quarta-feira, 19 de julho de 2017

A marca infalível da heresia


"Por influência dos “velhos” modernistas, em suma, os novos teólogos — Lubac à frente — por seu naturalismo e seu relativismo não se limitavam a negar uma ou outra verdade de fé, mas atacavam as raízes sobrenaturais da Igreja, acabando por destruí-la por via de inflação, ou seja, através da sua identificação progressiva com toda a humanidade.
Mas o que espanta mais nessa sopa de cultura de fermentos maléficos, que são os meios do novo modernismo, é sem dúvida a soberba destes pseudo “reformadores”, fundada na pretensão de ter nem mais nem menos redescoberto o “cristianismo autêntico” (perdido pela “velha” Igreja ao longo dos séculos).
Eu saúdo antes de tudo — escrevia em 1945 Blondel a Lubac — sua grande obra O Natural, pois se é útil e até necessário destruir os erros, é ainda mais importante expor a fundo a verdade do cristianismo autêntico...”. (e, como por acaso, o que pretendem hoje os partidários do Concílio Vaticano II, senão ter finalmente descoberto, depois de dois mil anos, o “cristianismo autêntico”?).
Esta pretensão se repete constantemente na história das heresias, trata-se de um sinal infalível para reconhecermos o herético: dos gnósticos dos séculos II e III até os Cátaros medievais, de Ário de Alexandria até Lutero, de Nestório até os modernistas e os “novos teólogos”, todos pretendem ser os descobridores e restauradores do “verdadeiro cristianismo”.
O Senhor... dissipou aqueles que se orgulhavam com os pensamentos do seu coração”: mesmo a condenação ulterior da nova teologia pelo Soberano Pontífice Pio XII não conseguirá dobrar o orgulho presunçoso dos novos teólogos, nem convencê-los a abandonar seu plano pretensioso de reformar a Igreja."

http://permanencia.org.br

domingo, 16 de julho de 2017

O inimigo


“Esse inimigo se encontra em todo lugar e no meio de todos; sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social da unidade no corpo misterioso de Cristo. Quis a natureza sem a graça; a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um 'inimigo' que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não. Depois: Deus sim, Cristo não. Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e até: Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como as principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus. O 'inimigo' tem trabalhado e trabalha para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, na assembléia das nações, lá onde se determina a paz ou a guerra."
(Pio XII, Discorso agli Uomini di Azione Cattolica, 12 de outubro de 1952)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

William Butler Yeats: Os Cisnes Selvagens de Coole


Em sua outonal beleza estão as árvores,
Secas as veredas do bosque;
No crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem um céu tranquilo;
Nessas transbordantes águas sobre as pedras
Banham-se cinquenta e nove cisnes.

Dezenove outonos se passaram desde que
Os contei pela primeira vez;
E, enquanto o fazia, vi
Que de repente todos se erguiam
E em largos círculos quebrados revolteavam
As clamorosas asas.

Contemplei esses seres resplandecentes,
E agora há uma ferida no meu coração.
Tudo mudou desde o dia em que ouvindo ao crepúsculo,
Pela primeira vez nesta costa,
A alta música dessas asas sobre a minha cabeça,
Com mais ligeiro passo caminhei.

Infatigáveis, amante com amante,
Movem-se nas frias
E fraternas correntes ou elevam-se nos ares;
Os seus corações não envelheceram;
Paixão ou conquista solicitam ainda
Seu incerto viajar.
Mas vagueiam agora pelas quietas águas,
Misteriosos, belos;
Entre que juncos edificarão sua morada,
Junto a que lago, junto a que charco,
Deliciarão o olhar do homem quando um dia eu despertar
E descobrir que voando se foram?


Tradução de José Agostinho Baptista

segunda-feira, 10 de julho de 2017

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Cardeal Merry del Val: Litania da Humildade

“Ó Jesus, manso e humilde de coração,
Escuta-me.

Do desejo de ser estimado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do desejo de ser enaltecido,
Liberta-me, ó Jesus.
Do desejo de receber honrarias,
Liberta-me, ó Jesus.
Do desejo de ser elogiado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido a outros,
Liberta-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado,
Liberta-me, ó Jesus.

Do medo de ser humilhado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do medo de ser desprezado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do medo de ser repreendido,
Liberta-me, ó Jesus.
Do medo de ser caluniado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do medo de ser esquecido,
Liberta-me, ó Jesus.
Do medo de ser ridicularizado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do medo de estar errado,
Liberta-me, ó Jesus.
Do medo de ser considerado suspeito,
Liberta-me, ó Jesus.

Que outros sejam mais amados que eu,
Jesus, concede-me a graça de desejar isto.
Que outros sejam mais estimados que eu,
Jesus, concede-me a graça de desejar isto.
Que na opinião do mundo, outros possam crescer e eu diminuir,
Jesus, concede-me a graça de desejar isto.
Que outros sejam escolhidos e eu deixado de lado,
Jesus, concede-me a graça de desejar isto.
Que outros sejam elogiados, e que eu não seja notado,
Jesus, concede-me a graça de desejar isto.
Que outros sejam preferidos a mim em todas as coisas,
Jesus, concede-me a graça de desejar isto.
Que outros se tornem mais santos do que eu
e que eu me torne tão santo quanto deveria ser,
Jesus, concede-me a graça de desejar isto.”

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Assassinos de almas da Nova Ordem Mundial


“Algumas vezes, as notícias do dia são demasiado dolorosas para serem consideradas. Tenho filhos pequenos e, francamente, esta história me parte o coração. Não olhem para o travesti. Todos já temos visto antes estes pobres, confusos gritos de auxílio (e desesperada busca de atenção). Olhem para as crianças... olhem seus rostos... imaginem que são seus filhos, seus netos.
Só de pensar que as crianças estão sendo submetidas ao que acontece nessa biblioteca pública me enche de uma tristeza desesperadora. Suas pequenas mentes – tão inocentes, tão curiosas, tão confiantes – atacadas subitamente por uma carga de artilharia ideológica disparada pelos adultos em suas vidas, inclusive mães e pais em quem confiam implicitamente. Sem importar que opinião tenhamos sobre o tema da homossexualidade, tem que haver uma parte interior que reconheça algo muito mau em lavar o cérebro de crianças pequenas com uma questão que a maioria dos adultos não compreende por completo. Pode alguma civilização da história ser acusada de conduzir semelhante experimentação psicológica em suas próprias crianças?
Não faz muito, fazer isso com as crianças teria sido contra a lei, a de Deus e a dos homens. Costumávamos compreender o valor e a fragilidade da inocência, a tragédia da inocência perdida e o precioso equilíbrio da infância. As crianças eram protegidas, defendidas do que eram demasiado jovens para compreender e do que, se expostos cedo demais, teria destruído sua inocência e causado um dano psicológico permanente.
Costumávamos compreender isso, como o fez toda civilização da história. E então, um dia, decidimos começar a sacrificar nossos filhos no altar do politicamente correto. Começamos até mesmo a matar nossos bebês nos ventres de suas mães. Muitos deles, milhões, de fato. E evidentemente isto não se pode realizar sem maciças consequências psicológicas e morais. Assim, hoje desenvolvemos uma necessidade quase insaciável de corromper os pequenos que escaparam do aborto.
“Mas”, dirão nossos críticos, “nós, como sociedade, evoluímos para além de tais preocupações morais arcaicas”. Deveras? Estão certos disso? A civilização que desenvolveu as máquinas de assassinato mais eficientes da história – capazes de arrasar nações inteiras somente com o apertar de um botão – simultaneamente desenvolveu um melhor guia moral? Nós, que abusamos das crianças, coisificamos as mulheres, drogamos jovens aos milhões, desenvolvemos de alguma maneira um sentido mais agudo de moralidade que o que possuíam nossos avôs – uma consciência social evoluída que nos informa que está bem expor crianças inocentes (cujos corpos ainda não se desenvolveram plenamente) a exibicionistas sexuais travestis? Bem, e se nos informaram mal? E se nos equivocamos a respeito? E se perdemos a capacidade de conhecer a diferença entre o correto e o incorreto? E se na realidade estamos danificando nossos filhos – permanentemente?
A ninguém interessa a ciência e a psicologia que há por trás do que fazemos com nossos filhos em nome do politicamente correto? Porque, se não nos interessa sequer buscar os possíveis efeitos a longo prazo, então não se poderia dizer de nós – não que somos moralmente evoluídos – mas que não nos interessa o que acontece com nossos filhos? Arriscar sua saúde psicológica vale a pena para nós, se isso quer dizer que podemos justificar o que seja que estejamos fazendo aqui e agora.
Semelhantes sessões de controle mental orwelliano em bibliotecas públicas sugerem no mínimo que nos tornamos tão retorcidos – em mente, coração e alma – que simplesmente não suportamos a visão do que é bom, nem sequer nas crianças. Temos fobia à inocência e aos inocentes, e a maneira de nos sentirmos melhor em relação aos monstros nos quais nos transformamos é pedindo às crianças sua absolvição, aprovação e louvor. Novamente, se há algum precedente disto na história humana, gostaria de conhecê-lo.
Como vampiros alimentando-se do sangue de virgens, extraímos a inocência dos menores e mais puros dentre nós, para que em pouco tempo não reste nada de bom no mundo – só vício, morte e escuridão. Todos a nosso redor estarão morrendo ou estarão já mortos, e não será difícil para nós olhar no espelho e ver os zumbis espirituais em que nos tornamos. Quando todos se pareçam e fedam como nós, não haverá mais culpa e o processo de desumanização se terá completado.
Que Deus nos ajude. Que Deus nos perdoe. Somos piores que Sodoma, piores que a Roma pagã – somos assassinos cristofóbicos de almas na Nova Ordem Mundial.”
(Michael Matt, Soul-Killers of The New World Order)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Povo e ralé


"Karl Marx podia ter todos os defeitos do mundo, desde a vigarice intelectual até as hemorróidas, mas ele sabia que a palavra “proletário” significa “gente que trabalha” e não qualquer Zé-Mané.
Ele combatia o capitalismo porque achava que os ricos enriqueciam tomando o dinheiro dos pobres, o que é talvez a maior extravagância matemática que já passou por um cérebro humano, mas, reconheça-se o mérito, ele nunca confundiu trabalhador com vagabundo, povo com ralé.
Alguns discípulos bastardos do autor de “O Capital”, uns riquinhos muito frescos e pedantes, fundaram um instituto em Frankfurt com o dinheiro de um milionário argentino e resolveram que valorizar antes o trabalho honesto do que os vícios e o crime era uma deplorável concessão de Marx ao espírito burguês.
Usando dos mais requintados instrumentos da dialética, começaram ponderando que o problema não era bem o capitalismo e sim a civilização, e terminaram tirando daí a conclusão lógica de que para destruir a civilização o negócio era dar força aos incivilizados contra os civilizados.
Os frankfurtianos não apostavam muito no paraíso socialista, mas acreditavam que a História era movida pela força do “negativo” (uma sugestão de Hegel que eles tomaram ao pé da letra), e que, portanto, o mais belo progresso consiste em destruir, destruir e depois destruir mais um pouco.
Tentar ser razoável era apenas “razão instrumental”, artifício ideológico burguês. Séria mesmo, só a “lógica negativa”.
A destruição era feita em dois planos.
Intelectualmente, consistia em pegar um a um todos os valores, símbolos, crenças e bens culturais milenares e dar um jeito de provar que no fundo era tudo trapaça e sacanagem, que só a Escola de Frankfurt era honesta, precisamente porque só acreditava em porcaria – coisa que seu presidente, Max Horkheimer, ilustrou didaticamente pagando salários de fome aos empregados que o ajudavam a denunciar a exploração burguesa dos pobres.
Isso levou o nome hegeliano de “trabalho do negativo”. A premissa subjacente era:
– Se alguma coisa sobrar depois que a gente destruir tudo, talvez seja até um pouco boa. Não temos a menor ideia do que será e não temos tempo para pensar em tamanha bobagem. Estamos ocupados fazendo cocô no mundo.
No plano da atividade militante, tudo o que é bom deveria ser substituído pelo ruim, porque nada no mundo presta, e só a ruindade é boa. A norma foi seguida à risca pela indústria de artes e espetáculos. A música não podia ser melodiosa e harmônica, tinha de ser no mínimo dissonante, mas de preferência fazer um barulho dos diabos.
No cinema, as cenas românticas foram substituídas pelo sexo explícito. Quando todo mundo enjoou de sexo, vieram doses mastodônticas de sangue, feridas supuradas, pernas arrancadas, olhos furados, deformidades físicas de toda sorte – fruição estética digna de uma platéia high brow.
Nos filmes para crianças, os bichinhos foram substituídos por monstrengos disformes, para protegê-las da idéia perigosa de que existem coisas belas e pessoas boas. Na indumentária, mais elegante que uma barba de três dias, só mesmo vestir um smoking com sandálias havaianas — com as unhas dos pés bem compridas e sujas, é claro.
A maquiagem das mulheres deveria sugerir que estavam mortas ou pelo menos com Aids. Quem, na nossa geração, não assistiu a essa radical inversão das aparências? Ela está por toda parte.
Logo esse princípio estético passou a ser também sociológico. O trabalhador honesto é uma fraude, só bandidos, drogados e doentes mentais têm dignidade. Abaixo o proletariado, viva a ralé. De todos os empreendimentos humanos, os mais dignos de respeito eram o sexo grupal e o consumo de drogas.
De Gyorgy Lukacs a Herbert Marcuse, a Escola de Frankfurt ilustrou seus próprios ensinamentos, descendo da mera revolta genérica contra a civilização à bajulação ostensiva da barbárie, da delinquência e da loucura.
Vocês podem imaginar o sucesso que essas idéias tiveram no meio universitário. Desde a revelação dos crimes de Stálin, em 1956, o marxismo ortodoxo estava em baixa, era considerado coisa de gente velha e careta.
A proposta de jogar às urtigas a disciplina proletária e fazer a revolução por meio da gostosa rendição aos instintos mais baixos, mesmo que para isso fosse preciso a imersão preliminar em algumas páginas indecifráveis de Theodor Adorno e Walter Benjamin, era praticamente irresistível às massas estudantis que assim podiam realizar a coincidentia oppositorum do sofisticado com o animalesco.
Com toda a certeza, a influência da Escola de Frankfurt, a partir dos anos 60 do século passado, foi muito maior sobre a esquerda nacional que a do marxismo-leninismo clássico.
Sem isso seria impossível entender o fenômeno de um partido governante que, acuado pela revolta de uma população inteira, e não tendo já o apoio senão da ralé lumpenproletária remunerada a pão com mortadela e 35 reais, ainda se fecha obstinadamente na ilusão de ser o heróico porta-voz do povão em luta contra a “elite”.
Dois anos atrás, já expliquei neste mesmo jornal que uma falha estrutural de percepção levava a esquerda nacional a confundir sistematicamente o povo com o lumpenproletariado, de tal modo que, favorecendo o banditismo e praticando-o ela própria em doses continentais, ela acreditava estar fazendo o bem às massas trabalhadoras, as quais, em justa retribuição de tamanha ofensa, hoje mostram detestá-la como à peste.
O Caderno de Teses do V Congresso do PT é um dos documentos mais reveladores que já li sobre o estado subgalináceo a que os ensinamentos de Frankfurt podem reduzir os cérebros humanos."

http://www.olavodecarvalho.org

domingo, 25 de junho de 2017

O Ocidente obcecado pelo gênero se prepara para a ascensão do Islã


"Bem-vindo à “próxima fronteira da libertação“ progressista, onde o problema mais urgente nas democracias ocidentais é o “machismo”.
A Carolina do Norte sofreu um ano de boicotes, até vetar a lei do banheiro transgênero. No mês passado, a União Nacional dos Professores da Grã-Bretanha pediu ao governo para ensinar as crianças, a partir de dois anos de idade, as novas teorias dos transgêneros. Nova York apresentou recentemente a primeira “boneca trans”. As universidades americanas estão atormentadas com a histeria dos pronomes neutros. Até a National Geographic, em vez de escrever sobre leões e elefantes, começou a cobrir a “Revolução do Gênero”. Uma das primeiras medidas anunciadas por Emmanuel Macron, já como presidente eleito da França, foi a de que ele nomearia funcionários de uma lista para que houvesse um número “igual de homens e mulheres“.
Qual o significado dessa mania de gênero que está permeando todos os cantos da cultura e das sociedades ocidentais? Segundo Camille Paglia, crítica ao feminismo, trata-se de um sinal do declínio da civilização ocidental.
Em seu novo livro, Free Women, Free Men (Mulheres Livres, Homens Livres), ela assinala:
As civilizações passaram por ciclos recorrentes. Experimentação extravagante de gênero às vezes precede o colapso cultural, como certamente ocorreu na República de Weimar (Alemanha). Hoje como ontem, há forças se alinhando nas fronteiras, multidões de fanáticos dispersos onde o culto da masculinidade heroica ainda tem apelo gigantesco”.
Ela então pergunta:
Como é possível que tantos dos jovens mais ousados e radicais de hoje se definem apenas segundo a sua identidade sexual? Estamos diante de um colapso de perspectiva que certamente terá consequências destoantes na nossa arte e cultura, que talvez venha minar a capacidade das sociedades ocidentais de compreenderem ou reagirem às crenças veementemente contrárias de outros que não nos querem bem. Os fenômenos transgêneros se multiplicam e se espalham em fases ‘tardias’ da cultura, à medida que as tradições religiosas, políticas e familiares enfraquecem e as civilizações entram em declínio”.
Não é coincidência que essa obsessão com gênero tenha surgido na cultura ocidental na década de 1990, década de paz e prosperidade antes do 11 de setembro. A década estava livre de angústias existenciais, consumida pelo escândalo de Monica Lewinski e embevecida pelo “Fim da História” de Francis Fukuyama. De acordo com Rusty Reno, editor de First Things, a ideologia de gênero é um símbolo da nossa época de “enfraquecimento”, apontando para um futuro globalizado “governado pelos deuses do bem-estar da saúde, riqueza e do prazer”. Os sumos sacerdotes desta ideologia, no entanto, não levaram em conta a ascensão do Islã radical.
Antes das cidades francesas de Paris, Nice e Rouen serem atacadas por grupos jihadistas, o governo socialista francês tinha apenas uma prioridade cultural: o “ABC da igualdade de gênero“. O nome foi tirado de um programa polêmico que a ministra dos direitos da mulher da França, Najat Vallaud-Belkacem, havia lançado em 500 escolas.
Depois de aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o governo francês, ao que tudo indica, também achou por bem que deveria promover uma revolução cultural. De acordo com o Ministro da Educação, Benoît Hamon, que perdeu de forma humilhante as últimas eleições presidenciais, as escolas são “um campo de batalha. Metade dos alunos boicotaram as aulas de “teoria de gênero”. Na sequência as autoridades francesas impuseram aos alunos livros ridículos como Papai Usa Vestido. Seria engraçado se os anos seguintes não tivessem sido tão trágicos. O que de fato acabou com essas ilusões francesas foi o terrorismo islâmico.
O efeito sobre a cultura ocidental desta ideologia de gênero é o repúdio ao espírito crítico somado a um “apelo chinfrim ao sentimento contra a razão“. Essa é a cultura obcecada pelo gênero que se recusa a ver o burquíni como ferramenta islâmica e não só isso, ainda o transforma num símbolo dos direitos humanos. A consequência é que a ameaça jihadista é vista apenas como um transtorno inaceitável ao estilo de vida ocidental. A Europa corre o risco de perder todas as suas dádivas históricas: dignidade humana, livre arbítrio, liberdade de religião, liberdade de expressão e a sua colossal cultura.
As elites erotocráticas francesas não estavam preparadas para o que se mostrou ser o ataque terrorista mais violento desde o 11 de setembro. A França, obcecada com o “ABC da igualdade”, pronta para se desarmar, foi pega de surpresa quando terroristas a atacaram no dia em que ela comemorava a igualdade. Na França, simplesmente não havia resistência popular à Lei Islâmica (Sharia) e à ideologia jihadista. Intoxicados pela obsolescência da identidade, o único inimigo que essas elites francesas conheciam eram os privilégios patriarcais, uma vez que para elas o “domínio” era empreendido somente pelos homens brancos europeus.
A presidência de Emmanuel Macron já foi festejada por ativistas do gênero. “Macron é um sopro de ar fresco neste país”, ressaltou Natacha Henry, escritora de obras sobre o gênero, no New York Times. “Acho que ele venceu as eleições porque não fez nenhum tipo de comentário machista e é disso que precisamos”.
A anestesia oriunda de uma obsessão pelos direitos de gênero parece ter se tornado uma fixação de certos países quando ocorrem ataques terroristas. Logo depois que os jihadistas atacaram a Espanha em 2004 e a obrigaram a retirar suas tropas do Iraque, o governo socialista de José Luis Zapatero abraçou o estímulo da ideologia de gênero, incluindo-a nas aulas de “diversidade” benévolas aos gays nas escolas de ensino fundamental. O “Projeto Zapatero” baseava-se no desprezo da natureza, reinvenção do que é humano, exaltação do desejo. Os anos do ex-presidente dos EUA Barack Obama também foram marcados por uma “obsessão” com os direitos dos transgêneros. A obsessão com gênero é uma forma conveniente de desviar a atenção para evitar ter que enfrentar problemas mais complicados e menos agradáveis.
Há um ditado popular que diz que as civilizações podem ser destruídas de dentro em vez de serem destruídas por exércitos de fora. Se o Ocidente não se comprometer em preservar as sociedades e os valores ocidentais, ele cairá. E seu progresso extraordinário será coberto pela escuridão, junto com todos os direitos de gênero.
Segundo Camille Paglia, “uma cultura puramente secular corre o risco de cair no vazio e, paradoxalmente, se sujeitar à ascensão de movimentos fundamentalistas que ameaçam garantir purificar e disciplinar”. Tais como – digamos – o Islã radical."
(Giulio Meotti, The Gender Obsessed West Sets Itself Up for the Rise of Islam)

https://pt.gatestoneinstitute.org

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O mito do progresso


"Talvez não exista quimera mais falaz, maligna e destrutiva que o mito do Progresso, levedura de todas as ideologias modernas. Segundo dita quimera, a Humanidade avança para um porvir sempre melhor, em asas de avanços científicos cada vez mais refinados e de sucessos políticos cada vez mais estimulantes; e tais avanços e sucessos irão produzindo, por sua vez, um aperfeiçoamento da própria Humanidade, que devido à conquista de sucessivos direitos poderá entronizar-se a si mesma como um deus (torna-se, na verdade, hilário que as massas resistam a crer em um Deus trino e não tenham problemas em crer na Humanidade, um deus grupal ao modo da hidra de infinitas cabeças). De fato, o progressismo não é mais que um grotesco determinismo eufórico que confia (contra as evidências que nos proporciona a observação empírica) que a vocação natural da natureza humana é ascender por si mesma, ignorando que o fato mais certo e irrefutável da história humana é a Queda, da qual o homem só pode levantar-se com Deus e ajuda.
Refletia eu sobre esses assuntos faz umas semanas, enquanto contemplava no cinema uma película absolutamente idiota, sétima de uma saga automobilística e adrenalínica, que se tornou uma das mais bem-sucedidas da história do cinema. Muito rápida e furiosa, a película estava cheia de estrondos e pirotecnias avassaladoras, mas carecia de sentido, de conflito dramático, de personagens de carne e osso, de paixões nobres ou plebéias, de sentimentos dignos de tal homem, do mínimo relance de raciocínio. Enquanto contemplava com fastio e perplexidade semelhante porcaria me perguntei se era dirigido a seres humanos, ou antes a alguma espécie animal fruto de uma involução que necessitasse para sua sobrevivência de entretenimentos basbaques que não a exponham ao risco de pensar. Aqui alguém poderia objetar que a uma película cujo fim primordial é pastorear multidões não se deve exigir conflito dramático, nem personagens consistentes, nem semelhantes requintes; mas o certo é que em outras épocas – sem sairmos da esfera cinematográfica – as películas recordistas de público que desempenhavam igual função se intitulavam E o vento levou ou Ben-Hur, que enquanto pastoreavam multidões proporcionavam um entretenimento que não insultava a inteligência. Vendo aquela película rápida e furiosa cheguei à conclusão de que era o produto natural de uma época na qual o progresso técnico (muito visível na porcaria) encobre um retrocesso espiritual, moral, definitivamente humano.
A quimera do progressismo se ampara em uma miragem de grande eficácia persuasiva, segundo a qual o desenvolvimento alcançado pela ciência ou pela técnica é o sinal mais evidente do esplendor de uma civilização. Na verdade, desenvolvimento científico e civilização são conceitos que nada têm que ver entre si; pois um se refere a um âmbito puramente material e o outro a um âmbito espiritual. Que uma sociedade disponha de remédios para sanar enfermidades ou comunicar-se a distância não significa que seja uma sociedade que tenha avançado na consecução do bem, da verdade ou da beleza; inclusive poderia significar exatamente o contrário. Lamartine, em seu poema A queda do anjo, imaginava uma sociedade na qual floresciam de forma prodigiosa todos os refinamentos científicos concebíveis; mas essa sociedade, a um intenso progresso científico, unia um manifesto espírito de barbárie. Por preconceito progressista, Lamartine situava essa sociedade na pré-história, aceitando o tópico progressista que pretende que os homens temos evoluído desde a barbárie até o refinamento espiritual. As chamadas 'distopias', por sua parte, costumam imaginar futuros regidos pela barbárie; mas tal barbárie costuma produzir-se em mundos nos quais o progresso científico se deteve, ou em conjunturas políticas ditatoriais. Muito raramente aceitamos a possibilidade de um mundo evoluído cientificamente, solidamente democrático, no qual os homens tenham retrocedido espiritualmente, caminhando para a barbárie; e a razão pela qual não o aceitamos é porque esse mundo talvez já seja o nosso, um mundo rápido e furioso no qual as pessoas, imunizadas contra a nefasta mania de pensar, já nem sequer são capazes de fazer juízos éticos (o que, segundo Aristóteles, é o traço distintivo do ser humano).
Afirmava Gracián que "todo móvel instável tem aumento e declinação". Talvez os antigos pecassem de um certo determinismo aziago; mas se há algo mais equivocado que o determinismo aziago é o determinismo eufórico."
(Juan Manuel de Prada, El Mito del Progreso)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não há solução para o sedevacantismo


“Não há solução para o sedevacantismo. Sem uma hierarquia que funcione, a Igreja jamais será capaz de escolher um novo Papa. A atual hierarquia da Igreja não é de forma nenhuma uma hierarquia para o sedevacantista, mas uma reunião de não-bispos nomeados pelos antipapas. De onde, então, virá um papa válido? Alguns sedevacantistas, vendo o problema óbvio aqui, optaram por organizar seus próprios conclaves e produzir seus próprios antipapas. Isso resolve o problema da frigideira pulando direto no fogo, e faz com que a coisa toda pareça tão imbecil como realmente é. Outros sedevacantistas, não satisfeitos com esta solução, francamente admitem que não têm resposta para como teremos um verdadeiro papa – mas que isso vai acontecer. Tal como o sujeito que não podia definir pornografia, eles dizem que saberão se um papado é autêntico quando o virem. E isso mostra sua derradeira loucura, orgulho e prepotência: eles se constituíram a si mesmos como juízes do Supremo Pontífice. Agora que assumiram para si mesmos essa extrema responsabilidade, eles devem julgar todo pretendente ao Trono Petrino. Mas, se um homem se apresentar dizendo ser Papa – dizendo ser o verdadeiro que colocará as coisas em ordem, porque ele concorda com o que os sedevacantistas dizem – como saberão que ele é o tal? Sinais e prodígios? O diabo pode produzi-los, e o Magistério distingue autênticos milagres de enganações preternaturais. E você precisa de um papa para fazer isso. O cachorro está perseguindo a própria cauda. E qualquer que seja o critério pelo qual o verdadeiro papa se manifeste, que acontecerá se nenhum sedevacantista concordar que esse candidato em particular é o verdadeiro Vigário de Cristo? Tendo se livrado da monarquia do papa, eles agora exercem a “tirania das massas” que alguns chamam democracia. Isso é Protestantismo, não Catolicismo.”
(Ir. Andre Marie, M.I.C.M., Sedevacantism and Schism)