. Precisamente, uma das diferenças entre o Alcorão e a Bíblia é que esta, diferentemente daquele, é passível de interpretação e da análise racional.
- Parece mais o manual de um sibarita que um livro sagrado...
- Essa é a impressão que se tem ao ler essa descrição tão minuciosa e o que leva Santo Tomás a dizer que esta é uma religião própria para gente do deserto não cultivada, em um desprezo manifesto. O que me chamou a atenção é o respeito que tem Santo Tomás pelos filósofos árabes.
- Partindo desses eixos críticos, você acredita possível um diálogo com o mundo islâmico?
- Desde um ponto de vista teórico, se se consideram os valores da sociedade ocidental e mais especificamente dos EUA, eu creria que o diálogo é possível, mas não porque a religião islâmica tenha alcançado um grau de elevação superior, senão porque a cultura ocidental encarnada pelos EUA tem um grau de baixeza, de ruindade, que permitiria um acordo por debaixo da mesa com a cultura islâmica. E a outra coisa é o tema da predestinação, que é comum ao protestantismo e ao Islã.
Quanto à possibilidade de um diálogo espiritual entre o Ocidente verdadeiramente cristão e o Islã, eu creio que não é possível, já que se fundaria só sobre bases mínimas, que sempre levam ao fracasso, como essas alianças políticas que se fazem para derrotar um adversário.
- Estaríamos condenados de forma recorrente a um enfrentamento com o Islã?
- Eu creio que sim, que não podemos escapar disso e tudo que se diga ao contrário é uma ignorância dos textos corânicos, que são muito explícitos nesse sentido, não há forma de chegar a um acordo.
- Mas o mundo islâmico realmente crê a fundo no Alcorão ou é como o Ocidente, que se diz cristão mas o é só de forma?
- Isso vai ao fundo da questão. Eu creio que no mundo árabe se apresentam os mesmos problemas com a fé que os que se encontram no Ocidente. Há esse livro sagrado que prescreve de uma maneira clara e inescusável certas e determinadas coisas e que muitíssimas vezes não é levado em conta. E digo isso porque os muçulmanos que emigram estão felizes de viver segundo o modo de vida ocidental. O grande problema que têm as autoridades religiosas islâmicas que vivem em países ocidentais é como convencer os muçulmanos que levem uma vida de acordo com as prescrições corânicas.
- Em geral são comunidades que não se integram aos países onde vivem, mas que se aproveitam de todos os benefícios da cultura ocidental. Como se entende essa contradição?
- Creio que seja um problema que eles não resolveram e que nem sequer o colocaram, porque justamente uma das coisas que o Alcorão prescreve é a de não fazer demasiadas análises racionais com respeito à religião.
- É possível que o mundo islâmico gere pensadores que façam uma análise reflexiva da realidade?
- De acordo com os testemunhos da história, eu creria que não, porque justamente o que não permite a religião islâmica é o florescimento do que se poderia chamar uma teologia natural, uma filosofia que tenha a ver com a religião. E mais, há um teólogo islâmico, Al Gazel (século XI), que escreve uma obra que se chama Refutação dos Filósofos, onde lhes promete a estes o fogo eterno, quando tentaram fazer esse tipo de elucubrações sobre a natureza de Deus. A obra de Al Gazel foi, por sua vez, refutada por Averróis, cujas obras foram queimadas em fogueira pública pelo califa de Córdoba. E se Averróis houvesse vivido na Arábia ou em um país originalmente islâmico, teria sido condenado à lapidação. Mas vivia na Espanha, que era em tudo uma civilização florescente, onde se cultivava a filosofia, havia escola de tradutores, uma vida intelectual fortíssima e isso impediu de alguma forma que Averróis tivesse um final infeliz.
Por tudo isso creio que não há possibilidade de um diálogo racional, reflexivo sobre a base do Alcorão. É uma dificuldade enorme.”

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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Salústio sobre a decadência do povo romano

“Sem razão se queixa o homem de que a sua natureza, débil e pouco durável, se rege mais pelo acaso que por força própria. Que ao contrário, refletindo, acharás que nada há maior nem mais prestante; e que mais nos fala indústria, que força ou tempo. Guia e soberana do homem é a mente. Quando ela se dirige à glória pelo caminho da virtude, vigorosa, potente assaz e ilustre por si mesma, não carece da fortuna; porque esta, a probidade, a indústria, e as mais qualidades boas nem pode dar nem tirar. Mas, se cativa das paixões, se entregou à inércia e aos detalhes do corpo: se nestes perniciosos vícios um pouco se deixou inervar, depois de termos, por nossa má cabeça, perdido as forças, o tempo, o engenho, acusamos a debilidade da natureza: sempre os autores do mal tornam a sua culpa às circunstâncias.
Que, se os homens se dessem às coisas úteis com o mesmo fervor, com que se dão às que lhes são impróprias, de nenhum proveito, e até mui perigosas, regeriam mais a fortuna, que ela a eles, e subiriam a tal grandeza, que de mortais os tornaria eternos a fama. Sendo pois o homem composto d’alma e corpo, todas as suas faculdades e desejos seguem a natureza deste, ou daquela. Assim a formosura, as grandes riquezas, a força física em breve se dissipam; as sublimes produções do espírito são, como ele, imortais. Em suma, os bens do corpo e os da fortuna, como têm princípio, têm fim; quanto nasce, morre, quanto cresce, envelhece: a alma incorruptível, eterna, diretora do homem, move, domina tudo, e não é dominada.
Mais é por isso de estranhar a depravação daqueles que, dados aos prazeres do corpo, consomem a vida no luxo e moleza, e o engenho, o melhor e mais sublime dom da natureza deixam entorpecer na incultura e desleixo, quando há tantas e tão diversas ocupações de espírito pelas quais se pode obter clara fama. Entre estas, porém, as magistraturas, as comandâncias, todo o cargo público, enfim, me não parecem nesta época muito de apetecer; porque nem as honras se dão à virtude, nem os que por intriga as obtêm, vivem por isso mais seguros e benquistos. Porque o reger por força a pátria ou os súditos, posto que possas e corrijas delitos, é sempre coisa odiosa; muito mais quando se considera que todas as revoluções trazem consigo as mortes, os desterros e outras hostilidades. Ora, fazer vãos esforços e não tirar das suas fadigas senão o ódio de todos, é por certo a maior das loucuras: menos para aquele que, possuído de uma vil e perniciosa ambição, não duvida fazer presente de sua honra e liberdade ao poder de poucos.
De todos os outros exercícios de espírito, o mais útil é o de transmitir à posteridade os feitos dignos de memória. Da sua excelência, pois que já outros o fizeram, julgo não dever tratar; e também para que se não tenha por vaidade em mim louvar eu mesmo a minha ocupação. Sei que não faltará quem, por isso que assentei em me não intrometer mais em coisas públicas, a este meu tão grande e tão útil trabalho ponha o nome de inércia; mas serão certo aqueles que olham como a principal indústria o cortejar a plebe e granjear amigos com banquetes. Mas se eles considerarem em que tempos eu obtive as magistraturas, quão ilustres personagens as não puderam conseguir, e que espécie de gente entrou depois no senado, sem dúvida se convenceram de que, se mudei de propósito não foi por mandriice, mas por motivo mais digno, e de que deste meu ócio virá mais proveito à republica, do que das fadigas de outros.
Muitas vezes ouvi que Q. Máximo, P. Cipião, e outros varões preclaros da nossa república diziam que, ao ver as imagens de seus maiores, vivamente se lhes acendia o ânimo para a virtude. Certo que nem a cera, nem a figura tinham em si tal poder; mas com a memória dos grandes feitos se ateava aquela chama no peito destes egrégios varões, e se não aplacava enquanto a sua virtude lhes não adquirisse igual fama e glória. Mas ao contrário nestes corruptíssimos tempos quem é (mostrem-mo) aquele que com os seus maiores em probidade e indústria, e não em riqueza e fausto, contende? Até os homens novos, que outrora em virtude se avantajavam aos nobres, hoje de furto, e mais como ratoneiros, que por meios honestos, procuram os comandos e honras. Como se a pretura, o consulado e outros cargos tais dessem por si mesmos o lustre e esplendor, e o não recebessem da virtude de quem os exerce. Mas enquanto, envergonhado e corrido, choro os costumes da cidade, mui livre e altamente me tenho remontado.”
(Salústio, Guerra Jugurtina)

Tradução de Barreto Feio

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Henry Purcell: A Rainha das Fadas


Sinfonia (Ato IV)

William Christie
Les Arts Florissants

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Um cadáver no poder


“Por que ainda há quem siga a Teologia da Libertação? Aparentemente nenhuma pessoa razoável deveria fazer isso. Do ponto de vista teológico, a doutrina que o peruano Gustavo Gutierrez e o brasileiro Leonardo Boff espalharam pelo mundo já foi demolida em 1984 pelo então cardeal Joseph Ratzinger (v. “Liberation Theology”, 1984) dois anos depois de condenada pelo Papa João Paulo II (v. Quentin L. Quade, ed., The Pope and Revolution: John Paul II Confronts Liberation Theology. Washington, D.C., Ethics and Public Policy Center, 1982). Em 1994 o teólogo Edward Lynch afirmava que ela já tinha se reduzido a uma mera curiosidade intelectual (v. “The retreat of Liberation Theology”, The Homiletic & Pastoral Review, New York, N.Y, 1994). Em 1996 o historiador espanhol Ricardo de la Cierva, que ninguém diria mal informado, dava-a por morta e enterrada (v. La Hoz y la Cruz. Auge y Caída del Marxismo y la Teología de la Liberación, Toledo, Fénix, 1996).
Uma década e meia depois, ela é praticamente doutrina oficial em doze países da América Latina. Que foi que aconteceu? Tal é a pergunta que me faz um grupo de eminentes católicos americanos e que, com certeza, interessa também aos leitores brasileiros.
Para respondê-la é preciso analisar a questão sob três ângulos:
(1) A TL é uma doutrina católica influenciada por idéias marxistas ou é apenas um ardil comunista camuflado em linguagem católica?
(2) Como se articulam entre si a TL enquanto discurso teórico e a TL enquanto organização política militante?
(3) Respondidas essas duas perguntas pode-se então apreender a TL como fenômeno preciso e descrever a especial forma mentis dos seus teóricos por meio da análise estilística dos seus escritos.
À primeira pergunta tanto o prof. Lynch quanto o cardeal Ratzinger, bem como inumeráveis outros autores católicos (por exemplo, Hubert Lepargneur, A Teologia da Libertação. Uma Avaliação, São Paulo, Convívio, 1979, ou Sobral Pinto, Teologia da Libertação. O Materialismo Marxista na Teologia Espiritualista, Rio, Lidador, 1984), dão respostas notavelmente uniformes: partindo do princípio de que a TL se apresenta como doutrina católica, passam a examiná-la sob esse aspecto, louvando suas possíveis intenções justiceiras e humanitárias mas concluindo que, em essência, ela é incompatível com a doutrina tradicional da Igreja, e portanto herética em sentido estrito. Acrescentam a isso a denúncia de algumas contradições internas e a crítica das suas propostas sociais fundadas numa arqui desmoralizada economia marxista.
Daí partem para decretar a sua morte, assegurando, nos termos do prof. Lynch, que
Embora ainda seja atraente para muitos estudiosos americanos e europeus, ela falhou naquilo que os liberacionistas sempre disseram ser a sua missão principal, a completa renovação do catolicismo latino-americano”.
Todo discurso ideológico revolucionário pode ser compreendido em pelo menos três níveis de significado, que é preciso primeiro distinguir pela análise e depois rearticular hierarquicamente conforme algum desses níveis se revele o mais decisivo na situação política concreta, subordinando os demais.
O primeiro é o nível descritivo, no qual ele apresenta um diagnóstico, descrição ou explicação da realidade ou uma interpretação de alguma doutrina anterior. Neste nível o discurso pode ser julgado pela sua veracidade, adequação ou fidelidade, seja aos fatos, seja ao estado dos conhecimentos disponíveis, seja à doutrina considerada. Quando o discurso traz uma proposta definida de ação, pode ser julgado pela viabilidade ou conveniência dessa ação.
O segundo é o da autodefinição ideológica, em que o teórico ou doutrinador expressa os símbolos nos quais o grupo interessado se reconhece e pelo qual ele distingue os de dentro e os de fora, os amigos e os inimigos. Neste nível ele pode ser julgado pela sua eficácia psicológica ou correspondência com as expectativas e anseios da platéia.
O terceiro é o da desinformação estratégica, que fornece falsas pistas para desorientar o adversário e desviar antecipadamente qualquer tentativa de bloquear a ação proposta ou de neutralizar outros efeitos visados pelo discurso.
No primeiro nível, o discurso dirige-se idealmente ao observador neutro, cuja adesão pretende ganhar pela persuasão. No segundo, ao adepto ou militante atual ou virtual, para reforçar sua adesão ao grupo e obter dele o máximo de colaboração possível. No terceiro, dirige-se ao adversário, ou alvo da operação.
Praticamente todas as críticas de intelectuais católicos à Teologia da Libertação limitaram-se a examiná-la no primeiro nível. Desmoralizaram-na intelectualmente, provaram o seu caráter de heresia e assinalaram nela os velhos vícios que tornam inviável e destrutiva toda proposta de remodelagem socialista da sociedade.
Se os mentores da TL fossem católicos sinceramente empenhados em “renovar o catolicismo latino-americano”, ainda que por meios contaminados de ideologia marxista, isso teria bastado para desativá-la por completo. Uma vez que esse tipo de análise crítica saiu das meras discussões intelectuais para tornar-se palavra oficial da Igreja, com o estudo do Cardeal Ratzinger em 1984, a TL podia considerar-se, sob esse ângulo, extinta e superada.
Leiam agora este depoimento do general Ion Mihai Pacepa, o oficial de mais alta patente da KGB que já desertou para o Ocidente, e começarão a entender por que a desmoralização intelectual e teológica não foi suficiente para dar cabo da TL (v. “Kremlin’s religious Crusade”, em Frontpage Magazine, junho de 2009). Em 1959, como chefe da espionagem romena na Alemanha Ocidental, o general Pacepa ouviu da própria boca de Nikita Kruschev: “Usaremos Cuba como trampolim para lançar uma religião concebida pela KGB na América Latina.”
O depoimento prossegue:
Khrushchev nomeou ‘Teologia da Libertação’ a nova religião criada pela KGB. A inclinação dela para a ‘libertação’ foi herdada da KGB, que mais tarde criou a Organização para a ‘Libertação’ da Palestina (OLP), o Exército de ‘Libertação’ Nacional da Colômbia (ELN), e o Exército de ‘Libertação’ Nacional da Bolívia. A Romênia era um país latino, e Khrushchev queria nossa “visão latina” sobre sua nova guerra de “libertação” religiosa. Ele também nos queria para enviar alguns padres que eram cooptadores ou agentes disfarçados para a América Latina – queria ver como “nós” poderíamos tornar palatável para aquela parte do mundo a sua nova Teologia da Libertação.
“Naquele momento a KGB estava construindo uma nova organização religiosa internacional em Praga, chamada “Christian Peace Conference” (CPC), cujo objetivo seria espalhar a Teologia da Libertação pela América Latina.
“Em 1968, o CPC – criado pela KGB – foi capaz de dirigir um grupo de bispos esquerdistas sul-americanos na realização de uma Conferência de Bispos Latino-americanos em Medellín, na Colômbia. O propósito oficial da Conferência era superar a pobreza. O objetivo não declarado foi reconhecer um novo movimento religioso, que encorajasse o pobre a se rebelar contra a ‘violência da pobreza institucionalizada’, e recomendá-lo ao Conselho Mundial de Igrejas para aprovação oficial. A Conferência de Medellín fez as duas coisas. Também engoliu o nome de batismo dado pela KGB: ‘Teologia da Libertação.’

Ou seja, em suas linhas essenciais, a idéia da TL veio pronta de Moscou três anos antes de que o jesuíta peruano Gustavo Gutierrez, com o livro Teología de la Liberación (Lima, Centro de Estudios y Publicaciones, 1971), se apresentasse como seu inventor original, decerto com a aprovação de seus verdadeiros criadores, que não tinham o menor interesse num reconhecimento público de paternidade. O tutor da criança, Leonardo Boff, entraria em cena ainda mais tarde, não antes de 1977. Até hoje as fontes populares, como por exemplo a Wikipedia, repetem como papagaios adestrados que o Pe. Gutierrez foi mesmo o gerador da coisa e o sr. Boff seu segundo pai.
Continuarei esta análise no próximo artigo.
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Volto à análise da Teologia da Libertação.
Se a coisa e até o nome que a designa vieram prontos da KGB, isso não quer dizer que seus pais adotivos, Gutierrez, Boff e Frei Betto, não tenham tido nenhum mérito na sua disseminação pelo mundo. Ao contrário, eles desempenharam um papel crucial nas vitórias da TL e no mistério da sua longa sobrevivência.
Os três, mas principalmente os dois brasileiros, atuaram sempre e simultaneamente em dois planos. De um lado, produzindo artificiosas argumentações teológicas para uso do clero, dos intelectuais e da Curia romana. De outro lado, espalhando sermões e discursos populares e devotando-se intensamente à criação da rede de militância que se notabilizaria com o nome de “comunidades eclesiais de base” e viria a constituir a semente do Partido dos Trabalhadores. “Base” é aliás o termo técnico usado tradicionalmente nos partidos comunistas para designar a militância, distinguindo-a dos líderes. Sua adoção pela TL não foi mera coincidência. Quando os pastores se transformaram em comissários políticos, o rebanho tinha mesmo de tornar-se “base”.
No seu livro E a Igreja se Fez Povo, de 1988, Boff confessa que foi tudo um “plano ousado”, concebido segundo as linhas da estratégia da lenta e sutil “ocupação de espaços” preconizada pelo fundador do Partido Comunista Italiano, Antonio Gramsci. Tratava-se de ir preenchendo aos poucos todos os postos decisivos nos seminários e nas universidades leigas, nas ordens religiosas, na mídia católica e na hierarquia eclesiástica, sem muito alarde, até chegar a época em que a grande revolução pudesse exibir-se a céu aberto.
Logo após o conclave que o elegeu, em 1978, o papa João Paulo I teve um encontro com vinte cardeais latino-americanos e ficou muito impressionado com o fato de que a maioria deles apoiava ostensivamente a Teologia da Libertação. Informaram-lhe, na ocasião, que já havia mais de cem mil “comunidades eclesiais de base” disseminando a propaganda revolucionária na América Latina. Até então, João Paulo I conhecia a TL apenas como especulação teórica. Nem de longe imaginava que ela pudesse ter se transformado numa força política de tais dimensões.
Em 1984, quando o cardeal Ratzinger começou a desmontar os argumentos teóricos da “Teologia da Libertação”, já fazia quatro anos que as “comunidades eclesiais de base” tinham se transfigurado num partido de massas, o Partido dos Trabalhadores, cuja militância ignora maciçamente quaisquer especulações teológicas, mas jura que Jesus Cristo era socialista porque assim dizem os líderes do partido.
Dito de outro modo, a pretensa argumentação teológica já tinha cumprido o seu papel de alimentar discussões e minar a autoridade da Igreja, e fôra substituída, funcionalmente, pela pregação aberta do socialismo, onde o esforço aparentemente erudito de aproximar cristianismo e marxismo cedia o passo ao manejo de chavões baratos e jogos de palavras nos quais a militância não procurava nem encontrava uma argumentação racional, mas apenas os símbolos que expressavam e reforçavam a sua unidade grupal e o seu espírito de luta.
O sucesso deste segundo empreendimento foi proporcional ao fracasso do trio na esfera propriamente teológica. É possível que na Europa ou nos EUA um formador de opinião com pretensões de liderança não sobreviva à sua desmoralização intelectual, mas na América Latina, e especialmente no Brasil, a massa militante está a léguas de distância de qualquer preocupação intelectual e continuará dando credibilidade ao seu líder enquanto este dispuser de um suporte político-partidário suficiente.
No caso de Boff e Betto, esse suporte foi nada menos que formidável. Fracassadas as guerrilhas espalhadas em todo o continente pela OLAS, Organización Latino-Americana de Solidariedad fundada por Fidel Castro em 1966, a militância se refugiou maciçamente nas organizações da esquerda não-militar, que iam colocando em prática as idéias de Antonio Gramsci sobre a “ocupação de espaços” e a “revolução cultural”. A estratégia de Gramsci usava a infiltração maciça de agentes comunistas em todos os órgãos da sociedade civil, especialmente ensino e mídia, para disseminar propostas comunistas pontuais, isoladas, sem rótulo de comunismo, de modo a obter pouco a pouco um efeito de conjunto no qual ninguém visse nada de propaganda comunista mas no qual o Partido, ou organização equivalente, acabasse controlando mentalmente a sociedade com “o poder invisível e onipresente de um mandamento divino, de um imperativo categórico” (sic).
Nenhum instrumento se prestava melhor a esse fim do que as “comunidades eclesiais de base”, onde as propostas comunistas podiam ser vendidas com o rótulo de cristianismo. No Brasil, o crescimento avassalador dessas organizações resultou, em 1980, na fundação do Partido dos Trabalhadores, que se apresentou inicialmente como um inocente movimento sindicalista da esquerda cristã e só aos poucos foi revelando os seus vínculos profundos com o governo de Cuba e com várias organizações de guerrilheiros e narcotraficantes. O líder maior do Partido, Luís Inácio “Lula” da Silva, sempre reconheceu Boff e Betto como mentores da organização e dele próprio.
Nascido no bojo do comunismo latino-americano por intermédio das “comunidades eclesiais de base”, o Partido não demoraria a devolver o favor recebido, fundando, em 1990, uma entidade sob a denominação gramscianamente anódina de “Foro de São Paulo”, destinada a unificar as várias correntes de esquerda e a tornar-se o centro de comando estratégico do movimento comunista no continente.
Segundo depoimento do próprio Frei Betto, a decisão de criar o Foro de São Paulo foi tomada numa reunião entre ele, Lula e Fidel Castro, em Havana. Durante dezessete anos o Foro cresceu em segredo, chegando a reunir aproximadamente duzentas organizações filiadas, misturando partidos legalmente constituídos, grupos de seqüestradores como o MIR chileno e quadrilhas de narcotraficantes como as Farc, que juravam nada ter com o tráfico de drogas mas então já costumavam trocar anualmente duzentas toneladas de cocaína colombiana por armas contrabandeadas do Líbano pelo traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar.
Quando Lula foi eleito presidente do Brasil, em 2002, o Foro de São Paulo já havia se tornado a maior e mais poderosa organização política em ação no território latino-americano em qualquer época, mas sua existência era totalmente desconhecida pela população e, quando denunciada por algum investigador, cinicamente negada. O bloqueio chegou ao seu ponto mais intenso quando, em 2005, o sr. Lula, já presidente do Brasil, confessou em detalhes a existência e as atividades do Foro de São Paulo. O discurso foi publicado na página oficial da Presidência da República, mas mesmo assim a grande mídia em peso insistiu em fingir que não sabia de nada.
Por fim, em 2007, o próprio Partido dos Trabalhadores, sentindo que o manto de segredo protetivo já não era necessário, passou a alardear aos quatro ventos os feitos do Foro de São Paulo, como se fossem coisa banal e arqui-sabida. Somente aí os jornais admitiram falar do assunto.
Por que o segredo podia agora ser revelado? Porque, no Brasil, toda oposição ideológica tinha sido eliminada, restando apenas sob o nome de “política” as disputas de cargos e as acusações de corrupção vindas de dentro da própria esquerda; ao passo que, na escala continental, os partidos membros do Foro de São Paulo já dominavam doze países. As “comunidades eclesiais de base” haviam chegado ao poder. Quem, a essa altura, iria se preocupar com discussões teológicas ou com objeções etéreas feitas vinte anos antes por um cardeal que levara a sério o sentido literal dos textos e mal chegara a arranhar a superfície política do problema?
Nos doze anos em que permaneceu no poder, o PT expulsou do cenário toda oposição conservadora, partilhando o espaço político com alguns aliados mais enragés e com uma branda oposição de centro-esquerda, e governou mediante compras de consciências, assassinatos de inconvenientes e a apropriação sistemática de verbas de empresas estatais para financiar o crescimento do partido. A escalada da cleptocracia culminou no episódio da Petrobrás, onde o desvio subiu à escala dos trilhões de reais, configurando, segundo a mídia internacional, o maior caso de corrupção empresarial de todos os tempos. Essa sucessão de escândalos provocou algum malestar na própria esquerda e constantes reclamações na mídia, levando a intelligentzia petista a mobilizar-se em massa para defender o partido. Há mais de uma década os srs. Betto e Boff estão ocupados com essa atividade, na qual a teologia só entra como eventual fornecedora de figuras de linguagem para adornar a propaganda partidária. A TL havia assumido, finalmente, sua mais profunda vocação.
Quem quer que leia os escritos de Gutierrez, Boff e Betto descobre facilmente as suas múltiplas inconsistências e contradições. Elas revelam que esse material não resultou de nenhum esforço teorizante muito sério, mas do mero intuito de manter os teólogos de Roma ocupados em complexas refutações teológicas enquanto a rede militante se espalhava por toda a América Latina, atingindo sobretudo populações pobres desprovidas de qualquer interesse ou capacidade de acompanhar essas altas discussões.
Os boiadeiros chamam isso de “boi-de-piranha”: jogam um boi no rio para que os peixes carnívoros fiquem ocupados em devorá-lo, enquanto uns metros mais adiante a boiada atravessa as águas em segurança.
Intelectualmente e teologicamente, a TL está morta há três décadas. Mas ela nunca foi um movimento intelectual e teológico. Foi e é um movimento político adornado por pretextos teológicos artificiosos e de uma leviandade sem par, lançados nas águas de Roma a título de “boi de piranha”. A boiada passou, dominou o território e não existem piranhas de terra firme que possam ameaçá-la.
Sim, a TL está morta, mas o seu cadáver, elevado ao posto mais alto da hierarquia de comando, pesa sobre todo um continente, oprimindo-o, sufocando-o e travando todos os seus movimentos. A América Latina é hoje governada por um defunto.”
(Olavo de Carvalho, Um Cadáver no Poder)

http://www.olavodecarvalho.org

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sándor Weöres: Lengalenga

A andorinha enche, num dia
de abril, todos de alegria;
irradia-
-se a alegria,
só meu mal não se alivia.

Eis que a mesa delicia,
quando é posta, a maioria;
delicia a
maioria,
mas a mim me distancia.

Toda flor que antes morria,
em abril se abre à porfia;
contraria-
-me a porfia:
com emplastro a emplastraria.

Ver que há tanta vilania
ao redor já me angustia;
vilania
que angustia:
vou treinar a pontaria.

Que parede mais vazia!
E outras tantas! A elegia
se anuncia:
elegi-a
para expor minha agonia.


Tradução de Nelson Ascher