quinta-feira, 27 de abril de 2017

Origens judaicas da maçonaria


“Estudando a história da maçonaria, não se pode considerar os Templários e os Rosacruzes como seus únicos fundadores. Existe um livro interessantíssimo, publicado em 1787, que se intitula “Precioso resumo da Maçonaria Adoniramita que contém os catecismos dos quatro primeiros graus”, no qual se diz que “os primeiros maçons foram os sacerdotes egípcios, sobretudo os de Mênfis e Heliópolis. Conheciam as ciências físicas, a astronomia e a verdadeira religião, que é a religião natural. Junto deles vieram instruir-se Orfeu, Tales, Sólon, Pitágoras, Licurgo e Moisés. Os ensinamentos dos Magos se conservaram no povo judeu até o templo de Salomão. Depois da destruição do templo de Jerusalém, o paganismo se apoderou dos segredos e das cerimônias maçônicas, mas alterou seu espírito. Felizmente a verdadeira maçonaria reapareceu com o cristianismo e, desprendendo-se aos poucos das formas da nova religião, tornou-se um cristianismo purificado. O objetivo que perseguem os maçons é a reconstrução do Templo de Jerusalém, reconstrução que simboliza sua obra moral.”
Por outra parte, diz o historiador maçônico H. Bazot que “tendo sido destruída Jerusalém, vítima das revoluções, e tendo-se dispersado o povo judeu, esta mesma maçonaria se estendeu com ele por toda a terra.”
Os ritos e símbolos da maçonaria e das outras sociedades secretas recordam constantemente a Cabala e o judaísmo: a reconstrução do Templo de Salomão, a estrela do rei Davi, o selo de Salomão, os nomes dos diferentes graus, como, por exemplo, cavaleiro Kadosh, príncipe de Jerusalém, príncipe do Líbano, cavaleiro da serpente de Airain, etc. E a oração dos maçons ingleses, adaptada em uma reunião celebrada em 1663, não faz lembrar de uma maneira evidente o judaísmo?
Finalmente, a maçonaria escocesa se servia da era judia; por exemplo, um livro do maçom americano Pike, escrito em 1881, está datado no “anno mundi 5641”. Atualmente não se conserva esta cronologia senão nos altos graus, ao passo que os maçons acrescentam geralmente quatro mil anos à era cristã e não 3760 como os judeus.”
(Maurice Fara, La Masoneria en Descubierto)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

As podridões de Simone de Beauvoir

“Conforme os setores não feministas da sociedade vão se tornando cada vez mais expressivos e claros, os setores ainda não conscientes da natureza venenosa dessa ideologia reagem com um conjunto de argumentos que apenas revelam que a realidade fatual não é ainda inteiramente conhecida pelo público.
Algum tempo atrás, um grupo de feministas de cafeteria tentava me convencer que o feminismo não é tão mau quanto eu digo que é e que se eu apenas lesse mais sobre feminismo, eu eventualmente entenderia. Como um exemplo para apoiar essa tese, as citadas feministas me recomendaram que lesse os escritos de Simone de Beauvoir, a Marxista-feminista conhecida por seu livro O Segundo Sexo. Naturalmente aquelas feministas foram incapazes de conceber que alguém tivesse levado sua ideologia a sério o suficiente para ler sua literatura e então, racionalmente, acabar por rejeitá-la. Como para qualquer outro culto, tal coisa é inconcebível para os verdadeiros crentes da seita.
No cabeçalho desta postagem, uma série de alegações foi feita sobre a eminente feminista e é justo que se apresentem provas – o que é exatamente o que será feito nas linhas a seguir.
Entre 1943 e 1944, quando a França estava sob ocupação nazista, Simone de Beauvoir trabalhou como diretora de sonografia para a Rádio Vichy. Radio Vichy era a estação de rádio estatal na assim chamada zone libre (zona livre) da França, após a capitulação da República Francesa diante da Alemanha nazista em 1940. Dizemos “assim chamada” porque o regime de Vichy, embora teoricamente neutro do ponto de vista militar, era de fato um colaborador ativo do regime nazista e hoje é fato reconhecido por todos os lados envolvidos que a Rádio Vichy era porta-voz de fato da propaganda nazista nas ondas de rádio francesas.
Defensores de Beauvoir podem dizer que ela foi obrigada pelas circunstâncias a trabalhar lá, assim como muitos indivíduos agora alegam ter sido forçados a colaborar com a “Securitate” durante o regime comunista. Mas os manuscritos de Beauvoir durante o período, revelados posteriormente, contam uma história diferente.
Mesmo autores feministas, como a Dra. Ingrid Galster, que dedicou anos de sua vida a estudar Simone de Beauvoir, têm que admitir, mesmo a contragosto, que a atitude manifesta por Beauvoir como diretora de sonografia na máquina de propaganda nazista era, no mínimo, de colaboracionismo sutil e a forma pela qual ela chegou àquele trabalho não foi via coerção – mas sim por uma escolha perfeitamente consciente. Beauvoir já era membro do sindicato de funcionários públicos e poderia ter optado por trabalhar numa prefeitura, por exemplo. Mas ela tinha que escolher trabalhar em algo que não fosse ensinar, pois sua carreira como professora estava encerrada – apesar de já ter as qualificações e o prestígio necessário para ensinar, dado que ela tinha tido o segundo melhor desempenho como estudante de doutorado em sua geração, ficando apenas atrás de seu amante de toda a vida, Jean-Paul Sartre.
A razão pela qual ela não podia mais lecionar está relacionada exatamente à pedofilia e a Sartre. Em 1943, Simone de Beauvoir foi demitida por comportamento que levara a corrupção de menor.
Novamente, os apologistas de Beauvoir poderão apressar-se em dizer que o momento em 1943 foi um incidente singular ou, como já me disseram, um incidente simplesmente inventado pelos nazistas que não podiam suportá-la após entenderam que ela uma mulher marxista independente e empoderada. Mas isso está longe da verdade.
O interesse sexual de Beauvoir por crianças é um tema recorrente em toda sua vida. Ela estava entre os primeiros filósofos que tentaram unificar o gênero literário que se iniciou nos anos 1930 (e durou até os anos 1980 na Europa Ocidental) chamado pedofilia pedagógica feminina. Ela tentou essa unificação com seu ensaio “Brigitte Bardot e a Síndrome de Lolita”, publicada pela primeira vez na revista Esquire em 1959 e republicada várias vezes até meados dos anos 1970. Nesse ensaio, Beauvoir glorifica Brigitte Bardot por seu aspecto físico infantil, que retém a perfeita inocência inerente no mito da infância e então a apresenta como uma Houdini para meninas, que as liberaria e empoderaria para além das correntes que as subjugavam.
O ensaio de 1959 foi só o começo. Em 1977, Beauvoir, juntamente com a maior parte da intelligentsia marxista francesa, assinou uma petição exigindo nada mais, nada menos que a legalização da pedofilia e a libertação imediata de três indivíduos condenados a cumprir longas sentenças de prisão por explorar sexualmente vários meninos e meninas com idades entre 11 e 14 anos. A petição assinada por Beauvoir e Sartre, entre outros, foi publicada no Le Monde e dizia, entre outras coisas:
Um tempo tão longo de prisão para investigar um simples caso “vicioso” em que as crianças não foram vítimas de qualquer violência, mas ao contrário, testemunharam perante os magistrados que consentiram – embora a lei atualmente negue-lhes o direito de consentir – um tempo tão longo na prisão nós consideramos escandaloso em si. Hoje eles estão em risco de ser sentenciados a uma longa pena de prisão, por terem tido relações sexuais com menores, tanto meninos quanto meninas, ou por terem encorajado e tirado fotografias de suas brincadeiras sexuais. Nós acreditamos que há uma incongruência entre a designação como “crime”, que serve para legitimar tal severidade, e os fatos próprios; mais ainda entre a lei antiquada e a realidade cotidiana em uma sociedade que tende a conhecer sobre a sexualidade de crianças e adolescentes […].
Assim, na opinião de Beauvoir, crianças de 11 anos na França do final dos anos 1970 tendiam a ser seres sexuais. Desde que a puberdade não acontecia e até hoje ainda não ocorre naquela idade para a grande maioria das crianças, é condizente nomear a defesa feita por Beauvoir como nada além de uma advocacia da pedofilia, a despeito da definição escolhida para a palavra.
A petição de 1977 deflagrou toda uma discussão em nível da sociedade na França sobre as leis relativas à idade do consentimento, uma discussão em que os abolicionistas (entre os quais Beauvoir e seu amante) se uniram no Front de Libération des Pédophiles (FLIP – a Frente de Liberação dos Pedófilos) e as intenções dos membros da FLIP eram explicadas claramente por eles próprios na discussão transmitida em abril de 1978 pela Radio France Culture. A FLIP seria lembrada como uma pioneira no movimento dos pedófilos franceses, embora a organização em si não tenha durado muito devido a suas discordâncias internas.
Além de Beauvoir e Sartre, houve outras pessoas envolvidas na advocacia da pedofilia naquele período, inclusive pessoas que então acabaram por liderar os destinos da França – a exemplo de Bernard Kouchner e Jack Lang, respectivamente o Ministro da Saúde e o Ministro da Educação (!) no início dos anos 2000, no primeiro mandato de Jacques Chirac.
Tudo isso torna Beauvoir não apenas uma apologista da pedofilia, mas uma apoiadora atuante. Porém, o que faz dela uma abusadora é sua atividade de recrutar alunas, abusando-as e passando-as para Jean-Paul Sartre, às vezes separadamente, às vezes em ménage à trois integrado. O Telegraph escreve, numa crítica do livro de Carole Seymour-Jones, Simone de Beauvoir? Meet Jean-Paul Sartre (“Simone de Beauvoir? Conheça Jean-Paul Sartre”), um livro dedicado a analisar o relacionamento de Beauvoir com Sartre, o seguinte:
Por longos períodos, o casal se tornou um “trio”, embora os arranjos raramente funcionassem bem para a terceira parte envolvida: ao menos duas das ex-alunas de Beauvoir se viram a tornar-se primeiro suas amantes, então de Sartre, apenas para o casal fechar-lhes as portas, quando a diversão perdia a graça.[…]
Para Seymour-Jones, os casos de Beauvoir com suas estudantes não eram lésbicos, mas pedófilos em origem: ela as estava “preparando” para Sartre, na forma de “abuso infantil”
.
Para Beauvoir (assim como para Sartre), a idade não importava, contanto que as parceiras fossem mais jovens do que ela e Sartre. A possibilidade de que as outras pudessem se ferir ou ser exploradas não passava nem remotamente pelo radar da eminente feminista, que pensava que “preparar” garotas para Sartre lhes tirar a virgindade (palavras de Sartre, não minhas) era em si e por si um ato de empoderamento sexual para aquelas meninas.
Mas se as escapadas com sabor de nazismo e pedofilia não convencem você do caráter questionável de Beauvoir, vamos dar uma olhada em seus escritos feministas, que estão tão repletos de misoginia que é difícil encontrar equivalente em outros setores da sociedade. Este aspecto por si não é surpreendente, visto que feminismo é em si uma ideologia misógina. Mas, não vamos tergiversar.
O livro de cabeceira de Beauvoir, O Segundo Sexo, considerado por feministas contemporâneas “notavelmente atual” – tinha o seguinte a dizer sobre mulheres casadas:
A esposa se alimenta dele como um parasita; mas um parasita não é um mestre triunfante.
Mais de um quarto de século depois, em 1975, em um diálogo com outra feminista, Betty Friedan, Beauvoir esclareceria sua posição além de qualquer dúvida razoável. Em uma discussão sobre a forma de compensar as mães que ficam em casa e cuidam de crianças, Beauvoir respondeu de forma inequívoca:
Não, nós não cremos que qualquer mulher deva ter essa escolha. Nenhuma mulher deveria ser autorizada a ficar em casa para criar crianças. A Sociedade deveria ser totalmente diferente. As mulheres não deveriam ter essa escolha, exatamente porque se houver tal opção, mulheres demais irão fazê-la. É uma forma de forçar as mulheres em uma certa direção.
Está claro? Na visão da eminente feminista, as mulheres são um monte de criaturas inertes, incapazes de escolher o que é bom para elas como adultos responsáveis. De fato, ninguém além de Simone de Beauvoir e sua ideologia marxista-feminista sabe o que é melhor para as mulheres. Portanto, nenhuma mulher deveria ser autorizada a escolher qualquer coisa que contrarie Beauvoir.
No mesmo diálogo, ela é ainda mais clara:
Em minha opinião, enquanto a família e o mito da família e o mito da maternidade e o instinto maternal não forem destruídos, as mulheres continuarão a ser oprimidas.
Realmente o ódio de Beauvoir em relação à maternidade e às mães em geral é muito óbvio ao longo de todo o seu livro. Vejamos alguns exemplos:
A maternidade relega a mulher a uma existência sedentária; é natural para ela ficar em casa enquanto os homens caçam, pescam e vão à guerra.
[A mãe] é planta e animal, uma coleção de colóides, uma incubadora, um ovo; ela assusta as crianças que estão envolvidas com seus próprios corpos e provoca risos disfarçados de homens jovens, porque ela é um ser humano, consciência e liberdade, que se tornou um instrumento passivo da vida
.
E quando essa importante feminista começou a atacar os corpos das mulheres, ninguém a pôde parar:
A atitude física evocada pela servidão menstrual constitui um pesado aleijamento.
[…] o corpo de uma mulher – e especificamente uma menina – é um corpo “histérico” no sentido de que não há, por assim dizer, distância alguma entre a vida física e sua realização fisiológica. O turbilhão trazido pela descoberta, pela menina, dos problemas da puberdade, as exacerba. Porque seu corpo é suspeito para ela, ela o escrutina com ansiedade e o vê como doente: ele é doente.
As glândulas mamárias que se desenvolvem na puberdade não têm papel na economia individual da mulher: elas podem ser removidas a qualquer momento em sua vida
.
Beauvoir então passa a explicar em seu livro como é maligna e opressiva a família para o desenvolvimento de uma menina. Se o pai tem a audácia de ter orgulho e reconhecimento pelos sucessos de sua filha, isso é outra evidência da opressão e imposição de vassalagem para a filha em relação ao pai. Mas se os pais são relativamente poupados, as mães que ousam disciplinar suas filhas têm uma reprovação pior ainda da renomada feminista:
As mães – veremos – são cegamente hostis ao liberar suas filhas e, mais ou menos deliberadamente, atuam em persegui-las ainda mais; para o menino adolescente, o esforço para se tornar um homem é respeitado e ele já recebe grande liberdade. A menina é obrigada a ficar em casa; suas atividades externas são monitoradas.
Então, está claro? O fato de que alguns pais e mães não deixavam suas filhas saírem após certos horários na França ocupada por nazistas no meio da Segunda Guerra Mundial constitui opressão. E tenha em mente que Beauvoir minimiza este aspecto – sobre o qual ficam sérias dúvidas de que era generalizado – enquanto meninos de 13 e 14 anos estavam lutando na guerra, inclusive para mantê-la a salvo para poder escrever sua infame “filosofia” e produzir propaganda para o regime nazista – um regime que também mantinha meninos de 14 e 15 anos de idade em suas tropas. Fico quase tentado a dizer que ela deveria ter reconhecido seus privilégios. Mas não vou dizer.
A hipocrisia dessa mulher é fascinante em termos de estudo e revoltante ao mesmo tempo. Simone de Beauvoir, venerada até hoje como um grande ícone do “bom” feminismo dos anos 1960 e estudada nos “diálogos feministas” da Escola Nacional de Ciência Política e Administração Pública de Bucareste, defendeu com grande fervor o regime revolucionário de Ioseb Dzhugashvili (também chamado de Iosif Vissarionovich Stalin) até muito tempo após os horrores do Stalinismo terem se tornado conhecidos na Europa Ocidental.
Em outras palavras, enquanto tantos romenos deixados na URSS estavam sendo deportados para os Gulags, enquanto a elite intelectual do meu país estava sendo dizimada em campos de concentração como Râmnicu Sărat, Pitești ou Aiud e enquanto até mesmo meninos de 12 anos eram torturados em prisões comunistas por conspiração contra a ordem socialista, Simone de Beauvoir publicava O Segundo Sexo em que ela explicava como a liberação das mulheres estava intimamente relacionada ao destino do socialismo – ao mesmo tempo negando veementemente, juntamente com seu parceiro, as atrocidades stalinistas que ocorriam naquele mesmo momento. E nós, pagadores de impostos romenos, agora pagamos para estudantes irem àquela Escola de Ciência Política e Administração Pública e estudar essa pessoa desprezível, como se ela fosse alguém a se admirar. Bom, esse é um exemplo real de misoginia patrocinada pelo Estado! Mas eu tenho a impressão de que a elite feminista sente-se muito confortável com isso.
Prezadas feministas de cafeteria, se vocês nos recomendam ler Simone de Beauvoir como um exemplo de feminista “do bem”, então vocês ou não a leram e a estão mencionando apenas para parecer cultas, ou, ao contrário, vocês a leram e concordam com o que ela defendeu e nesse caso, qualquer ser humano normal e não feminista teria que ser, no mínimo do mínimo, insano, para acreditar que vocês têm as melhores intenções em mente.
A ousadia com que Beauvoir propõe nada menos que a proibição sumária de certas escolhas para mulheres por essas escolhas não caberem em sua linha ideológica é o exemplo absoluto de utopia doentia para quem água quente é um conceito novo e para quem o planeta gira em torno dela. E se não girar assim, então há um problema com o planeta e ele deve ser proibido. A verdade deve ser proibida se ela for “incorreta”.
Se essas feministas fossem realmente sinceras quando dizem que querem combater a misoginia e ampliar o espectro de escolhas para as mulheres, então começariam por jogar na lata de lixo da História todo o arsenal ideológico vindo de Simone de Beauvoir. Mas, não fazem isso e nunca farão, porque feminismo é hipócrita em seus melhores dias e totalitário por natureza e prática em seus dias comuns. E nos seus piores dias, o feminismo exige o extermínio dos homens.
Prezadas feministas, sua declaração pública de admiração por Simone de Beauvoir diz muito mais sobre vocês mesmas do que qualquer coisa que qualquer um pudesse jamais dizer. Vocês mais uma vez provam que os melhores argumentos antifeministas vêm diretamente das próprias feministas. E por isso, nós lhes estendemos nossos agradecimentos!”
(Lucian Vâlsan: Simone de Beauvoir: Nazista, Pedófila, Misândrica e Misógina)

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Antigas e novas blasfêmias

“A blasfêmia é tão antiga quanto a religião; na verdade, tão antiga quanto a criação. A serpente do Paraíso é o primeiro blasfemador da história – e obteve êxito. Na segunda criação do homem, a ofensa a Deus também estava presente. Além de ter sido acusado de blasfemar pelas autoridades religiosas de sua época, Jesus Cristo foi vítima de blasfêmias no momento em que estava pregado à cruz, sofrendo dores lancinantes: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!” (Mt. 27; 42) Por isso, não me escandalizo com as blasfêmias contemporâneas. Só sinto uma profunda pena, uma invencível vontade de rezar pelos blasfemadores. Acham-se ousados, não sabem como são típicos. Um dia terão consciência do erro que cometeram.
A mais antiga imagem pictórica do cristianismo é um ato de blasfêmia. Trata-se do grafite de Alexamenos, encontrado durante escavações no Monte Palatino, em Roma, no ano de 1875. Calcula-se que o grafite seja do século III da era cristã. O desenho em gesso mostra a crucificação de um burro, tendo a seus pés um fiel em atitude de adoração. A legenda, em grego, diz: “Alexamenos adora seu deus”. Imagine-se que Alexamenos seja um cristão dos primeiros tempos, ridicularizado por seus colegas.
Nos tempos modernos, um dos maiores alvos dos blasfemadores é a família. Os novos colegas de Alexamenos fazem isso porque sabem que o núcleo familiar sempre foi a maior força de resistência contra as arbitrariedades do Estado e da ideologia. Marx, Trotski, Stalin, Mao e Fidel estavam conscientes dessa força. Tanto é que fizeram tudo para destruir as famílias de seus contemporâneos – e acabaram destruindo as suas próprias.
Um dos truques da blasfêmia moderna é esconder-se sob as palavras. Os ideólogos querem agora promover a sexualização das crianças disfarçada com o nome “ideologia de gênero”. De minha parte, acho um milhão de vezes pior a blasfêmia que pode atingir nossos filhos na escola do que aquela feita meramente para atrair manchetes na mídia. A serpente que se esconde é mais perigosa do que a serpente que se mostra. Vigiai e orai!”
(Paulo Briguet, Blasfêmia)

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

O Brasil que o PT criou


"Volto a explicar, agora ponto por ponto, a catástrofe estratégica monstruosa com que o PT destruiu a si mesmo e à nação.
1. No incipiente capitalismo brasileiro, as grandes empresas são quase sempre sócias do Estado, o único cliente que pode remunerá-las à altura dos serviços que prestam.
2. Por isso elas acabam se incorporando ao “estamento burocrático” de que falava Raymundo Faoro: o círculo dos “donos do poder”, que fazem da burocracia estatal o instrumento dócil dos seus interesses grupais em vez da máquina administrativa impessoal e científica que ela é nas democracias normais.
3. Nesse sentido, o sistema econômico brasileiro não é capitalista nem socialista, mas sim patrimonialista, como destacaram, além do próprio Faoro, vários estudiosos de orientação liberal, entre os quais Ricardo Velez Rodriguez, Antonio Paim e o embaixador J. O. de Meira Penna.
4. Nos anos 70 do século passado os intelectuais de esquerda que sonhavam em formar um grande partido de massas tomaram conhecimento do livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder. Formação do Patronato Político Brasileiro, então lançado em aumentadíssima segunda edição, e entenderam que o curso normal da revolução brasileira não deveria ser propriamente anticapitalista, mas antipatrimonialista: o ponto focal do combate já não seria propriamente “o capitalismo”, e sim – com nomes variados -- o “estamento burocrático”.
5. A definição do alvo era corretíssima, mas, ao mesmo tempo, o partido, como aliás toda a esquerda nacional, estava intoxicado de gramscismo e ansioso por tomar o poder por meio dos métodos do fundador do Partido Comunista Italiano, que preconizavam a infiltração generalizada e a “ocupação de espaços” destinadas a criar a “hegemonia”, isto é o controle do imaginário popular, da cultura, de modo a fazer do partido “o poder onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.
6. A aplicação do esquema gramscista obteve mais sucesso no Brasil do que em qualquer outro país do mundo. Por volta dos anos 80 o modo comunopetista de pensar já havia se tornado tão habitual e quase natural entre as classes falantes no país, que os liberais e conservadores, inimigos potenciais dessa corrente, abdicaram de todo discurso próprio e, para se fazer entender, tinham de falar na linguagem do adversário, reforçando-lhe a hegemonia ideológica mesmo quando obtinham sobre ele alguma modesta vitória eleitoral em troca. Entre os anos 90 e a década seguinte, toda política “de direita” havia desaparecido do cenário público, deixando o campo livre para a concorrência exclusiva entre frações da esquerda, separadas pela disputa de cargos apenas, sem nenhuma divergência séria no terreno ideológico ou mesmo estratégico.
7. O sucesso da operação produziu sem grandes dificuldades a vitória eleitoral de Lula numa eleição presidencial na qual, como ele próprio reconheceu, todos os candidatos eram de esquerda, o que canalizava os votos quase espontaneamente na direção daquele que personificasse o esquerdismo da maneira mais consagrada e mais típica.
8. Com Lula na Presidência, intensificou-se formidavelmente a “ocupação de espaços”, fortalecendo a hegemonia ao ponto de levar ao completo aparelhamento da máquina estatal pelo comando comunopetista, que ao mesmo tempo precisava da ajuda das grandes empresas para cumprir o compromisso assumido no Foro de São Paulo, coordenação estratégica da política comunista no continente, no sentido de amparar e salvar do naufrágio os regimes e movimentos comunistas moribundos espalhados por toda parte.
9. Inevitavelmente, assim, o próprio partido governante se transformou no “estamento burocrático” que ele havia jurado destruir. E, imbuído da fé cega nos altos propósitos que alegava, atribuiu-se em nome deles o direito de trapacear e roubar em escala incomparavelmente maior que a de todos os seus antecessores, sem admitir acima de si nenhuma autoridade moral à qual devesse prestar satisfações. O próprio sr. Lula expressou esse sentimento com candura admirável, afirmando-se o mais insuperavelmente honesto dos brasileiros, ao qual ninguém teria o direito de julgar – e isso no momento em que seu partido, abalado por uma tremenda sucessão de escândalos, já era conhecido no país todo como o partido-ladrão por excelência.
10. Assim, não apenas o PT fortaleceu o patrimonialismo, como frisou o cientista político Ricardo Velez Rodriguez, mas se transformou ele próprio na encarnação mais pura e aparentemente mais indestrutível do poder patrimonialista, soldando numa liga indissolúvel a ilimitada pretensão esquerdista ao monopólio da autoridade moral, os anseios do movimento comunista continental, os interesses de grandes grupos industriais e bancários, o aparato cultural amestrado (mídia, show business, universidades) e, last not least, o instinto de sobrevivência da classe política praticamente inteira.
11. Tal foi o resultado da síntese macabra que denominei faoro-gramscismo -- a tentativa de realizar por meio da estratégia de Antonio Gramsci a revolução antipatrimonialista preconizada por Raymundo Faoro: na medida em que, ao mesmo tempo, instigava o ódio popular ao “estamento burocrático” e, por meio da “ocupação de espaços”, se transfigurava ele próprio no inimigo odiado, personificando-o com traços repugnantes aumentados até o nível do absurdo e do inimaginável, o PT acabou por atrair contra si próprio, em escala ampliada, a hostilidade justa e compreensível da população aos “donos do poder”, aos príncipes coroados do Estado cleptocrático.
12. Ao longo do processo, a “ocupação de espaços” reduziu o sistema de ensino e o conjunto das instituições de cultura a instrumentos para a formação da militância e a repressão ao livre debate de idéias, destruindo implacavelmente a alta cultura no país e, na mesma medida, estupidificando a opinião pública para desarmar sua capacidade crítica. Ao mesmo tempo, no desejo de agradar a vários “movimentos de minorias” enxertados no Brasil por organismos internacionais, o governo petista fez tudo o que podia para desmantelar o sistema dos valores mais caros à maioria da população, contribuindo para espalhar a confusão moral, a anomia e a criminalidade, esta última particularmente favorecida por legislações que não se inspiravam propriamente em Antonio Gramsci, mas numa fonte mais remota do pensamento esquerdista, a apologia do Lumpenproletariat como classe revolucionária, muito em voga nos anos 60 do século XX.
O Brasil que o PT criou é feio, miserável, repugnante, tormentoso e absolutamente insustentável. Cumprida a sua missão histórica de encarnar, personificar e amplificar o mal que denunciava, o único partido da História que fomentou uma revolução contra si mesmo tem a obrigação de ser coerente e desaparecer do cenário o mais breve possível.
Por isso a mensagem que o povo lhe envia nas ruas, nos panelaços, nas vaias e nas sondagens de opinião é hoje a mesma que, em circunstâncias muito menos deprimentes e muito menos alarmantes, surpreendeu o desastrado e atônito presidente João Goulart em 1964:
-- Basta! Fora!"
(Olavo de Carvalho, Basta! Fora!)

http://olavodecarvalho.org

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Santo Afonso de Ligório: Ladainha da Paixão do Senhor

"Dulcíssimo Jesus, no Horto das Oliveiras triste até a morte, profundamente angustiado, oprimido de agonia, coberto de suor de Sangue,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, pelo ósculo traidor entregue às mãos dos Vossos inimigos, maltratado, atado e preso com cordas, abandonado pelos discípulos,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, pelo injusto Conselho dos judeus julgado réu de morte, entregue a Pilatos, desprezado e escarnecido pelo ímpio Herodes,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, despido, preso a uma coluna e açoitado cruelmente,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, coroado de penetrantes espinhos, ferido na sagrada Cabeça com uma cana, vestido, por escárnio, de um manto de púrpura, saciado de opróbrios,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, mais odiado que um ladrão e assassino, reprovado pelos judeus, condenado à morte da Cruz,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, carregado com a pesada Cruz, caído em terra, levado ao Calvário como o Cordeiro ao matadouro,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, Homem das dores, despojado de Vossas pobres vestiduras, contado entre os criminosos, imolado em sacrifício pelos nossos pecados,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, cravado cruelmente na Cruz, ferido dolorosamente por causa das nossas iniqüidades, quebrantado por causa das nossas culpas,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, escarnecido ainda na Cruz, atormentado e oprimido de dores indizíveis, consumido de sede, abandonado na mais dolorosa agonia pelo próprio Pai Celestial,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, morto na Cruz, traspassado por uma lança à vista de Vossa dolorosa Mãe,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, descido da Cruz, depositado nos braços de Vossa Santíssima Mãe e banhado em Suas lágrimas,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Dulcíssimo Jesus, ungido e embalsamado pelos discípulos amantes com preciosos aromas, envolvido em lençóis limpos e depositado no santo sepulcro,
Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
V: Ele verdadeiramente tomou sobre Si as nossas iniqüidades.
R: E as nossas dores Ele as suportou.
Oração:
Ó Jesus, Filho Unigênito de Deus e da Virgem Imaculada, que pela salvação do mundo quisestes ser reprovado pelos judeus, atado com cordas, conduzido ao matadouro como um cordeiro, apresentado injustamente aos juízes Anás, Caifas, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, ferido com pancadas, saciado de opróbrios e injúrias, cuspido no Rosto, açoitado barbaramente, coroado de espinhos, condenado à morte, despojado dos vestidos, pregado com toda a crueldade na Cruz, suspenso entre dois ladrões, vexado com fel e vinagre, abandonado em tormentosa agonia e, finalmente, traspassado por uma lança: por estes tormentos, Senhor, dos quais nós, indignos filhos Vossos, agora com devoção, gratidão e amor nos lembramos, e pela Vossa Santíssima Morte na Cruz, livrai-nos das penas do inferno, e dignai-Vos conduzir-nos ao Paraíso, aonde levastes convosco o Bom Ladrão. Tende piedade de nós, ó Jesus, que com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém."

terça-feira, 11 de abril de 2017

Em entrevista reveladora, Francisco expõe mais uma vez suas idéias modernistas


Contra a tradicional definição da Igreja
A jornalista Stefania Falasca publicou uma entrevista com o papa Francisco no jornal Avenire de 18 de novembro de 2016 (pp. 1-3 e 5). Francisco afirma: "A Igreja [...] não é um caminho de idéias" (p. 2). Ele reafirma este conceito na página 5 de sua entrevista: "a Igreja não é uma instituição, é um caminho, certos modos de opor 'coisas da doutrina' a 'coisas da caridade pastoral' não são segundo o Evangelho e criam confusão". Bento XVI, em 2005, havia dito que "a Igreja não é um pacote de idéias, mas um encontro com uma pessoa: Cristo".
Segundo o sentido comum e a reta razão, não se compreende o que têm em comum o "caminho", que indica movimento, ou o devir, com as "idéias", que indicam o ser enquanto verdadeiro. Ora, sem a Fé não se faz parte da Alma nem sequer do Corpo da Igreja, mas para ter a Fé é necessária a adesão ao Credo, que é uma compilação ou um "pacote" de 12 artigos ou verdades de Fé reveladas por Deus e propostas para ser cridas pela Igreja como necessárias para a salvação eterna. Portanto, a Igreja não é um caminho, nem um encontro com uma pessoa, mas é "uma Sociedade sobrenatural fundada por Cristo, da qual fazem parte todos os batizados, que têm a mesma Fé, a mesma Lei, participam dos mesmos Sacramentos e estão submetidos aos Pastores legítimos e especialmente ao Pontífice Romano" (São Roberto Belarmino, De Ecclesia, III, 1).
Em continuidade com o Vaticano II
Deve-se advertir que Bergoglio afirma não haver inovado nada em relação ao curso inaugurado por João XXIII com a abertura do Concílio Vaticano II, mas que, ao pontificar 60 anos depois daquele evento, não deve dirigir ex natura rerum, segundo as leis da física natural: "motus in fine velocior" – a queda de um peso no vazio aumenta mais de velocidade quanto mais se aproxima de seu fim. Por isso, o movimento modernista, iniciado oficialmente pelo papa João XXIII em 1958 com a abertura do Vaticano II, não podia ser inicialmente, ex natura rerum, tão veloz e radical como é hoje em 2016, após 58 anos de movimento uniformemente acelerado. As palavras de Francisco soam exatamente assim: "Este Ano [2015/2016, ndr] sobre a Misericórdia é um processo amadurecido no tempo, desde o Concílio... o caminho vem de longe, com os passos de meus predecessores [ou seja, os Papas do Vaticano II, ndr]. Eu não tenho dado nenhuma aceleração. À medida que vamos adiante, o caminho parece ir mais veloz, é o motus in fine velocior" (p. 2). A referência de Bergoglio a João XXIII para fundar seu vamos que vamos apenas com a Misericórdia de Deus sem Justiça é explícita. Com efeito, disse: "Antes de mim esteve João XXIII, que, com a Gaudet mater Ecclesia, na abertura do Concílio, indicou o caminho a seguir somente na medicina da Misericórdia" (p. 2) e "não da severidade e do castigo".
Um Papa que confessa atuar "às cegas"
Em outra resposta ressalta o descuido do papa Bergoglio com a doutrina e os dogmas. Com efeito, Francisco afirma: "Eu não tenho traçado um plano [para a realização do Jubileu, enquanto que normalmente primeiro se pensa e depois se atua, ndr]. As coisas têm vindo por si mesmas [espontaneamente, sem reflexão, ndr]" (p. 2). Isto se chama "atuar às cegas" e sem reflexão racional. Também na vida espiritual, para obter o auxílio pleno e habitual do Espírito Santo (vida mística), é necessário antes levar uma larga e séria vida ascética; de outro modo se cai na pseudomística, no quietismo, no falso misticismo ou no carismaticismo, constantemente condenados pela Igreja, já com o papa Inocêncio XI na Bula Coelestis Pastor de 1687, que reprova a falsa mística quietista de Molinos (DB, 1221, ss.) e, em 1699, pelo papa Inocêncio XII, que condena o quietismo mitigado de Fénelon (DB, 1327-1349 ss.).
Para Francisco, o direito canônico = legalismo e a teologia = ideologia
No que se refere à Igreja, Bergoglio retoma o ensinamento semiconciliarista da Colegialidade episcopal de Lumen gentium, e o contrapõe "a um certo legalismo [eclesiológico, ndr], que pode ser ideológico" (p. 2). Em resumo, desvaloriza não só o direito canônico rebaixando-o a nível de legalismo e a sã doutrina qualificando-a como ideologia, mas inclusive a Igreja hierárquica e sua constituição jurídica querida por Cristo com o Episcopado monárquico de Pedro e, portanto, do Papa sobre a Igreja universal e do Bispo sobre sua diocese, para exaltar a concepção pneumática ou puramente espiritual da Igreja como comunidade ou caminho dos crentes, de sabor protestante ou carismático.
Definição modernista da verdade
Apesar de seu colegialismo, Francisco "responde" mal aos Cardeais, os quais fizeram notar a divergência de sua "Exortação Amoris laetitia" (19 de março de 2016) com a doutrina Revelada divinamente e definida infalivelmente pela Igreja sobre o sacramento do Matrimônio, da Penitência e da Eucaristia: "[eles, ndr] continuam sem compreender, ou branco ou preto, embora seja no fluxo da vida onde se deva discernir" (p. 2). Em resumo, para ele não conta já teologicamente o evangélico "sim sim não não, o demais vem do Maligno" (Mt 5, 37) e, nem sequer filosoficamente, o ser, quer dizer, o que é estável, a natureza e a essência das coisas, mas que nega inclusive o princípio, conhecido por si mesmo, de identidade e não contradição: "branco = branco, preto = preto, branco ≠ preto", "ato = ato, potência ou devir = potência ou devir; ato ≠ devir".
Bergoglio altera por conseguinte a definição aristotélico-tomista de verdade (“adaequatio rei et intellectus/conformidade do intelecto com a realidade extramental”) fazendo sua a da modernista filosofia de Maurice Blondel (“adaequatio mentis et vitae/conformidade do intelecto com as exigências mutáveis e corrediças da vida”), ou seja, "a verdade deve ser buscada no fluxo da vida" (e não nos princípios conhecidos por si mesmos, estáveis e imutáveis), pelo que, se hoje é difícil ao homem contemporâneo aceitar a verdade objetiva de "não cometerás adultério" (“adaequatio rei et intellectus”), é necessário recorrer ao discernimento do que é verdadeiro e justo, não já conforme a realidade objetiva (Lei natural e divinamente Revelada), mas conforme o fluxo e contínuo evoluir da vida: pelo que, se "para o homem de 2016" hic et nunc é preferível cometer adultério, este se torna hoje lícito".
A culpa não é jamais de Bergoglio, mas sempre do "motus in fine velocior"
Bergoglio justifica semelhante mudança de rota com "o caminho do Concílio, que vai adiante, se intensifica [por si mesmo, pela natureza das coisas, ndr]" e especifica: "mas é o caminho [do Concílio, ndr], não sou eu" (p. 3). Ele, graças a Deus, tem o valor, ou melhor, a fanfarronice de dizer abertamente o que se tenta ocultar em muitas partes (sobretudo por parte dos "neoconservadores", que queriam ler o Concílio na hermenêutica da continuidade e não em ruptura com a Tradição), isto é, que não existe ruptura entre Bergoglio e João Paulo II/Bento XVI, mas que existe objetiva e evidentemente entre os Papas do Concílio e a Tradição divino-apostólica.
Também no que diz respeito ao ecumenismo com os acatólicos, Francisco responde claramente: “tenho me encontrado com os primados e os responsáveis [das seitas não católicas, ndr], mas também meus outros predecessores [a partir de João XXIII, ndr] tiveram encontros com eles. Eu não tenho dado nenhuma aceleração; à medida que vamos adiante, o caminho parece ir mais veloz, é o motus in fine velocior” (p. 3). Portanto, se nos atemos às palavras de Bergoglio, não é exato dizer que ele é igual substancialmente aos Papas do Concílio e se diferencia deles acidentalmente por sua velocidade mais acelerada e radical, mas, havendo chegado a sua maturidade o iter conciliar, é normal que o motus, por sua natureza, est in fine velocior.
O limite da resistência dos Cardeais
O Vaticano II contém em potência todos os erros de Bergoglio e, portanto, se se quer remediar o mal atual (veja-se Amoris laetitia), é necessário ir a suas raízes e as encontramos no Concílio Vaticano II; é inútil podar os galhos que sobressaem de uma planta de cicuta: se deixamos intactas suas raízes, o tronco e as folhas que não sobressaem excessivamente, continua sendo sempre um perigo mortal.
O limite da resistência (embora laudável e valente) dos Cardeais Burke, Sarah, Caffarra, Müller, Brandmüller e de Monsenhor Schneider é exatamente isto: não se remontar às causas dos erros atuais. Pelo contrário, dito limite pode tornar-se um perigo na medida em que eles tentam fazer com que os antimodernistas aceitem o Vaticano II e a plena ortodoxia da Nova Missa de Paulo VI para obter um arranjo jurídico. Contudo, se na guerra alguém se limita a disparar contra os projéteis do inimigo que caem em cima de si sem alcançar quem os dispara, a guerra já está perdida desde o início."

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sábado, 8 de abril de 2017

A lenda da papisa Joana

“Entre São Leão IV e Bento III (855), uma calúnia, acreditada pela ignorância e pela má fé, coloca na Sé apostólica a famosa papisa Joana. Os escritores hostis ao papado pretenderam, sem citar em apoio à sua opinião um só testemunho contemporâneo, que uma mulher, por nome Joana, originária de Mogúncia e de gênio distinto, conseguira dissimular seu sexo e entrar nas ordens sob o nome de João da Inglaterra. Alcançando, graças a seus talentos, as mais altas dignidades eclesiásticas, teria sido eleita, como papa, em 855, sob o nome de João VIII. A fábula toma agora as proporções de uma obscenidade grosseira. Durante uma procissão solene, a papisa Joana dá à luz na mesma igreja de São João de Latrão. Nada dizemos da vergonhosa cerimônia da sedia cujos pormenores não podem ser escritos por uma pena honesta.
Durante três séculos, nenhum historiador falou nessa fábula tão ridícula quão inverossímil, de uma mulher elevada ao soberano pontificado. Ainda mesmo que o caso fosse verdadeiro, para a Igreja não resultaria nem responsabilidade nem vergonha. Seria uma surpresa e nada mais. Mas nenhum testemunho sério e contemporâneo autoriza a reconhecê-lo como autêntico. Na sua História da Igreja, o cardeal Hergenroether, cuja competência e autoridade são indiscutíveis, contenta-se com dizer: “É uma fábula desde muito tempo reduzida ao nada, que Leão IV tivesse como sucessor a papisa Joana”.
Mas pode-se perguntar: qual foi, portanto, a origem de semelhante boato, e de que modo se pôde propagar? Num trabalho publicado em 1863, o doutor Doellinger, cuja ciência histórica é incontestável, rejeita a opinião que faria remontar ao século XI a origem da lenda, e seria mais verdadeiro dizer que data só do meado do século XIII. Segundo Barônio, a fábula da papisa não seria mais do que uma sátira da indolência de João VIII, particularmente no procedimento de Fócio. O. Secchi, sábio jesuíta de Roma, não vê nisso senão uma calúnia inventada pelos Gregos. Em suma, as explicações soçobram todas perante o silêncio da tradição, e, apesar dos trabalhos históricos empreendidos em nossos dias, nada se descobriu que remonte além do século XIII. É no livro dos “Sete dons do Espírito Santo”, escrito pelo Dominicano Estevam de Borbone, lá pelo meado do século XIII, que apareceu, pela primeira vez, a notícia da papisa Joana; outro Dominicano, Martinho o Polaco, por muito tempo capelão do papa, propagou-a na sua “Crônica dos papas”. Cita-se também certo manuscrito de Anastácio, o Bibliotecário, onde esta lenda teria aparecido, não no texto, mas na margem e em caracteres diferentes dos da obra, o que revela uma interpolação. A mesma narrativa passou nas diversas Crônicas dos séculos XIV e XV, redigidas, as mais das vezes, por frades dominicanos ou franciscanos. Os autores da “História literária da França” admiram-se e com razão de que os propagadores mais ingênuos e talvez os inventores de uma história tão injuriosa para o papado, se encontram precisamente nas fileiras de uma milícia tão fiel à Santa Sé.
Em todo o caso, a lenda progrediu muito. No concílio de Constança, João Huss se aproveitou dela a favor de sua doutrina sobre o papado e não foi rebatido. O mesmo João Gerson lembra a história de um papa feminino para mostrar que a Igreja pode se enganar sobre uma questão de fato. O caso parecia portanto admitido sem contestação.
Concebe-se então que, na segunda metade do século XV, os Gregos se valessem dessa fábula; era um achado precioso para os inimigos da Santa Sé e para a causa do cisma. Explica-se do mesmo modo que, no século XVI, os discípulos de Lutero e de Calvino explorassem esse conto com uma animosidade prodigiosa e lançassem mão de tal invenção para dela se fazer uma arma contra o papado.
Contudo, vários dos mais doutos e mais conscienciosos entre os protestantes, tais como Blondel, Casaubon, Bayle, não se demoraram em combatê-la. Chamier, Dumoulin, Bochart, Basnage e outros homens instruídos, de diversas seitas, não hesitaram em tratar a história da papisa Joana como pura invenção de copista ou de comentador. O pastor Jurieu a qualifica de fábula monstruosa, e Bayle de simples historieta.
Os escritores católicos, Eneas Sylvius, em seguida papa, sob o nome de Pio II; Onufro Pavini, Belarmino, Florimundo de Rémond, de Launoy, o P. Labbe e muitos outros, refutaram amplamente a velha lenda. Mas desprezam-se essas fontes preciosas de erudição. O século XVIII ressuscitou a questão que foi de novo abafada pela Revolução. Uma monstruosa compilação em nossa época: “Os crimes dos papas e dos reis”. Repetiu e desenvolveu a velha lenda da papisa. Quantos ignorantes e papalvos, em nossos dias, julgam ainda fazer dela um argumento contra a Igreja!
Depois do histórico da questão, vamos às provas de que a pretensa papisa Joana não é mais do que uma fábula insustentável.
1 – Esse fantasma não acha lugar para se colocar entre Leão IV e Bento III. Leão IV morreu em 17 de julho de 855; Bento VIII foi, com toda a verossimilhança, eleito no mesmo mês e sagrado em 29 de setembro do mesmo ano. Então, em que fica o reinado da papisa?
2 – Já dissemos: Nenhum contemporâneo fala de tal papisa Joana; os três séculos seguintes observam o mesmo silêncio a respeito, e é somente no século XIII que esta fábula é consignada por escrito na crônica interpolada de Martinho, o Polaco.
3 – Como todas as fábulas e lendas, a da papisa Joana é diversamente contada. Essa mulher elevada sobre a cadeira de São Pedro nasce ora em Atenas, ora em Mogúncia, ora na Inglaterra. No princípio, não se lhe conhecia o nome e não era douta; ocupava o cargo de simples secretário; em seguida, chamou-se Inês, Gilberta e Joana, este último nome sendo mais parecido com o de João, usado naquela época por alguns papas cuja reputação ficava equivoca ou eivada de fraqueza.
4 – Quanto à famosa pedra monumental de uma das ruas de Roma, com uma inscrição de letras iniciais e enigmáticas; quanto à estátua descoberta na mesma rua em que o cortejo pontifical evitava de passar, estátua representando uma mulher e perto dela um menino, é necessário todo um sistema preconcebido de interpretação para ver nisso tudo uma alusão à papisa Joana, e os arqueólogos indicaram-lhes uma significação histórica e completamente romana fora dessa falsa história.
Para concluir, somos do parecer do ministro protestante David Blondel, o qual, refutando esta fábula, declara que “não se deve aplicar o espírito em pesquisas inúteis sobre um assunto que não merece consideração alguma”. “Os protestantes”, diz Bayle, “puderam objetar legitimamente o conto da papisa enquanto não estava refutado. Dele não eram os inventores; achavam-no em várias obras compostas por bons papistas; mas desde que foi refutado por razões indiscutíveis, tiveram que abandoná-lo.”
A questão é, portanto, julgada. Hoje, para qualquer espírito instruído e sério, a fábula da papisa Joana não é mais do que uma prova da baixeza a que pode resvalar o espírito de partido eivado de preconceitos contra a Igreja e contra a verdade.”
(Mons. E. Cauly, Curso de Instrução Religiosa)

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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ceia anglicana em São Pedro

“Quando dentro de poucos dias, em rigorosa consonância com os festejos pelo quarto aniversário da eleição de Francisco, a basílica de São Pedro se veja em transe de suportar a celebração, em seu altar-mor, das vésperas anglicanas por celebrantes isentos de autêntica dignidade sacerdotal, se estará cumprindo um novo marco naquele outro marco que já constitui este ímpar pontificado. Concretamente, se voltará a tentar a Deus no interior mesmo do templo maior de nossa fé, como faz mais de um ano se fez em sua fachada exterior, ao projetar sobre a mesma imagens ecológico-simiescas no mesmo dia da Imaculada Conceição. Ambos fatos merecem um lugar no trio que bem poderia completar-se com a missa satânica celebrada em 1963 na capela paulina no Vaticano, segundo conhecido testemunho de Malachi Martin em seu romance Windswept house.
Trata-se de um sacrilégio, até a data, único em seu gênero. Pois se as visitas a edifícios luteranos da parte de Bento XVI e do próprio Francisco afetavam a potestade, uma tão factível como estrábica interpretação das mesmas (em tempos, como os nossos, de fé desfalecente) podia crer infligida a mancha à pessoa apenas, falível como todas, e não ao cargo; mas a concessão do altar-mor da Igreja, com a sagrada hóstia oculta no tabernáculo sendo ipso facto vilipendiada, já comporta uma profanação inequívoca.
Como já não serve para nada o Magistério, a bula Apostolicae curae de Leão XIII poderá ser entregue às chamas sem escrúpulos, toda vez que aquele papa define ali que “com o íntimo defeito de forma” do ritual de ordenações anglicano, reformado em 1552 após vários anos de ruptura com Roma, “está unida a falta de intenção que se requer igualmente de necessidade para que haja sacramento”, motivo pelo qual, de conformidade com os decretos emanados pelos pontífices precedentes acerca do assunto, “pronunciamos e declaramos que as ordenações feitas em rito anglicano têm sido e são absolutamente inválidas e totalmente nulas” (Dz. 1966). De nada vale, pois, o posterior intento anglicano de recuperar o velho formulário, mais de cem anos depois do cerceamento do primitivo: já então se havia perdido a sucessão apostólica, o que confere às vésperas anglicanas em Roma um valor intrínseco não maior que se lhes cedesse São Pedro para o five o'clock tea, não sem o óbvio efeito sacrílego.
Deste modo, o que se chamou a “evolução homogênea do dogma”, isto é, a explicitação progressiva no tempo do conteúdo implícito na Revelação, veio a ser substituído pela “contra-afirmação heterogênea da doxa”, da mera opinião humana, flutuante e reversível, como para submergir definitivamente toda clareza doutrinal na névoa da ignorância ou na treva das inteligências ofuscadas pelo orgulho. Porque – valha tê-lo sempre presente – a heresia pertence ao âmbito das opiniões, das reservas mentais para com a verdade proposta a nosso assentimento fiel. O que o “livre exame” consagra é a disposição selecionadora do conteúdo da fé, desnaturalizando-a em sua mesma raiz ao pretender arraigá-la na vontade, sendo a fé – como é – uma virtude intelectual. Tudo que provenha desta primeira defecção perpetuará, pois, o erro e o dano.
A exaltação da variedade anárquica, da pluralidade desbocada e o caos que o protestantismo exibe desde seu berço, será caráter logo estendido ao pensamento e à ação – à história moderna, digamos, dimanada daquela violenta ruptura religiosa. O trágico olvido de que só do uno procede o múltiplo impôs um fardo sobre toda a realidade humana, acabando com a instituição monárquica, com as tradições locais e ainda com a família e o matrimônio, âmbito privilegiado da unidade e princípio de sua consolidação civil. É o horror que o caos suscita na consciência humana que inspirou finalmente aos ideólogos a recorrência a uma unidade espúria através do totalitarismo, produto tipicamente moderno capaz de dar acabada conta deste desgraçado processo de atomização e reintegração falaz de cunho voluntarista. Da desintegração extrema à leviatanização: com tal fórmula poderiam sintetizar-se cinco séculos de história moderna.
Unus Dominus, una fides, unum baptisma: na Igreja modernizada ou modernista, da precisa fórmula paulina veio, pois, a escamotear-se o termo do meio, com a finalidade de propiciar uma nova unidade fundada sobre outros princípios, outras opiniões, heterodoxias. “Temos o mesmo batismo, temos que caminhar juntos”, é o galanteio sussurrado nos ouvidos dos protestantes, com crassa omissão de que não temos a mesma fé. A nova unidade, adotada pela “diversidade reconciliada”, é um magma no qual as necessárias distinções ontológicas se dissolvem, onde a virtude e o vício valem o mesmo, onde as noções de bem e mal são frivolidades, onde a ortodoxia equivale à heresia e onde – bem diferente da parábola das bodas reais (Mt 22, 1-14) – todos podem ser admitidos à ceia sem vestir o traje correspondente. Proclama-se, a rigor, um novo e demencial evangelho.
Se pelos gostos se conhece o homem, no caso de Bergoglio conheceremos pelos mesmos também seu programa. O loquaz profeta da nova misericórdia soube apregoar sua afeição pela Crucificação branca de Chagall (quadro no qual o próprio autor assinalou sua intenção de associar o sacrifício de Cristo com o infecto mito da “Shoah”, subordinando inclusive aquele a este), do mesmo modo que não lhe há faltado ocasião de reivindicar “A festa de Babette” como sua película favorita. Assim o expressa em sua controvertida Amoris laetitia:
As alegrias mais intensas da vida surgem quando se pode provocar a felicidade dos outros, em uma antecipação do Céu. Cabe recordar a feliz cena do filme A festa de Babette, onde a generosa cozinheira recebe um abraço agradecido e este elogio: “Como deliciarás os anjos!”. É doce e consoladora a alegria de fazer as delícias para os outros, vê-los usufruir delas. (§129)
Não tínhamos referências à obra e, por isso, não alcançávamos em toda sua plenitude o que Bergoglio pretendia traficar-nos com semelhante alusão. Veio em nosso auxílio um recente artigo do blog de Barônio, onde se nos noticia da infausta fisionomia da autora do livro no qual se inspira a película, Karen Blixen, uma escritora danesa convencida de que o bem e o mal são intercambiáveis: “somos nós mesmos que julgamos bom ou mau algo que por si é ambivalente, e que se torna bom ou mau segundo nosso juízo, segundo nosso discernimento pessoal. Caso a caso. E recordaremos também que Blixen – quando descobriu haver contraído sífilis de seu primeiro marido, durante sua estada na África – entregou sua própria alma ao diabo, de modo que toda a experiência vivida pudesse ser vertida em seus contos”. O animismo e a bruxaria, ao que parece, foram a obscura religião desta desnorteada nórdica cujas fantasias agradaram tantíssimo a Bergoglio.
Estritamente falando, o que Francisco pondera é a película, que do livro original faz uma interpretação um tanto abusiva. Em poucas palavras, a história trata de uma esplêndida comida oferecida por uma cozinheira francesa a um grupo de comensais noruegueses pertencentes a uma comunidade luterana, doze ao todo, que honram com este ágape a memória do fundador. O que a película não conta é que, na história original, a cozinheira é uma terrorista fugitiva de sua nação que, empregada em uma vila norueguesa pelas filhas de um pastor luterano local como governanta, oferece este banquete com o dinheiro obtido ao ganhar a loteria para demonstrar sua gratidão a seus protetores e, ao mesmo tempo, mostrar sua habilidade nas artes culinárias. Sua condição de francesa poderia sugerir sua filiação católica, se o livro não explicitasse seu passado anarquista e criminoso.
Conclui Barônio:
Babette, portanto, não é um personagem positivo, não é o anjo que deixa entrar uma réstia de luz católica na escuridão na qual se encontram os membros da seita. Ela é antes um personagem dir-se-ia quase infernal, que depois de haver-se beneficiado da generosa hospitalidade de uma pequena comunidade e de haver merecido sua confiança, seduz as mentes e os corações persuadindo-os de que as diferenças doutrinais e ideológicas – mantidas sempre em silêncio – podem ser superadas no encontro naquilo que cremos compartilhar: a mesa […].
A ceia de Babette é o âmbito da vingança hedonista por sobre os sacrifícios dolorosos do passado […] que são reabsorvidos em um presente dionisíaco, diante da memória ridicularizada do Decano, quase obrigado a assistir à traição de sua comunidade. Tampouco deve-se olvidar a reprovação da severidade formalista do defunto, a qual se atribuem as renúncias das filhas Martina e Philippa, frustradas em suas aspirações por uma visão beata e esclerosada da fé.
Aquilo que restava da união com o sacrifício de Cristo na contudo distorcida visão luterana dissolve-se toda vez que Cristo é desterrado do
convivium. Dessa maneira a ceia, que até então congregava em torno da pobre mesa os fiéis da seita para comemorar seu fundador, com babette se transforma em uma celebração da comunidade tornada um fim em si mesma.
A tal ponto torna-se supérflua a figura do sacerdote, que Babette pode permanecer na cozinha. Ela é o
deus ex machina que prepara tudo, assim como Bergoglio prepara uma nova religião, deixando que os acontecimentos falem em primeira pessoa.
Assim, a puro golpe de acontecimentos, com a inexorabilidade dos fatos consumados, se vai acelerando aquilo que a Escritura designa como a “abominação da desolação” e a “supressão do sacrifício cotidiano”, conforme a estratégia revolucionária de pegar primeiro e, se é possível, mais uma e ainda outra vez antes que se produza a tardia reação: tal é a confiança (audácia) que os maus têm na confiança (inércia) dos bons. Primeiro a ruptura litúrgica, com sua sequela indetível e crescente de abusos que ao cabo de algumas décadas tornam irreconhecível o mesmo ritual romano reformado; depois, a dispensa para comungar em pecado mortal segundo a teoria do discernimento, outrora condenada como “moral de situação”. Imediatamente depois, a abertura de lacunas pelas quais enfiar a discussão do diaconato feminino e o celibato sacerdotal, após uma práxis já folgadamente imposta de “ministros extraordinários” do culto. Que falta para que às liturgias inter-religiosas e à ceia anglicana suceda uma iminente modificação na fórmula da consagração, para evitar que a importuna Vítima sacrificial se faça presente sequer entre os degradados paramentos do Novus Ordo?
Ubi corpus, ibi aquilae. Umas, as águias congregadas para alimentar-se, que “seguem o Cordeiro onde quer que este vá” (Ap 14, 4); outras, que descem a pique para proscrever Deus de nossos altares. O sacrossanto Corpo de Cristo está no centro da guerra escatológica.”

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domingo, 2 de abril de 2017

J'ai vû le loup - Canção do século XVII (avec paroles)



J'ai vu le loup, le renard, le lièvre
J'ai vu le loup, le renard cheuler (boire)
C'est moi-même qui les ai rebeuillés
J'ai vu le loup, le renard, le lièvre
C'est moi-même qui les ai rebeuillés

J'ai vu le loup, le renard cheuler
J'ai ouï le loup, le renard, le lièvre
J'ai ouï le loup, le renard chanter
C'est moi-même qui les ai rechignés

J'ai ouï le loup, le renard, le lièvre
C'est moi-même qui les ai rechignés
J'ai ouï le loup, le renard chanter
J'ai vu le loup, le renard, le lièvre
J'ai vu le loup, le renard danser

C'est moi-même qui les ai revirés
J'ai vu le loup, le renard, le lièvre
C'est moi-même qui les ai revirés
J'ai vu le loup, le renard danser

The Baltimore Consort

quinta-feira, 30 de março de 2017

Onde não há ódio à heresia, não há santidade

“Se odiássemos o pecado como deveríamos odiá-lo; puramente, profundamente, valentemente, deveríamos fazer mais penitência, infligir em nós próprios maiores castigos, deveríamos chorar os nossos pecados mais abundantemente. Pois, então, a suprema deslealdade para com Deus é a heresia. É o pecado dos pecados, a mais repugnante das coisas que Deus desdenha neste mundo enfermo. No entanto, quão pouco entendemos da sua enorme odiosidade! É a poluição da verdade de Deus, o que é a pior de todas as impurezas.
Porém, quão pouca importância damos à heresia! Fitamo-la e permanecemos calmos... Tocamo-la e não trememos. Misturamo-nos com ela e não temos medo. Vemo-la tocar nas coisas sagradas e não temos nenhum sentido do sacrilégio. Inalamos seu odor e não mostramos qualquer sinal de abominação ou de nojo. De entre nós, alguns simpatizam com ela e alguns até atenuam a sua culpa. Não amamos a Deus o suficiente para nos enraivecermos por causa da Sua glória. Não amamos os homens o suficiente para sermos caridosamente verdadeiros por causa das suas almas.
Tendo perdido o tato, o paladar, a visão e todos os sentidos das coisas celestiais, somos capazes de morar no meio desta praga odiosa, imperturbavelmente tranqüilos, reconciliados com a sua repulsividade, e não sem proferirmos declarações em que nos gabamos de uma admiração liberal, talvez até com uma demonstração solícita de simpatia tolerante [para com os seus promotores].
Porque estamos tão abaixo dos antigos santos, e até dos modernos apóstolos destes últimos tempos, na abundância das nossas conversões? Porque não temos a antiga firmeza! Falta-nos o velho espírito da Igreja, o velho gênio eclesiástico. A nossa caridade não é sincera porque não é severa, e não é persuasiva porque não é sincera.
Falta-nos a devoção à verdade enquanto verdade, enquanto verdade de Deus. O nosso zelo pelas almas é fraco, porque não temos zelo pela honra de Deus. Agimos como se Deus ficasse lisonjeado pelas conversões, e não pelas almas trêmulas, salvas por uma abundância de misericórdia.
Dizemos aos homens a metade da verdade, a metade que melhor convém à nossa própria pusilanimidade e aos seus próprios preconceitos. E, então, admiramo-nos que tão poucos se convertam e que, desses tão poucos, tantos apostatem.
Somos tão fracos a ponto de nos surpreendermos que a nossa meia-verdade não tenha tanto sucesso como a verdade completa de Deus.
Onde não há ódio à heresia, não há santidade.
Um homem, que poderia ser um apóstolo, torna-se uma úlcera na Igreja por falta de reta indignação.”
(Pe. Frederick William Faber, The Precious Blood, or: The Price of Our Salvation)

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